Die Toten Hosen: uma descoberta tardia, mas no momento certo

Foto: Bastian Bochinski

Passei mais de quarenta anos ouvindo punk rock e, por algum motivo, nunca me aprofundei em Die Toten Hosen.

Não que a banda fosse desconhecida. Pelo contrário. Os Hosen são uma instituição na Alemanha e há décadas arrastam multidões por onde passam. Ainda assim, o nome deles jamais fez parte das rodas de conversa que frequentei, dos fanzines que li ou dos shows que acompanhei ao longo da vida.

Meu conhecimento de música alemã, aliás, sempre foi bastante limitado. Nunca consegui me interessar por Kraftwerk. Acho Rammstein extremamente chato. E também nunca fui fã de Scorpions. Tirando o Rasta Knast, por conta da amizade com o pessoal do Agrotóxico, e os divertidos Punkles, que gravaram versões punk dos Beatles, meu contato com bandas alemãs sempre foi mínimo.

A curiosidade pelos Die Toten Hosen surgiu por um motivo específico: o documentário "Between Dog & Wolf – The New Model Army Story". Em determinado momento, Campino aparece nos bastidores de um show do New Model Army na Alemanha. Como admirador de longa data de Justin Sullivan, fiquei pensando: afinal, o que ele vê nessa banda?

A resposta começou a aparecer quando coloquei para tocar “Trink aus, wir müssen gehen!”, o novo álbum dos Hosen e, ao que tudo indica, o primeiro capítulo de uma despedida planejada. A banda já anunciou uma longa turnê final, que passa pela Argentina e termina em julho de 2027, em Düsseldorf, cidade natal do grupo.

Logo nas primeiras audições, uma surpresa: eu esperava encontrar uma banda de punk rock tradicional. Encontrei algo muito mais amplo.

Foto: Bastian Bochinski

Hier sind die Hosen”, que abre o disco, começa delicada, contemplativa, quase solene. Aos poucos cresce, ganha guitarras, peso e emoção. Em seguida, “Wir waren nie weg” traz a urgência do punk clássico e me remete imediatamente ao Stiff Little Fingers.

Ao longo do álbum, as referências continuaram aparecendo. “Schlechte Nachbarn” poderia tranquilamente estar em um disco do Bad Religion. “Lass mal nicht machen” me fez pensar, por mais estranho que pareça, em ZZ Top. “Was früher einmal war” tem cara de hino para estádio, enquanto “Nur nach vorn” trabalha as guitarras e a dinâmica de forma extremamente elegante.

Mas a grande surpresa foi perceber quantas vezes me lembrei do New Model Army.

Em faixas como “Was ist mit uns los” e “Schicksal”, encontrei algo que vai muito além da sonoridade. Há uma forma parecida de construir canções. A bateria conduz, as guitarras criam atmosfera e a voz assume o papel principal. São músicas que parecem existir para contar histórias.

Anos atrás, durante a turnê de 30 anos do New Model Army, tive a oportunidade de passar algumas horas com a banda em um bar depois do show. Entre os presentes estavam Redson, do Cólera, e Helinho, um dos fundadores da banda, que também fez parte do Condutores de Cadáver e fã absolutamente fanático pelo New Model Army até hoje.

Em meio ao barulho, às cervejas e às conversas sobre música, Helinho perguntou algo a Justin Sullivan sobre suas composições. Não lembro a pergunta exata, mas jamais esqueci a resposta:

No fundo, sou apenas um contador de histórias.

Foto: Bastian Bochinski

Ouvindo Campino em "Trink aus, wir müssen gehen!", lembrei várias vezes daquela frase.

Mesmo sem entender alemão, era possível perceber a intenção emocional das músicas. Algumas faixas, como “Glück”, sustentada quase apenas por voz e violão, funcionam justamente por isso. Não dependem de volume nem de velocidade. Dependem da interpretação.

E então chegamos à faixa-título.

Trink aus” encerra o álbum olhando para trás. A letra revisita o lendário Ratinger Hof, berço da cena punk de Düsseldorf, lembra brigas, viagens, sucessos, amigos e até a relação especial da banda com a Argentina.

O refrão é simples e devastador:

Esvazie o copo. Precisamos ir embora.

Foto: Bastian Bochinski

Não há tragédia. Não há auto piedade. Apenas a percepção de que a noite foi longa, bonita e está chegando ao fim.

Depois do encerramento, surge um segundo disco inteiro: "Alles muss raus!", com 25 covers e uma impressionante lista de convidados.

Ali estão Justin Sullivan, Charlie Harper, Richard Jobson, Neville Staple, Jean-Jacques Burnel, Marian Gold, Blixa Bargeld e muitos outros.

E, de repente, tudo faz sentido.

As influências que eu havia identificado ao longo da audição estavam realmente lá.

O disco principal responde à pergunta: “Quem foram os Die Toten Hosen?

O álbum de covers responde: “Quem ajudou a formar os Die Toten Hosen?

Foto: Bastian Bochinski

Talvez essa seja a grande força desse trabalho. Ele não soa como um funeral. Soa como um agradecimento.

Agradecimento aos amigos, às bandas que vieram antes, aos fãs e aos lugares que marcaram a trajetória do grupo.

Entre esses lugares, nenhum parece mais importante fora da Alemanha do que a Argentina. Não por acaso, a turnê final passa novamente por Buenos Aires. E o pôster dos shows resume essa relação de maneira brilhante:

Fútbol, Asado, Vino y Adiós Amigos.

Futebol, churrasco, vinho e adeus, amigos.

Difícil imaginar uma despedida mais honesta.

No fim das contas, não descobri apenas uma banda. Descobri uma história que estava acontecendo ao lado da nossa há mais de quarenta anos sem que eu tivesse prestado atenção.

E talvez essa seja uma das melhores coisas que a música ainda pode nos oferecer: a possibilidade de encontrar algo novo quando achávamos que já tínhamos ouvido de tudo.

Saúde, Campino.

Esvazie o copo. Está quase na hora de ir para casa.



Ricardo Cachorrão

Ricardo “Cachorrão” é o velho chato gente boa que não pede licença pra gostar de música. Viciado em rock and roll, formou opinião longe de rádio, longe de MTV e perto demais de pilhas de discos e revistas. Tem alergia a banda cover, respeito profundo por discos obscuros do Frank Zappa e ainda sai sorrindo de um show do Iron Maiden — mas é no calor, no barulho e no caos dos buracos punk da periferia que se sente vivo de verdade. Já escreveu para Rock Brigade, Kiss FM, Portal Rock Press e a Revista Eletrônica do Conservatório Souza Lima. Está no Rock On Board desde o começo — e não pretende sair tão cedo.

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