The HU: o som que chegou pelo atraso e ficou pela essência

Foto: Divulgação

Minha relação com o The HU começa com uma frustração — e talvez seja por isso que ela tenha ficado tão marcada.

Em 2020, o nome deles apareceu na programação do Lollapalooza Brasil. Era uma daquelas apostas curiosas no line-up, algo que fugia completamente do padrão. Um grupo vindo da Mongólia, misturando rock pesado com tradição milenar, instrumentos típicos e canto gutural. Soava exótico, diferente, quase estranho demais para ignorar.

Mas aí veio a pandemia. O mundo parou. O festival foi cancelado. E, junto com ele, ficou aquela sensação de “quase”. Até hoje, nunca mais se falou de um show do The HU no Brasil.

Só que a curiosidade já estava plantada.

Na época, fui atrás. Não esperei streaming, algoritmo ou hype passageiro. Fiz como sempre fiz com bandas que realmente me despertam interesse: fui atrás do físico. Importei “The Gereg” (2019) e, mais tarde, “Rumble of Thunder” (2022). Dois discos que não só confirmaram a expectativa, mas ampliaram aquela sensação inicial de estar diante de algo realmente fora da curva.

Ainda falta um na coleção — “Live at Glastonbury” (2024). Não chegou às minhas mãos ainda, mas é questão de tempo. Porque quando a conexão acontece desse jeito, ela não fica pela metade.

E talvez seja isso que mais me chama atenção no The HU: eles não entraram na minha vida por saturação, insistência de algoritmo ou buzz de rede social. Entraram por ausência. Por um show que não aconteceu. Por um encontro adiado.

E mesmo assim — ou talvez por isso mesmo — ficaram.

A vontade de falar deles agora não veio do nada. Veio porque a banda começou a dar sinais claros de um novo capítulo.

No final de janeiro, lançaram “The Real You”. Só fui ouvir agora — e é curioso como ela aponta para um caminho mais direto: praticamente um heavy metal puro, mas ainda carregando aqueles vocais guturais que são marca registrada da banda.



Nos últimos dias, vieram mais duas.

Warrior Chant”, lançada há quatro dias, já reconecta imediatamente com o The HU que me fisgou lá atrás: batida tribal, clima ritualístico e os timbres únicos dos instrumentos folclóricos da Mongólia.



E então, há três dias, surgiu “The Men”. A faixa dá nome ao single recente que reúne essas três músicas e, ao que tudo indica, antecipa o próximo álbum da banda, possivelmente intitulado “HUN”.

Mais pesada que a anterior, “The Men” ainda é profundamente enraizada nessa identidade tribal que a banda construiu tão bem.

O próprio release da faixa ajuda a entender o que está por trás disso tudo. A música é baseada na filosofia mongol do “espírito interior do homem”, ou Хийморь (Hiimori). Fala sobre força interior, energia positiva, generosidade — e como esses elementos devem guiar a forma como o homem se coloca no mundo.



Não é só música. É quase uma transmissão de valores.

E talvez seja exatamente isso que torna o The HU tão interessante: enquanto muita gente ainda tenta reinventar o rock olhando para frente, eles fazem isso olhando para trás — para tradições, para a ancestralidade, para algo que já existia muito antes de qualquer amplificador.

E fazem isso soar atual.

Ricardo Cachorrão

Ricardo "Cachorrão", é o velho chato gente boa! Viciado em rock and roll em quase todas as vertentes, não gosta de rádio, nunca assistiu MTV, mas coleciona discos e revistas de rock desde criança. Tem horror a bandas cover, se emociona com aquele disco obscuro do Frank Zappa, se diverte num show do Iron Maiden, mas sente-se bem mesmo num buraco punk da periferia. Já escreveu para Rock Brigade, Kiss FM, Portal Rock Press, Revista Eletrônica do Conservatório Souza Lima e é parte do staff ROCKONBOARD desde o nascimento.

Postar um comentário

Postagem Anterior Próxima Postagem
Banner-Mundo-livre-SA