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| Foto: Eduardo de Goes |
Algumas
criaturas simplesmente se recusam a permanecer mortas. Desde que surgiu nos
laboratórios do ABC Paulista, o Reverendo Frankenstein vem dando vida a uma
criatura sonora construída com pedaços de psychobilly, surf music, rockabilly e
punk rock. O primeiro choque elétrico veio com "Está Vivo… Está Vivo!" em 2016.
Anos depois, o grupo registrou sua força crua no palco com "Morto (Ao Vivo)".
Agora, a descarga volta a percorrer os cabos: o monstro retorna em "Renascido!",
novo EP que reafirma a vitalidade da banda e prova que certas experiências
musicais simplesmente não param de se levantar da mesa de dissecação.
A
capa de "Renascido!", criada por Claudio Villa (Villa
von Zorch), reforça essa ideia. Nela, um
Frankenstein punk iluminado por descargas verdes atravessa uma cidade mergulhada
em neon tóxico, como se tivesse acabado de escapar de um laboratório
radioativo.
O novo trabalho marca o primeiro conjunto de músicas inéditas da banda desde "Tic-Tac" (2019) e reafirma a química entre M. Krempel (voz) e Alex from Hell (guitarra), presentes em toda a discografia do grupo. A formação se completa com Villa von Zorch (baixo) e Renan Pigmew (bateria), que entraram em 2022 e ajudam a impulsionar ainda mais a energia do quarteto.
O
lançamento do EP aconteceu em um cenário simbólico: o palco do Psycho Carnival,
em Curitiba, um dos mais tradicionais encontros de psychobilly do mundo.
Celebrando 25 anos de existência, o festival reuniu dezenas de bandas da cena
underground internacional e reforçou o peso do evento dentro do circuito do gênero.
A
abertura com “O Respiro” apresenta um clima soturno e denso, com letra assinada
por Fabio Gasparini, da banda Varsóvia. A faixa cria uma atmosfera sombria que
funciona como porta de entrada para a criatura musical do EP.
Logo
depois, “Deixa Ela Falar” muda completamente o clima. Com pegada new wave e
refrão que convida o público a bater palmas, a música ainda surpreende com uma
guinada mais pesada no meio do caminho, revelando outra faceta do som da banda.
A
arte do single “Deixa Ela Falar” apresenta uma versão ainda mais grotesca do
monstro que dá nome à banda, quase biomecânico. A imagem reforça a ideia
central do Reverendo Frankenstein: uma criatura musical montada a partir de
pedaços distintos do rock’n’roll.
A crítica social aparece em “Tubarões & Serpentes”, cuja letra é assinada por Mauk Garcia, da banda A Grande Trepada (The Big Trep). A música aborda a rotina esmagadora da escala 6x1 enquanto contrasta o tema com uma melodia surpreendentemente leve.
Um
dos momentos mais curiosos do EP surge quando o grupo revisita “Skate Punk”, do
Gritando HC, transformando-a em “Surf Punk”. A releitura ganha uma introdução
jazz inesperada e ainda conta com a participação do lendário guitarrista
Robertinho de Recife, músico que construiu uma carreira extensa acompanhando artistas
como Zé Ramalho e dividindo palco com Andy Summers.
Há
também uma pequena brincadeira estrutural no EP. A banda revisita a música em
dois momentos distintos: primeiro em “Surf Punk”, versão completa da faixa, e
depois em “Jazz Punk”, que reaproveita a introdução jazzística como uma espécie
de epílogo instrumental.
O
bom humor aparece em “Não Me Arrependo (I Would Do It Again)”, versão da banda
santista The Bombers que fará parte de um tributo organizado pelo Estúdio
Mutante. A faixa mostra o lado mais descontraído do grupo, carregada de
guitarras de surf music e reverb generoso.
Com "Renascido!", o Reverendo Frankenstein reafirma sua capacidade de transformar
pedaços aparentemente incompatíveis do rock’n’roll em uma criatura musical
vibrante e imprevisível. Psychobilly, surf music, punk rock, humor e crítica
social convivem dentro desse laboratório sonoro — e se a história já ensinou
alguma coisa, é que certos monstros, quando ganham vida, simplesmente se
recusam a desaparecer.



