O som invisível que sustenta o mundo

Foto: Divulgação

Não é todo dia que um documentário te desmonta.

Mas foi exatamente isso que aconteceu comigo ao assistir The Groove Under the Groove: Os Sons de Paulinho da Costa.

E o mais curioso é como cheguei até ele. Não foi indicação de algoritmo, nem hype de rede social. Foi uma conversa. Um episódio do Mano a Mano (veja aqui), podcast comandado pelo Mano Brown, que, como tantas vezes acontece, abriu uma porta — e atrás dela estava uma história que eu, honestamente, não estava preparado para sentir do jeito que senti.

Porque não se trata apenas de música.

Se trata de um homem.

O nome dele é Paulinho da Costa. E existe uma grande chance de você já ter ouvido o trabalho dele… mesmo sem nunca ter ouvido falar nele.

E talvez seja exatamente isso que mais emociona.

De Sérgio Mendes a Quincy Jones, de Earth, Wind & Fire a Madonna, de Michael Jackson a George Benson… e até dividindo gravações com Ray CharlesPaulinho da Costa espalhou sua percussão por mais de mil artistas, participou de milhares de gravações e ajudou a construir obras que renderam prêmios como o Grammy Awards e até o Academy Awards.

Mas nada disso explica completamente o que ele representa.

Paulinho não é o cara do centro do palco. Não é o rosto estampado na capa. Não é o nome que aparece primeiro. Mas é o som que está lá, sustentando tudo. Dando corpo, textura, vida. O tipo de músico que não chama atenção — mas cuja ausência seria impossível ignorar.

E quando você percebe isso, alguma coisa muda.

Foto: Divulgação

Porque a história dele escancara uma contradição que a gente finge não ver: quantos gigantes existem longe dos holofotes? Quantas carreiras fundamentais são construídas no detalhe, no ouvido, na sensibilidade — e não no reconhecimento imediato?

O documentário não grita isso. Ele mostra. E talvez por isso doa mais.

Dói perceber que você já sentiu aquela percussão antes, já se emocionou com ela, já dançou com ela — sem saber de onde vinha.

Dói, mas também é bonito.

Bonito porque existe algo de muito puro em alguém que constrói uma trajetória dessa forma. Sem alarde. Sem ego inflado. Só música. Só entrega.

E talvez seja por isso que esse filme pega tão fundo.

Porque, no fim das contas, ele não fala só sobre um músico extraordinário. Ele fala sobre tudo aquilo que sustenta o mundo sem aparecer.

E quando terminou, eu fiquei ali, em silêncio.

Tentando entender por que estava tão mexido.

Mas acho que nem precisa entender tanto assim.

Às vezes, sentir já é suficiente.

Foto: Divulgação


Ricardo Cachorrão

Ricardo "Cachorrão", é o velho chato gente boa! Viciado em rock and roll em quase todas as vertentes, não gosta de rádio, nunca assistiu MTV, mas coleciona discos e revistas de rock desde criança. Tem horror a bandas cover, se emociona com aquele disco obscuro do Frank Zappa, se diverte num show do Iron Maiden, mas sente-se bem mesmo num buraco punk da periferia. Já escreveu para Rock Brigade, Kiss FM, Portal Rock Press, Revista Eletrônica do Conservatório Souza Lima e é parte do staff ROCKONBOARD desde o nascimento.

Postar um comentário

Postagem Anterior Próxima Postagem
Banner-Mundo-livre-SA