Morrissey lança “Make-Up Is a Lie”, seu novo álbum após anos de polêmicas


Após anos de batalhas judiciais, álbuns engavetados e acusações de censura, o ex-vocalista dos Smiths ressurge nesta sexta-feira (6), com seu 14º disco de estúdio — um trabalho que funde seu sarcasmo clássico com uma sonoridade deliberadamente fora de moda.

Para muitos, ele é o vilão incompreendido do rock britânico; para outros, o último defensor da liberdade de expressão em uma era de relações públicas milimetricamente calculadas.

O fato é que Morrissey nunca foi de facilitar as coisas — nem para as gravadoras, nem para os fãs e, certamente, nem para si mesmo. Ao longo da carreira, construiu uma reputação baseada em provocações, ironia e críticas ácidas ao mundo contemporâneo.


Entre suas bandeiras mais conhecidas está o ativismo radical pelos direitos dos animais. Morrissey defende abertamente que a vida animal — incluindo insetos, anfíbios, pássaros, mamíferos e peixes — merece o mesmo respeito que a vida humana.

Esse posicionamento aparece repetidamente em sua obra, seja no clássico Meat Is Murder (1985), ainda com os Smiths, ou em momentos mais recentes, como The Bullfighter Dies (2014).

Nesta sexta-feira, o mundo finalmente conhece Make-Up Is a Lie, o álbum que nasce das cinzas do controverso e “cancelado” Bonfire of Teenagers. Lançado pela lendária Sire Records, sua nova casa após um turbulento divórcio com Capitol e BMG, o disco surge como muito mais que uma coleção de canções — é um manifesto de sobrevivência artística.

​A odisseia do álbum perdido


​A jornada foi exaustiva. Entre 2022 e 2024, Morrissey viveu um pesadelo burocrático. A Capitol Records, após assinar com o cantor, decidiu engavetar Bonfire of Teenagers, alegando questões estratégicas. Enquanto isso, Morrissey gritava aos quatro ventos que estava sendo vítima da "cultura de censura" e "agendas de diversidade".

​Após recomprar os direitos de suas fitas master em 2024, Morrissey não apenas recuperou sua voz, mas rebatizou o projeto. Com o novo título, Make-Up Is a Lie, manteve a espinha dorsal das sessões produzidas por Joe Chiccarelli, mas chega com ajustes e polimentos que refletem um artista consciente de que o tempo se tornou seu recurso mais escasso.
Entre clássicos e clichês: a sonoridade híbrida

​Morrissey é um artesão da canção que despreza o óbvio. Enquanto o mundo não precisaria de novos álbuns para celebrar sua obra com os The Smiths ou seus clássicos solo, como Vauxhall and I (1994) e You’re the Quarry (2004), o cantor insiste em entrar no estúdio para criar estruturas híbridas e de difícil audição. Para ele, o som feito para rádios ficou em 1988.

​O novo álbum evita os clichês do "indie-rock de meia-idade". Há uma busca por inspirações diversas, mas sem resquícios de rockabilly ou britpop de outras obras.
​"Notre-Dame": o segundo single, coescrito com o colaborador de longa data Alain Whyte, é uma peça de melancolia grandiosa inspirada no incêndio da catedral parisiense em 2019. A química entre os dois prova que, embora ausente em parte do disco, a mão de Whyte ainda é o que melhor molda a sensibilidade melódica de Moz.


​"Amazona": um cover audacioso do Roxy Music que se torna um dos pontos altos do disco, com um solo de guitarra "gritante" e um beat acelerado no meio da canção, que serve como uma ponte de energia pura antes de retornar ao tom solene inicial. Nada de novo aqui, mas Morrissey sempre amou Roxy Music tanto quanto Bowie e The Ramones.

A nova banda de Morrissey

​Embora muitos sintam falta da presença constante de Boz Boorer, Morrissey montou o que a crítica já chama de sua banda mais "visceral" em décadas. Este núcleo trouxe uma cara moderna e robusta ao som ao vivo: 

Carmen Vandenberg (Bones UK)

Com sua guitarra agressiva e estilo "sujo", ela moderniza o catálogo, dividindo o palco com o veterano Jesse Tobias. Sua influência é clara nas texturas mais pesadas do novo álbum.

​Juan Galeano (Diamante Eléctrico)

O baixista colombiano traz a precisão do rock latino e um groove que faltava em formações anteriores.

​Camila Grey (Uh Huh Her)

Mais do que tecladista, tornou-se o braço direito criativo, coescrevendo a faixa-título. Suas camadas de sintetizadores dão o tom contemporâneo que separa este disco de qualquer coisa feita por Morrissey nos anos 90.

Um Morrissey na defensiva

​Falar de Morrissey em 2026 é falar de um artista que luta para ser entendido à sua própria maneira — muitas vezes peculiar e espinhosa. Seu humor sádico e o sarcasmo de língua afiada estão presentes em cada entrelinha das 12 novas composições.

Ele continua sendo o artista que fala o que vem à cabeça, muitas vezes se colocando na defensiva contra uma indústria que ele considera fascista e censuradora. Muitos pensam o mesmo dele; de qualquer maneira, milhares de pessoas esgotam seus ingressos, como aconteceu recentemente, no final de fevereiro, na O2 Arena de Londres. 17 mil pessoas compraram ingressos sabendo que o show poderia ser cancelado minutos antes de Morrissey entrar ao palco.

​Mas, além das polêmicas e escândalos para jornais e tabloides, o que resta hoje nas prateleiras das lojas de discos importados (e nos streamings) é a música. 

Para cada hino como "Everyday Is Like Sunday", o público agora recebe 12 novos motivos para amar ou odiar o homem de Manchester.
No final das contas, Morrissey não quer apenas ser ouvido; ele quer o direito de discordar. E em Make-Up Is a Lie, ele faz isso com uma elegância sonora que poucos de seus contemporâneos conseguem atingir.

Loquillo Panamá

Nômade agregador de ritmos musicais e fanático por shows. Está sempre correndo atrás de novidades para multiplicar e informar os amantes de boa música.

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