Brigitte Calls Me Baby: a máquina do tempo do rock alternativo

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É comum ouvir em rodas de amigos, festas e redes sociais a mesma lamentação: "Não existem mais bandas novas boas". O saudosismo pelos anos 80 e 90 é forte, e a sensação é de que ninguém mais faz música como The Smiths, The Cure ou The Strokes daquela época gloriosa. 

Mas a verdade é que o coração desse tipo de rock ou post-punk "das antigas" apenas mudou de endereço, faixa etária e não consta com a divulgação excessiva antiga ou o jabá de grandes gravadoras ou corporações como a MTV. 
​Diretamente de Chicago, o Brigitte Calls Me Baby surge como a "jukebox novinha" que não teme o peso de seus ídolos.

No centro de tudo está Wes Leavins, um vocalista que opera um milagre sonoro: fundir o barítono aveludado de Roy Orbison com o lirismo dramático de Morrissey. ​Se o álbum de estreia, The Future Is Our Way Out, foi o cartão de visitas, o segundo disco, Irreversible (lançado neste 13 de março de 2026), pisa no acelerador. ​A atmosfera é de um culto: mãos para o alto, coros em uníssono e uma sensação de bênção espiritual em cada riff. É um ritual catártico que transforma o show em uma experiência transcendental. 

​Herdeiros ou Hereges?

​Para alguns, soar tanto como os ícones do passado pode parecer heresia; para o Brigitte Calls Me Baby, é uma condecoração. Eles não apenas aceitam as comparações, eles as abraçam. Não à toa, dividiram arenas gigantes com o próprio Morrissey em Manchester e Paris, e agora percorrem o mundo ao lado do The Vaccines. ​O encontro explosivo entre o post-punk britânico e o rockabilly é evidente. 

Se os Strokes de Is This It decidissem gravar uma música com Roy Orbison, o resultado seria "Slumber Party", single de estreia do projeto com clipe lançado no início de fevereiro. ​A bateria é reta e seca, típica de Julian Casablancas e companhia, mas o refrão abre espaço para Wes Leavins alcançar notas que lembram "Crying", de Orbison. O diferencial é que a música faz você querer dançar sozinho no quarto, com aquela melancolia dançante que o The Cure aperfeiçoou nos anos 80. Uma máquina prazerosa de emoções em formato de canções.

​Em músicas como "Truth is Stranger Than Fiction", a banda resgata novamente a urgência dos Strokes de 2001, mas com uma produção que evoca o espírito de Orbison para criar um efeito multigeracional. São vocais perfeitos, altos e pausados, sobre guitarras rápidas em riffs acelerados — composições próprias que parecem clássicos perdidos que acabamos de reencontrar.

​O segundo single de divulgação, "I Danced With Another Love In My Dream", tem uma vibe de puro romantismo trágico dos anos 50 filtrado pelos anos 80. Aqui, a influência de Morrissey e dos Smiths é inegável. A guitarra de Jack Fluegel faz um trabalho de "dedilhados lamentosos" que remete diretamente a Johnny Marr. A letra fala de traição em sonho, um tema clássico da autodepreciação poética do rock alternativo clássico.

​Canções como "I Can't Have You All To Myself" e "There Always" são joias que trazem aquela essência que muitos sentiram falta no álbum Make Up Is A Lie (o engavetado Bonfire of Teenagers) recém lançado do Morrissey; são faixas que poderiam facilmente habitar obras-primas como Viva Hate ou Vauxhall and I.
​Se Morrissey transformou a solidão em um hino em Manchester, Wes Leavins faz o mesmo para a nova geração. Em "I Danced With Another Love In My Dream", você sente o cheiro das flores de cemitério dos Smiths misturado com o brilho da brilhantina dos anos 50. 

O diferencial pode ser o uso de reverb na voz, criando uma distância fantasmagórica, como se a música estivesse tocando em um baile de formatura abandonado em 1962 (era a canção perfeita para uma nova versão da cena final do filme A Garota de Rosa Shocking, do John Hughes). ​Retrofuturismo feito para driblar qualquer falha do algoritmo para invadir o radar de fãs de Arctic Monkeys, Psychedelic Furs, Future Islands, Enjambre ou She Wants Revenge. Tem algo para todos em Irreversible.

​Parece incrível uma banda como Brigitte ter aparecido no período posterior ao colapso do mundo de 2020, ou talvez seja exatamente fruto dessa reprogramação que deixou o mundo de cabeça pra baixo. A terceira canção a virar single do álbum Irreversible foi "I Can Take The Sun Out Of The Sky". ​Uma bênção espiritual dentro do álbum com uma produção grandiosa que remete ao The Killers de Sam's Town; a música soa como um ritual de libertação. A guitarra rápida e os riffs repetidos aceleradamente criam um transe que faz o público se sentir em um culto moderno ao Rock 'n' Roll. O baixo de Devin Wessels é o coração aqui, carregando a canção com um peso que impede que ela se torne apenas uma balada pop, mantendo o pé no rock alternativo.

​Com o lançamento de Irreversible hoje, 13 de março de 2026, a jornada da Brigitte Calls Me Baby atinge um novo patamar. Para entender esse "culto" ao retrô-rock que eles promovem, precisamos olhar para as raízes cinematográficas e quase predestinadas de seu líder, Wes Leavins.

​Do Altar de Elvis ao Trono do Rock Alternativo: A Saga Brigitte Calls Me Baby - ​O garoto do Texas que virou o Rei. 

Antes de Chicago e dos sintetizadores, havia a voz. Wes Leavins (nascido Jacob Rowley) cresceu em Nederland, no Texas, mergulhado na era de ouro do rádio através da coleção de discos dos pais e do seu avô. Em 2016, sua obsessão pelo timbre dos anos 50 o levou a Chicago para encarnar Elvis Presley no musical Million Dollar Quartet. ​Essa performance não apenas o colocou nos palcos, mas no radar de Hollywood. O diretor Baz Luhrmann o recrutou para o épico biográfico Elvis (2022).  Inicialmente, Wes seria a voz cantada do Rei; porém, quando Austin Butler provou ser capaz de emular o ícone, Wes permaneceu no projeto como consultor e violonista na pré-produção. 

Foi nesse set de filmagem que ele conheceu o lendário produtor Dave Cobb (produtor do Rival Sons); era a faísca que faltava para o nascimento da banda. ​O que une o Elvis que Wes interpretou, o Roy Orbison que ele emula e o Morrissey que ele idolatra é o barítono dramático. Wes Leavins não apenas "faz a voz"; ele entende o vibrato e a pausa dramática que Elvis usava. Isso dá às músicas novas uma autoridade que bandas de indie rock comum não têm.

​O nome da banda carrega o mesmo romantismo anacrônico de sua música

Na adolescência, Wes mantinha uma correspondência por cartas com ninguém menos que a musa francesa Brigitte Bardot. Essa obsessão pelo clássico — seja no cinema ou na música — é o DNA que faz o Brigitte Calls Me Baby soar como uma "jukebox" espiritual. ​O Brigitte Calls Me Baby não está tentando inventar a roda; eles estão apenas garantindo que ela continue girando com a elegância e a fúria que o rock merece. ​Irreversible não é apenas um título. É uma afirmação de que o impacto dessa banda no cenário atual não tem mais volta. Eles são a prova viva de que o rock "antigamente" era bom, mas o de agora, nas mãos deles, é divino.

​O álbum como um todo prova que a banda não é apenas uma "fase". Eles conseguiram refinar o som de The Future Is Our Way Out, deixando a produção de Dave Cobb brilhar em harmonia com a experiência e energia crua que a banda desenvolveu na estrada abrindo shows para The Vaccines e Morrissey. 

A esperança é que a tocha carregada pelos jovens americanos não se apague na hora de apresentar seu terceiro álbum até lá temos bastante tempo para desfrutar os 38 minutos das 11 canções de Irreversible. Tomara que não precisem lançar um cover sem graça como a versão para "Careless Whisper" do WHAM! que antecedeu o novo álbum. 

Nota Máxima: Superando a expectativa   


Loquillo Panamá

Nômade agregador de ritmos musicais e fanático por shows. Está sempre correndo atrás de novidades para multiplicar e informar os amantes de boa música.

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