O Concreto Já Rachou – 40 anos de uma fissura histórica

Foto: Divulgação

Em 1985, o Brasil respirava, mas ainda ofegante. A ditadura militar havia terminado formalmente, porém seus escombros permaneciam espalhados pelas instituições, pela mentalidade política e pelo cotidiano da população. A democracia era uma palavra recém-reaprendida — frágil, tateante, cheia de promessas e incertezas.

O país vivia recessão, hiperinflação, desemprego e um sentimento difuso de instabilidade. A esperança existia, mas não era ingênua. Era atravessada por desconfiança, indignação e urgência. Foi nesse cenário que surgiu o primeiro registro da Plebe Rude, que já batalhava desde 1981.

“O Concreto Já Rachou” não é apenas um disco de estreia. É um documento político, um manifesto geracional e um retrato sonoro de um país tentando se reinventar.


O “Mini LP”: inovação industrial, contradição comercial

O lançamento veio embalado em um formato que simboliza bem as contradições daquele período: o chamado “Mini LP”. A proposta da indústria era simples — menos faixas, preço mais acessível. Na prática, não foi isso que aconteceu.

Apesar de conter apenas sete músicas, o disco era prensado em 12 polegadas, com capa, encarte e acabamento idênticos a um LP convencional. O custo de produção era praticamente o mesmo — e o preço nas lojas também. O consumidor pagava como LP cheio por um registro mais curto.

Outros títulos emblemáticos saíram nesse mesmo formato: "Pânico em SP", dos Inocentes, pela Warner, e "Passos no Escuro", da banda paulistana Zero, também pela EMI, mesma gravadora da Plebe.

A ideia era moderna. A execução, nem tanto. Mas a limitação numérica de faixas acabou gerando um efeito colateral positivo: não havia espaço para dispersão. Era impacto direto.

Foto: Divulgação

Sete faixas, nenhuma sobra

O Concreto Já Rachou” é cirúrgico. Sete músicas, sete cortes precisos.

Até Quando Esperar” abre o disco e tornou-se clássico instantâneo, um hino à indignação juvenil que ultrapassou gerações. “Proteção” é um dedo cravado na ferida ainda aberta da ditadura. “Johnny Vai à Guerra (Outra Vez)” expõe o ciclo repetitivo da violência institucionalizada. “Minha Renda”, com participação de Herbert Vianna — que também assina a produção — conecta Brasília ao mainstream do rock nacional sem diluir a identidade da banda.

Sexo e Karatê” carrega a tensão urbana típica dos anos 80, enquanto “Brasília” encerra o disco evidenciando uma das marcas registradas da Plebe: o contraste entre os vocais grave e agudo, simultâneos, criando uma tensão estética que dialoga perfeitamente com o conteúdo das letras.

A produção de Os Paralamas do Sucesso, via Herbert Vianna, não suavizou a banda. Ao contrário: potencializou sua urgência.

Foto: Caru Leão - Divulgação

A Plebe segue na ativa

Quarenta anos depois, a Plebe Rude permanece relevante e ativa.

Philippe Seabra (voz e guitarra) e André X (baixo) seguem como pilares originais. Há duas décadas, Clemente — histórico líder dos Inocentes — assumiu a segunda guitarra e vocal, reforçando ainda mais a conexão direta entre Brasília e São Paulo dentro da história do punk brasileiro. Na bateria, Marcelo Capucci completa a formação, músico, professor e escritor.

Não se trata de uma banda vivendo de nostalgia. Trata-se de um grupo que atravessou gerações mantendo coerência estética e política.


Memória viva: “O Cara da Plebe”

Em 2025, Philippe Seabra lançou sua autobiografia, "O Cara da Plebe", pela Editora Belas Letras.

Mais do que a trajetória pessoal de um músico, o livro funciona como um mergulho profundo na formação da Plebe e no próprio rock brasileiro da década de 80. É leitura fundamental para compreender o contexto, as tensões, os bastidores e as decisões que moldaram “O Concreto Já Rachou”.

O concreto rachou — e continua rachando

Se em 1985 o Brasil ainda aprendia o significado de democracia, hoje sabemos que ela não é uma conquista permanente — é um processo em constante disputa.

“O Concreto Já Rachou” permanece atual porque fala de estruturas rígidas que insistem em não ceder. Fala de desigualdade, autoritarismo, frustração e resistência. E, sobretudo, fala de inquietação.

O concreto rachou. Mas a pressão continua.

E para quem viveu aquele período, acompanhou a construção dessa cena e ainda segue acreditando na música como ferramenta de consciência e transformação, celebrar esses 40 anos não é apenas revisitar um disco — é reafirmar um compromisso. Porque enquanto houver tensão social, desigualdade e autoritarismo à espreita, haverá também vozes dispostas a rachar o concreto outra vez.




Ricardo Cachorrão

Ricardo "Cachorrão", é o velho chato gente boa! Viciado em rock and roll em quase todas as vertentes, não gosta de rádio, nunca assistiu MTV, mas coleciona discos e revistas de rock desde criança. Tem horror a bandas cover, se emociona com aquele disco obscuro do Frank Zappa, se diverte num show do Iron Maiden, mas sente-se bem mesmo num buraco punk da periferia. Já escreveu para Rock Brigade, Kiss FM, Portal Rock Press, Revista Eletrônica do Conservatório Souza Lima e é parte do staff ROCKONBOARD desde o nascimento.

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