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| Foto: Divulgação |
Em
1985, o Brasil respirava, mas ainda ofegante. A ditadura militar havia
terminado formalmente, porém seus escombros permaneciam espalhados pelas
instituições, pela mentalidade política e pelo cotidiano da população. A
democracia era uma palavra recém-reaprendida — frágil, tateante, cheia de
promessas e incertezas.
O
país vivia recessão, hiperinflação, desemprego e um sentimento difuso de
instabilidade. A esperança existia, mas não era ingênua. Era atravessada por
desconfiança, indignação e urgência. Foi nesse cenário que surgiu o primeiro
registro da Plebe Rude, que já batalhava desde 1981.
“O
Concreto Já Rachou” não é apenas um disco de estreia. É um documento político,
um manifesto geracional e um retrato sonoro de um país tentando se reinventar.
O
lançamento veio embalado em um formato que simboliza bem as contradições
daquele período: o chamado “Mini LP”. A proposta da indústria era simples —
menos faixas, preço mais acessível. Na prática, não foi isso que aconteceu.
Apesar
de conter apenas sete músicas, o disco era prensado em 12 polegadas, com capa,
encarte e acabamento idênticos a um LP convencional. O custo de produção era
praticamente o mesmo — e o preço nas lojas também. O consumidor pagava como LP
cheio por um registro mais curto.
Outros
títulos emblemáticos saíram nesse mesmo formato: "Pânico em SP", dos Inocentes,
pela Warner, e "Passos no Escuro", da banda paulistana Zero, também pela EMI,
mesma gravadora da Plebe.
A
ideia era moderna. A execução, nem tanto. Mas a limitação numérica de faixas
acabou gerando um efeito colateral positivo: não havia espaço para dispersão.
Era impacto direto.
“O
Concreto Já Rachou” é cirúrgico. Sete músicas, sete cortes precisos.
“Até
Quando Esperar” abre o disco e tornou-se clássico instantâneo, um hino à indignação juvenil
que ultrapassou gerações. “Proteção” é um dedo cravado na ferida ainda aberta
da ditadura. “Johnny Vai à Guerra (Outra Vez)” expõe o ciclo repetitivo da
violência institucionalizada. “Minha Renda”, com participação de Herbert Vianna
— que também assina a produção — conecta Brasília ao mainstream do rock
nacional sem diluir a identidade da banda.
“Sexo
e Karatê” carrega a tensão urbana típica dos anos 80, enquanto “Brasília”
encerra o disco evidenciando uma das marcas registradas da Plebe: o contraste
entre os vocais grave e agudo, simultâneos, criando uma tensão estética que
dialoga perfeitamente com o conteúdo das letras.
A
produção de Os Paralamas do Sucesso, via Herbert Vianna, não suavizou a banda.
Ao contrário: potencializou sua urgência.
Quarenta
anos depois, a Plebe Rude permanece relevante e ativa.
Philippe
Seabra (voz e guitarra) e André X (baixo) seguem como pilares originais. Há
duas décadas, Clemente — histórico líder dos Inocentes — assumiu a segunda
guitarra e vocal, reforçando ainda mais a conexão direta entre Brasília e São
Paulo dentro da história do punk brasileiro. Na bateria, Marcelo Capucci
completa a formação, músico, professor e escritor.
Não
se trata de uma banda vivendo de nostalgia. Trata-se de um grupo que atravessou
gerações mantendo coerência estética e política.
Em
2025, Philippe Seabra lançou sua autobiografia, "O Cara da Plebe", pela Editora
Belas Letras.
Mais
do que a trajetória pessoal de um músico, o livro funciona como um mergulho
profundo na formação da Plebe e no próprio rock brasileiro da década de 80. É
leitura fundamental para compreender o contexto, as tensões, os bastidores e as
decisões que moldaram “O Concreto Já Rachou”.
O
concreto rachou — e continua rachando
Se
em 1985 o Brasil ainda aprendia o significado de democracia, hoje sabemos que
ela não é uma conquista permanente — é um processo em constante disputa.
“O
Concreto Já Rachou” permanece atual porque fala de estruturas rígidas que
insistem em não ceder. Fala de desigualdade, autoritarismo, frustração e
resistência. E, sobretudo, fala de inquietação.
O
concreto rachou. Mas a pressão continua.
E
para quem viveu aquele período, acompanhou a construção dessa cena e ainda
segue acreditando na música como ferramenta de consciência e transformação,
celebrar esses 40 anos não é apenas revisitar um disco — é reafirmar um
compromisso. Porque enquanto houver tensão social, desigualdade e autoritarismo
à espreita, haverá também vozes dispostas a rachar o concreto outra vez.
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Plebe Rude





