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| Foto: Paulo Vasconcellos / Divulgação |
Em 1986, o punk paulista entrou
numa major sem suavizar o discurso
Em
1986, se você dissesse para alguém da cena punk paulistana que uma banda da
Zona Norte lançaria um disco por uma multinacional, a reação provavelmente
seria de desconfiança — ou revolta.
O
Brasil ainda tentava se reorganizar depois da ditadura. A inflação corroía
salários, o Plano Cruzado dava seus primeiros passos e a juventude periférica
seguia lidando com violência policial, precariedade e ausência de horizonte. O
punk não era moda. Era ferramenta de sobrevivência.
Foi
nesse contexto que os Inocentes lançaram o mini LP “Pânico em SP” pela Warner
Music Brasil.
Primeira
banda punk paulistana a estrear por uma major.
A
produção ficou a cargo de Branco Mello e Pena Schmidt, com direção artística de
Liminha. Não era um detalhe técnico. Era o encontro direto entre a urgência do
subúrbio e a engrenagem da indústria fonográfica.
E o
disco não suavizou nada.
“Rotina”
abre o trabalho de forma quase autobiográfica. Clemente canta sua vida como
encarregado de uma fábrica de cadarços no bairro do Limão, Zona Norte de São
Paulo — território decisivo na formação do punk paulista. Não há romantização.
Há jornada de trabalho, desgaste, opressão concreta. O punk nasce do chão da
fábrica.
Em
“Ele Disse Não”, a banda transforma conflito interno em registro histórico. A
música é inspirada em Ariel Uliana Junior, ex-vocalista dos Inocentes, que
também integrou o Restos de Nada e depois fundaria o Invasores de Cérebros.
Ariel não concordava com a assinatura com uma grande gravadora. Considerava
aquilo uma possível traição ideológica. A letra registra sua recusa sem apagar
sua importância histórica.
Isso
é maturidade. O movimento cresce quando encara suas próprias divergências.
“Não
Acordem a Cidade”, uma das músicas mais antigas do repertório (originalmente
concebida como blues), é crônica da madrugada paulistana. Autobiográfica,
atmosférica, urgente. A cidade está dormindo — ou apenas anestesiada?
Lado
B: quando o mundo entra no disco
“(Salvem) El Salvador” insere a América Latina no centro da narrativa. Em plena Guerra
Fria, a banda denuncia um país espremido entre interesses geopolíticos. Não era
comum ver essa abordagem num lançamento de major. Mas ela está ali — clara.
“Expresso
Oriente” já falava, em 1986, sobre o massacre nos campos de Sabra e Chatila.
Quarenta anos depois, a música permanece brutalmente atual. A Faixa de Gaza
voltou a ser palco de devastação, com milhares de civis mortos. Israel, com
apoio político e militar dos Estados Unidos, é apontado por organizações
internacionais e analistas como responsável direto pela crise humanitária
recente. O que era denúncia histórica permanece como tragédia contemporânea.
O
encerramento com “Pânico em SP” fecha o círculo. Depois da fábrica, da
divergência ideológica e dos conflitos internacionais, o disco retorna à
cidade. Violência, medo e tensão urbana não aparecem como retórica — são
retrato.
Eu
me aproximei do punk há mais de quatro décadas pela postura política de
protesto. Não foi pela estética. Foi pelo posicionamento.
Revisitar
“Pânico em SP” hoje não é exercício de nostalgia. É constatar que muitas das
estruturas denunciadas ali seguem de pé.
A
discussão sobre assinar ou não com uma major fez parte do amadurecimento do
movimento. O disco não fugiu desse debate — ele o eternizou em vinil.
O
que permanece, quatro décadas depois, é algo mais importante do que o selo na
capa: as seis faixas continuam dialogando com o presente.
Enquanto
houver rotina esmagando trabalhador, cidade anestesiada e potências decidindo o
destino de povos inteiros, “Pânico em SP” seguirá sendo mais do que um marco
discográfico.
Será
documento. E continuará incomodando.
Tags
Inocentes




