Em janeiro de 1998, o Rio de Janeiro viveu um daqueles dias que ficam gravados na memória coletiva. Foi ali que o U2 se apresentou pela primeira — e até hoje única — vez na cidade, em um show histórico realizado no Autódromo de Jacarepaguá, como parte da turnê PopMart. Passados 28 anos, rumores e especulações voltam a cercar o nome da banda, apontada por fãs como uma possível atração do evento Todo Mundo No Rio, que acontece na Praia de Copacabana. Caso se confirme, seria o retorno do U2 à Cidade Maravilhosa quase três décadas após sua primeira passagem.
O maior show da Terra
O PopMart Tour marcou uma das fases mais ambiciosas da banda, com um palco monumental, telões gigantescos, elementos cenográficos futuristas e uma proposta estética que dividiu opiniões na época, mas que hoje é vista como um dos momentos mais ousados da carreira do grupo liderado por Bono Vox.
No repertório, o U2 misturava o então recente álbum Pop com clássicos que já eram hinos globais, como “Where the Streets Have No Name”, “With or Without You” e “One”, criando uma experiência que ia muito além do show: era um espetáculo multimídia em escala poucas vezes vista no Brasil até então.
Cerca de 100 mil pessoas enfrentaram uma verdadeira odisseia no dia 27 de janeiro de 1998, em plena noite de meio de semana, para presenciar o que muitos anunciavam como “O Maior Show da Terra”. À época, o U2 trouxe para o Brasil o maior palco já montado no país, equipado com telões de alta definição, uma produção monumental e múltiplas trocas de figurino ao longo da apresentação.
No palco do Autódromo de Jacarepaguá, a banda entregou um show longo e ambicioso, com mais de vinte músicas no repertório - com direito a dois bis. O setlist foi fortemente ancorado em Pop (1997), álbum que marcava uma fase ousada do grupo, flertando abertamente com techno, música eletrônica e estética futurista, sem abandonar seus grandes hinos.
O espetáculo ainda teve um momento de forte identidade brasileira, com a participação de integrantes da bateria da escola de samba Salgueiro, reforçando o caráter único daquela apresentação.
Mudança de local, trânsito caótico e polêmicas nos bastidores
O show também ficou marcado por problemas estruturais e uma organização amplamente criticada na época. Inicialmente planejada para o Maracanã, a apresentação teve o local alterado semanas antes da data, sendo transferida para o Autódromo de Jacarepaguá. Segundo relatos daquele período, a mudança ocorreu porque o estádio não comportaria a complexa estrutura do palco da turnê PopMart.
O problema é que, no fim dos anos 1990, o acesso à Zona Oeste do Rio e à região da Barra da Tijuca era bastante limitado. O resultado foi um trânsito caótico — considerado por muitos como um dos maiores já registrados na cidade até então. Há inúmeros relatos de fãs que não conseguiram chegar ao local a tempo ou que só conseguiram entrar já com o show em andamento.
Nos bastidores, a apresentação também gerou controvérsia. Disputas entre produtores locais, acusações de irregularidades contratuais e divergências financeiras vieram a público após o evento, incluindo a existência de mais de um contrato para o mesmo show. O caso se arrastou por anos na Justiça e terminou com decisão desfavorável à parte brasileira envolvida na produção.
Desde então, o episódio passou a ser frequentemente citado como um dos fatores que explicariam a ausência de shows públicos do U2 no Rio de Janeiro nas décadas seguintes — embora a banda tenha retornado à cidade para apresentações fechadas e participações especiais em eventos da Rede Globo.
Uma experiência que ficou na memória
Para quem esteve no Autódromo de Jacarepaguá naquela noite, a lembrança vai além da música. É a memória do deslocamento, da multidão, da sensação de estar participando de um evento raro — daqueles que não se repetem com facilidade. Para quem não foi, o show entrou para o imaginário como um capítulo especial da história dos grandes concertos internacionais no Rio de Janeiro.
Vinte e oito anos depois, o U2 segue como uma das bandas mais importantes da história do rock, e aquele show em Jacarepaguá permanece como um marco afetivo para os fãs brasileiros — especialmente os cariocas — que até hoje aguardam uma nova visita da banda à cidade.


