O ano de 2026 começa com uma baixa. A MTV decidiu interromper de uma vez toda a sua programação dedicada aos videoclipes. Com isso, os canais MTV Music, MTV 80s, MTV 90s, Club MTV e MTV Live foram removidos das plataformas. A Paramount Skydance, empresa dona da MTV, tirou do ar todos os seus canais em países como Irlanda, Alemanha, Áustria, Polônia, França, Hungria, Austrália e Brasil.
O corte da MTV é apenas um encerramento simbólico de um mundo que não existe mais. Na verdade, a emissora foi o ponto de partida para uma evolução natural do que hoje você encontra nos streamings e nas diversas mídias audiovisuais independentes. A MTV não foi só um canal de televisão: foi um agente cultural que redefiniu a forma como o rock era consumido, entendido e vivido numa geração que consumia música de uma maneira mais alternativa.
Ela mudou o jogo
No cenário global, a MTV mudou o jogo a partir de 1981 ao transformar o videoclipe em linguagem central da indústria musical. O rock, que já carregava uma estética forte, ganhou uma nova camada de expressão. Bandas deixaram de ser apenas som: passaram a ser imagem, postura, provocação. Artistas como Madonna, U2, Michael Jackson, Nirvana, Guns N’ Roses e Red Hot Chili Peppers surfaram como poucos nessa onda.
O impacto da emissora foi profundo: a MTV ajudou a consolidar ídolos, a lançar tendências estéticas e a acelerar movimentos inteiros — do new wave ao grunge, do metal ao alternativo. Mas não foram só as novas tendências, como o grunge, que conseguiram emplacar. Veteranos como Aerosmith e Ozzy Osbourne também foram redescobertos com a expansão da emissora. Mais do que divulgar músicas, a MTV ensinou gerações a ver o rock. Ela criou códigos visuais, consagrou diretores, normalizou a experimentação e abriu espaço para o estranho, o político e o transgressor. Ao mesmo tempo, estabeleceu um diálogo direto com a juventude, falando sua língua, com humor, ironia e irreverência. O rock encontrou ali um espelho e um megafone.
A MTV Brasil
No Brasil, o impacto foi ainda mais profundo e, de certa forma, mais afetivo. Quando a MTV Brasil entrou no ar, em 1990, ela não apenas importou um modelo: adaptou-o à nossa realidade. Em um país com pouca exposição à música alternativa nas TVs e ao rock fora do mainstream radiofônico, a MTV fez escola e virou ponto de referência para jovens.
Para muitos, a MTV foi o primeiro contato com o rock que não tocava no rádio, com o clipe que passava de madrugada, com a banda que ninguém conhecia ainda.
Além de veicular novas bandas e músicas, a MTV Brasil criou algo raro: uma relação de intimidade entre artistas e público, com programas dedicados aos bastidores das bandas na estrada, entrevistas e apresentações ao vivo na íntegra. Isso sem falar nos VJs, que serviram de ponto de partida para muita gente que hoje vive nas redes sociais falando sobre música.
Um mundo que não volta mais...
O fim da programação dedicada aos videoclipes não apaga esse legado, mas marca uma mudança irreversível na forma como consumimos música. Hoje, os clipes estão espalhados em plataformas digitais, fragmentados por algoritmos. Ganhamos acesso, mas perdemos a curadoria, o acaso, a experiência coletiva de esperar aquele vídeo passar na TV.
A MTV deixa de ser um canal de clipes, mas permanece como memória viva de uma época em que o rock tinha horário marcado, impacto imediato e um lugar central na cultura jovem. Para quem viveu, não é apenas nostalgia: é reconhecimento. Reconhecimento de que, por décadas, a MTV foi o palco onde o rock aprendeu a se enxergar — e onde o público aprendeu a sonhar com ele.
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