Dave Grohl completa 57 anos sendo um exemplo de coadjuvante que conquistou o mundo como o maior ícone de sua geração. Poucos músicos conseguiram atravessar gerações do rock com tamanha relevância. Baterista que entrou para a história ainda jovem com o Nirvana, Grohl poderia ter ficado eternamente associado a um dos capítulos mais intensos do rock dos anos 1990. Em vez disso, escolheu seguir em frente — e acabou se tornando uma das figuras mais agregadoras, respeitadas e influentes da música popular nas últimas três décadas.
Um rockstar improvável
Após a morte de Kurt Cobain, Grohl fez um movimento raro: saiu da posição confortável de coadjuvante de luxo para assumir o centro do palco. O Foo Fighters, criado inicialmente como um projeto quase caseiro - onde ele mesmo gravou todos os instrumentos de seu álbum de estreia (Foo Fighters, 1995) -, transformou-se em uma das maiores bandas de rock do mundo, capaz de lotar estádios, liderar festivais e dialogar com públicos que vão do rock alternativo ao mainstream. Numa época em que o rock era frequentemente tratado como produto do passado, Grohl manteve o gênero relevante, contemporâneo e comercialmente viável.
Levando em conta a maioria das histórias sobre rockstars, criadas dentro da filosofia sexo, drogas e rock and roll, Dave Grohl não poderia ser considerado um ícone roqueiro da mesma proporção. Afinal, o cara não usa drogas pesadas, não destrói quarto de hotéis e não é conhecido por estripulias ou lista de exigências que servem apenas para mostrar o quão exuberante pode ser a vida de uma estrela do rock. Nada de rebeldia, quebra de regras ou violação. Na verdade, Grohl se distinguia de todos os outros por sua implacável positividade e por ser um cara certo na hora mais apropriada possível. Ele foi um dos poucos modelos construídos para o mercado, que funcionou exatamente por saber onde se encaixar.
Agregador, curador e grife
Além de sua exímia habilidade de criar hinos para grandes arenas, Grohl se transformou numa figura capaz de conectar cenas, estilos e gerações. Tocou, gravou ou dividiu palco com nomes como Paul McCartney, Queens of the Stone Age, Nine Inch Nails, David Bowie, Tom Petty, Tenacious D, Them Crooked Vultures (ao lado de Josh Homme e John Paul Jones do Led Zepellin), além de participações simbólicas com artistas de fora do eixo estritamente rock. Cada parceria carregava não apenas prestígio, mas também uma validação cultural. Nos anos 2000, Dave Grohl funcionava como um selo de credibilidade artística.
Essa postura colaborativa se refletiu também em sua atuação como curador informal do rock. Grohl é um dos poucos músicos capazes de homenagear o passado sem soar nostálgico demais e de dialogar com o presente sem parecer um oportunista ocasional. Seus projetos paralelos, documentários e aparições públicas sempre reforçaram a ideia de comunidade — o rock como espaço coletivo, não como trincheira individual. Uma prova disso, são os álbuns / documentários, Sonic Highways e Sound City, em que Grohl convida várias personalidades, de diferentes gerações da música, como Gary Clark Jr, Paul McCartney, e Stevie Nicks.
O defensor do rock
Em termos de premiações, os números impressionam: múltiplos Grammy Awards com o Foo Fighters, prêmios recebidos como integrante do Nirvana e reconhecimentos institucionais como a entrada no Rock and Roll Hall of Fame — duas vezes, por bandas diferentes. Mas mais importante do que os troféus é o consenso crítico: Grohl é respeitado tanto pela indústria quanto pelo público, algo cada vez mais raro.
No campo da visibilidade comercial, Dave Grohl representa um paradoxo interessante. Ele é, ao mesmo tempo, um ícone do rock “raiz” e uma figura altamente midiática. Pois participava de campanhas, programas de TV, grandes eventos globais e projetos corporativos sem que isso fosse capaz de comprometer sua imagem artística. Grohl sempre passou a imagem de representante e defensor do rock, e essa postura militante do gênero numa época dominada por artistas pop, deram ao frontman, um valor inestimável de mercado.
Com as mortes de Taylor Hawkins e de sua mãe, Dave Grohl diminuiu consideravelmente suas aparições e projetos além do Foo Fighters, e segue sendo um personagem que trilha sua biografia por transformar sobrevivência em reinvenção, trauma em criação e sucesso em ponte para novos encontros musicais. Em um gênero acostumado a mitificar seus mortos, Dave Grohl se tornou um símbolo poderoso dos que seguem vivos, e trabalhando em missão do rock.

