Há 30 anos, o Hollywood Rock fazia sua última edição e entrava para a história

 
Em meados dos anos 1990, o Brasil vivia um momento especial na relação com grandes festivais internacionais. E poucos eventos simbolizaram tanto aquele período quanto o Hollywood Rock. Há 30 anos, o festival realizava sua última edição, marcando não apenas o fim de um evento icônico, mas o encerramento de uma era inteira na história dos shows no país.

Criado em 1975, o Hollywood Rock se consolidou como um dos principais festivais do Brasil a partir do final dos anos 1980, especialmente após sua primeira edição oficial em 1988. Ao apostar em line-ups internacionais de peso, ingressos relativamente acessíveis e uma proposta que misturava música, juventude e cultura pop, o evento foi responsável por trazer ao país nomes fundamentais do rock mundial e por moldar o gosto de uma geração inteira.

O último ato de um festival gigante

A edição final, realizada em janeiro de 1996, carregava um peso simbólico difícil de ignorar. Era a primeira vez que o Brasil assistiria a meio Led Zeppelin em ação. Os shows de Robert Plant e Jimmy Page entraram para a lista das maiores apresentações já vistas no país. Na mesma edição, o line-up ainda contava com outro verdadeiro medalhão: o The Cure.

Mas, fiel à tradição do festival de mesclar nomes consagrados com artistas em plena ascensão, o Hollywood Rock também foi beneficiado pelo excelente momento vivido pelo rock nos anos 1990. O evento trouxe ao Brasil, pela primeira vez, algumas das grandes apostas da década: o Smashing Pumpkins, em plena turnê do icônico Mellon Collie and the Infinite Sadness; o Supergrass, então impulsionado pelo hit “Alright”; o White Zombie, divulgando o clássico Astro-Creep 2000; e o The Black Crowes, no auge criativo e comercial da carreira.

Shows icônicos
 
Mais do que o contexto histórico, o Hollywood Rock foi responsável por cravar na memória alguns dos shows mais lendários já realizados no Brasil. Quem nunca ouviu histórias sobre a apresentação caótica — e única — do Nirvana no país? Ou sobre a primeira vez dos Rolling Stones em solo brasileiro?

Foi também no Hollywood Rock que Robert Plant finalmente conheceu o público brasileiro, após ter cancelado sua participação no Rock in Rio anos antes. E a lista não para por aí: passaram pelos palcos do festival apresentações memoráveis de Living Colour, Supertramp, Bob Dylan e Alice in Chains, entre outros.

O fim de um modelo — e o início de outro

O encerramento do Hollywood Rock também coincidiu com mudanças profundas no mercado de entretenimento ao vivo. O crescimento dos custos, a transformação da indústria fonográfica e a chegada de novos formatos de festivais fizeram com que aquele modelo se tornasse cada vez mais difícil de sustentar.

Nos anos seguintes, o Brasil viveria um hiato de grandes festivais internacionais (tivemos apenas um Monsters Of Rock em 1998) até a retomada do Rock in Rio em 2001. Mas esses seriam os últimos festivais fora dos padrões que encontramos nos novos formatos. Para conseguirem sobreviver de forma regular, grandes eventos como o Rock in Rio e o Lollapalooza Brasil, trazem outra lógica de curadoria, experiência e consumo - que combina com a nova realidade de demanda popular.
 
 
Legado e memória afetiva

Trinta anos depois, o Hollywood Rock segue vivo na memória afetiva de quem esteve lá. Não apenas pelos artistas que passaram por seus palcos, mas pelo papel que desempenhou na formação de público, na consolidação do Brasil como rota importante para turnês internacionais e na construção de uma cultura de festivais no país.

Relembrar a última edição do Hollywood Rock é também refletir sobre o quanto a experiência de assistir a shows mudou ao longo do tempo. Se hoje os festivais são eventos híbridos, cheios de ativações, tecnologia e múltiplas camadas de consumo, naquela época tudo girava em torno da música, do encontro e da sensação de pertencimento.

O Hollywood Rock acabou, mas deixou um legado que ajudou a pavimentar tudo o que veio depois. E, três décadas depois, sua despedida ainda ecoa como o símbolo de uma era que não volta mais — mas que merece ser lembrada.

Hollywood Rock 1988

1ª noite (6/1 - RJ e 13/1 - SP): Ira!, Titãs e Pretenders
2ª noite (7/1 - RJ e 14/1 - SP): Paralamas do Sucesso, UB40 e Simple Minds
3ª noite (8/1 - RJ e 15/1 - SP): Ultraje a Rigor, Simply Red e Duran Duran
4ª noite (9/1 - RJ e 16/1 - SP): Lulu Santos, Marina Lima e Supertramp

Hollywood Rock 1990

1ª noite (18/1 - SP e 25/1 - RJ): Gilberto Gil (Margareth Menezes), Tears For Fears, Bob Dylan
2ª noite (19/1 - SP e 26/1 - RJ): Capital Inicial, Engenheiros do Hawaii, Marillion e Bon Jovi
3ª noite (20/1 - SP e 27/1 - RJ): Barão Vermelho, Lobão, Eurythmics e Terence Trent D’arby

Hollywood Rock 1992

1ª noite: Lulu Santos, EMF e Living Colour
2ª noite: Cidade Negra, Jesus Jones, Seal e Titãs/Paralamas do Sucesso
3ª noite: Barão Vermelho, Extreme e Skid Row

Hollywood Rock 1993

1ª noite (15/1 - SP e 22/1 - RJ): De Falla, Biquini Cavadão, Alice in Chains, Red Hot Chili Peppers
2ª noite (16/1 - SP e 23/1 - RJ): Dr. Sin, Engenheiros do Hawaii, L7 e Nirvana
3ª noite (17/1 - SP e 24/1 - RJ): Midnight Blues Band, Maxi Priest e Simply Red

Hollywood Rock 1994

1ª noite (14/1 - SP e 21/1 - RJ): Titãs, Poison e Aerosmith
2ª noite (15/1 - SP e 22/1 - RJ): Live, Sepultura, Ugly Kid Joe e Robert Plant
3ª noite (16/1 - SP e 23/1 - RJ): Skank, Fernanda Abreu, Jorge Ben Jor e Whitney Houston

Hollywood Rock 1995

SP - 27/01, 28/01, 30/01 e RJ - 02/02, 09/02: Rita Lee, Barão Vermelho, Spin Doctors e The Rolling Stones

Hollywood Rock 1996

1ª noite (19/1 - SP e 28/1 - RJ): Chico Science e Nação Zumbi, Cidade Negra, Steel Pulse, Aswad e Gilberto Gil
2ª noite (20/1 - SP e 27/1 - RJ): Raimundos, Urge Overkill, The Black Crowes, Page & Plant
3ª noite (21/1 - SP e 26/1 - RJ): Pato Fu, Supergrass, White Zombie, The Smashing Pumpkins e The Cure

Bruno Eduardo

Jornalista e repórter fotográfico, é editor do site Rock On Board, repórter colaborador no site Midiorama e apresentador do programa "ARNews" e "O Papo é Pop" nas rádios Oceânica FM (105.9) e Planet Rock. Também foi Editor-chefe do Portal Rock Press e colunista do blog "Discoteca", da editora Abril. Desde 2005 participa das coberturas de grandes festivais como Rock in Rio, Lollapalooza Brasil, Claro Q é Rock, Monsters Of Rock, Summer Break Festival, Tim Festival, Knotfest, Summer Breeze, Mita Festival entre outros. Na lista de entrevistados, nomes como Black Sabbath, Aerosmith, Queen, Faith No More, The Offspring, Linkin Park, Steve Vai, Legião Urbana e Titãs.

Postar um comentário

Postagem Anterior Próxima Postagem
Banner-Mundo-livre-SA