Planet Hemp na Fundição Progresso: a última ponta de uma lenda


"Agora nós somos lenda, igual a Curupira e Saci Pererê", repetia Marcelo D2 durante a memorável apresentação de despedida do Planet Hemp no Rio de Janeiro. Ele não está errado. A biografia dessa banda é muito mais relevante e influente na história da música nacional do que muita gente pensa ou sabe. Quem acompanhou as metamorfoses, e principalmente, as conexões do grupo e de seus integrantes nesses mais de 30 anos, entende que o legado é sim, lendário.

Tinha que ser no núcleo da Lapa, zona central carioca, onde as classes e tribos se misturam, para que o Planet Hemp fizesse seu último chamado. O show no Allianz Parque deve ter sido realmente uma experiência sensacional. Uma banda que começou no Garage, underground clássico do Rio de Janeiro, poder lotar um estádio de futebol na capital Paulista, é realmente um triunfo dos mais emblemáticos. Mas assistir ao Planet Hemp na Fundição Progresso é mais do que um show de rock. É trazer de volta uma atmosfera alternativa de uma das épocas mais autênticas da sociedade. 

O público está ali não só para ouvir músicas preferidas, mas para participar de um ritual político, musical e afetivo, que atravessa décadas da cultura urbana brasileira. Um show do Planet na Fundição é um ápice da representatividade artística carioca. Afinal, poucas bandas conseguem misturar de uma maneira tão sagaz no palco, as tendências e sonoridades dos becos, bares e morros em canções que vão do hardcore nervoso ao hip hop encharcado de dubs.

 
"Nós somos do Rio de Janeiro", gritou Marcelo D2, ainda com o palco às escuras. Utilizando os telões para recapitular a história da banda, o clima de catarse foi iniciado nos primeiros acordes de “Dig Dig Dig (Hempa)”. A música, presente no álbum de estreia do grupo, funciona como um chamado coletivo. A pista abarrotada, foi enchendo cada vez mais, e a sequência “Ex-quadrilha da fumaça / Fazendo a cabeça” serviu como um convite para que muitos fãs descessem dos andares de cima para o meio da muvuca, que se aglomerava em frente ao palco.

Por conta de seu discurso questionador e de enfrentamento, o Planet Hemp foi muitas vezes mal interpretado e perseguido - inclusive pela polícia. Mas mesmo com hiatos, separações e mudanças, eles nunca sucumbiram aos seus detratores. "Sempre tentaram acabar com a nossa banda. Mas sempre dissemos para nós mesmos, que se um dia a gente decidisse acabar, seria uma decisão nossa e não dos outros. E agora nós tomamos essa decisão", disse D2, que não suavizou o discurso nesse show.

A resistência da banda em sua proposta de enfrentamento, sem nunca arredar dos seus ideais, foi também um obstáculo para o encaixe no grande mainstream e, consequentemente, para que cifras maiores entrassem nas contas bancárias. Mas essa postura é que fez deles tão diferentes. O Planet sempre foi a banda mais underground do rock mainstream noventista. E chegou até aqui porque encontrou suporte na sua fiel e crescente base de fãs. O refrão de “Raprockandrollpsicodeliahardcoreragga” cantado em plenos pulmões pelo público na Fundição Progresso serviu de simbologia latente para essa união bem sucedida: "Representa o Hip Hop, pesadelo do pop, não tá ligado na missão? Foda-se!", berravam os fãs.

O show também reservou algumas reuniões especiais no palco. O hino “Legalize Já” contou com a presença de Bacalhau, baterista da formação clássica da banda, e que gravou a faixa. Outro que também fez parte da família Planet Hemp e que não poderia ficar de fora dessa despedida é Black Alien. Ele subiu no palco para dividir os vocais com D2 em “Queimando Tudo”, sucesso que ele ajudou a compor em 1997 - época que ele era integrante do grupo. 

 
O Planet Hemp nunca escondeu que suas referências vinham das experiências e contatos contemporâneos dos mais diversos. É uma banda que sempre se permitiu artisticamente. As carreiras solos de Marcelo D2 e BNegão refletem isso. E assim também são os fãs da banda, que escutam de Sonic Youth à Bad Brains, ou de Suicidal Tendencies à Chico Sciense - homenageado com uma versão de Samba Makossa / Monólogo ao Pé do Ouvido”, da Nação Zumbi

Essa aptidão por liquidificar sonoridades enriquece o roteiro do grupo, que é repleto de momentos rap, rock, hardcore, reggae e psicodélicos. Tudo isso, claro, funciona principalmente por conta do discurso, que traz letras afiadas e atitude punk. Na maior parte dos temas, o manifesto de legalização da maconha fica como principal legado. “Não Compre, Plante!” e “Jardineiro” fazem parte de um debate que o grupo traz desde os anos noventa, e que continua ecoando cada vez mais na sociedade atual. Outras abordagens importantes são as críticas sociais e de violência nas periferias, que soam incrivelmente atuais em letras como "Zerovinteum", do necessário Os Cães Ladram Mas a Caravana Não Pára, de 1997.

Por ser uma banda de poucos álbuns de estúdio para uma longa história (eles lançaram 4 discos nas últimas três décadas), o repertório não foge tanto dos clássicos e das canções mais emblemáticas. As exceções, são faixas do ótimo Jardineiros, lançado em 2022. "Distopia", primeiro single desse trabalho, é uma das mais celebradas e tem o seu refrão cantado pelo público. Já "Taca Fogo" promoveu a maior roda de pogo da noite, com sinalizadores e bandeiras de outras capitais no meio da galera.


Faixas como Onda Forte”, “Nunca Tenha Medo” e Adoled deram fôlego ao show sem perder o peso, enquanto a instrumental “Biruta” e “Cadê o Isqueiro? / Quem Tem Seda?” trouxeram o humor ácido e a ironia que sempre equilibraram o discurso mais duro da banda. "Quero ver quantos maconheiros temos aqui na fundição. Mostrem os isqueiros", provocou D2. 

Na reta final, o Planet Hemp reforçou sua identidade combativa com “Aderência de Gorila”, “O Bicho Tá Pegando” e “Mão na Cabeça”. Vale lembrar que a banda sempre falou sobre violência policial, repressão e desigualdade social - numa época onde não existia o "lacrar" ou viralizar" das redes sociais. O fato, é que com erros, acertos e exageros, o Planet sempre foi uma banda de verdade. “Não Vamos Desistir” soou quase como um lema dessa herança, sintetizando a longevidade e a tal resistência criativa do grupo. No bis, “Deisdazseis” e “Mantenha o Respeito” fecharam a noite com requinte de noite de gala. 

No fim das contas, o que fica dessa anunciada última apresentação do grupo, é que o Planet Hemp nunca deixará de ser uma banda necessária. Com ou sem shows no futuro, a coragem, autenticidade, irreverência e sagacidade, fazem com que a obra do grupo ecoe por muitas gerações que ainda estão por nascer.

Bruno Eduardo

Jornalista e repórter fotográfico, é editor do site Rock On Board, repórter colaborador no site Midiorama e apresentador do programa "ARNews" e "O Papo é Pop" nas rádios Oceânica FM (105.9) e Planet Rock. Também foi Editor-chefe do Portal Rock Press e colunista do blog "Discoteca", da editora Abril. Desde 2005 participa das coberturas de grandes festivais como Rock in Rio, Lollapalooza Brasil, Claro Q é Rock, Monsters Of Rock, Summer Break Festival, Tim Festival, Knotfest, Summer Breeze, Mita Festival entre outros. Na lista de entrevistados, nomes como Black Sabbath, Aerosmith, Queen, Faith No More, The Offspring, Linkin Park, Steve Vai, Legião Urbana e Titãs.

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