Domingo no Parque do Ibirapuera, ótimo dia para ver shows ao vivo no Festival Índigo. A madrugada chuvosa assustou um pouco: seria a lama um desconforto muito grande? Como foi comprovado até o final do evento, a chuva, no entanto, trouxe frescor e deu uma trégua sem grandes percalços. A atração principal do evento foi o Weezer, que subiu ao palco celebrando os 30 anos do seu aclamado Blue Albuml [leia a resenha do show AQUI]. Mas antes da banda de Rivers Cuomo, outras atrações bem interessantes chegaram de carona no line up. Veja abaixo como foram os shows.
O Otoboke Beaver, atração de Kyoto e uma das apostas mais ousadas do Festival Índigo, desembarca no Brasil pela primeira vez como destaque da nova geração feminina do punk. Donas dos álbuns ITEKOMA HITS (2019) e Super Champon (2022), o quarteto — formado por Accorinrin (guitarra e vocal), Yoyoyoshie (guitarra e vocal), Hirochan (baixo e vocal) e Kahokiss (bateria e vocal) — carrega no currículo apresentações em gigantes como Coachella e Glastonbury, além de elogios de lendas do rock como Jack White, Dave Grohl e Eddie Vedder. Sua presença de palco hipnotizante, somada às letras ácidas e à habilidade instrumental, faz dos vestidos vibrantes apenas um detalhe estético nesse caos punk orquestrado. Vale lembrar que, dois dias antes, no dia 31 de Outubro, o grupo já havia se apresentado no Cine Joia, em um show mais intimista para os fãs que disputaram os ingressos.
Coube ao punk rock selvagem e gritado do Otoboke Beaver abrir os trabalhos. A plateia ainda estava chegando e pisando em terreno molhado e encharcado, com medo de tropeçar e sob uma leve garoa. As japonesas fizeram graça com as capas de chuva e tentaram se comunicar em inglês, falando devagar, e algumas palavras em português: "Arigato lembra Obrigado, por isso consigo fazer a associação". "Trouxemos camisetas, podem ser úteis para vestir algo seco para voltar para casa." "Esta canção é do último álbum", e entre um "Champion" aqui ou acolá, a diversão sincopada e os murros nos pratos, com gritos e guitarras barulhentas, faziam da apresentação algo fora do normal.
Existe ordem na desordem: vestidas em neon, usando sandálias gigantes de plástico rosa fluorescente. A guitarrista se contorce o tempo todo e faz caretas tocando sua guitarra. Quem segue Hardcore ou Garage Rock nipônico sabe da agressividade e atitude performática dos músicos japoneses. As meninas do Beaver não são exceção à regra e não existe chuva ou língua estrangeira que as impeça de viabilizar o caos musical que executam para agradar e fazer de todos os que presenciam o show seus futuros fãs.
Não tem problema nenhum se não entendermos uma única palavra em japonês ou se não soubermos o título desta ou daquela canção. Otoboke Beaver é agressivo, virulento e barulhento. Punk até os ossos, sem medo de errar ou parecer ridículo. É uma atitude veterana com garra e determinação.
Com certeza, o furacão Otoboke do Japão deixou marcas, e esperemos que se torne cliente assíduo do público brasileiro. Saudades de ver o Jet Wolf no Brasil.
Judeline: Pop Trap e o Mar de Camisetas Pretas
Foto: @sand / Divulgação 30e
O ponto fora da curva ou, na verdade, o momento inclusivo do festival? Pop trap via vocoder com coreografias e dança cigana, árabe ou flamenco: Judeline sobe ao escenario do Ibirapuera.
Nascida em Cádis, na Espanha, Judeline traz a sonoridade do seu álbum de estreia, Bodhiria (2024), que lhe rendeu elogios de artistas como Anitta, Bad Bunny e ROSALÍA, e a levou a abrir a turnê mundial de J Balvin. Com faixas como “Heavenly”, “zarcillos de plata” e a parceria com o produtor Tainy, “si preguntas por mi”, a espanhola explora um minimalismo moderno, que se reflete tanto em sua estética visual quanto em suas músicas, marcadas pelo pop trap e referências ao flamenco.
Não chove, e ela sente que é responsável por algo diferente para o mar de camisetas pretas presentes. Ela se comunica em inglês e, às vezes, em espanhol. "Quero que dancem". Mas o show, muito bem ensaiado e coreografado, com telas coloridas de fundo, fica no palco e não se multiplica.
Os músicos, uma espécie de Domi & JD Beck, fazem verdadeiros malabares de bom gosto, mas o público do "oba-oba" e do rock and roll não saboreia o conteúdo e praticamente ignora a apresentação.
Entre os shows diversos, DJs tocam velhos hits das baladas indie dos anos 1998 a 2008, incluindo Cake, The Ting Tings, CSS e Arctic Monkeys. Só nos minutos antes do Weezer é que a trilha vira hard rock, com Van Halen e Kiss.
Mogwai: A Viagem Lisérgica
Veterano do post-rock, o Mogwai (cujo nome remete à criatura fofa do filme Gremlins) chega ao Brasil com o magnetismo de 30 anos de carreira, explorando sonoridades de shoegaze, eletrônica e rock experimental, onde a voz tem menor destaque. O quarteto escocês, formado por Stuart Braithwaite, Barry Burns, Dominic Aitchison e Martin Bulloch, segue impactando a cena: seu disco As The Love Continues (2021) alcançou o 1º lugar no Reino Unido e foi indicado ao Mercury Prize. Não à toa, o vocalista do The Cure, Robert Smith, é fã declarado e sempre os escala para festivais sob sua curadoria. Atualmente em turnê com o projeto The Bad Fire (2025), eles mesclam material novo com hits como “Kids Will Be Skeletons” e “Take Me Somewhere Nice”.
Os escoceses do Mogwai, de volta ao Brasil depois de quase treze anos, sabem ao que vieram e começam no estilo Mogwai de ser. Imagine Enya com Pink Floyd e The Cure ao mesmo tempo. Uma viagem no espaço ou num plano espiritual onde, a qualquer momento, Björk murmura algo indecifrável no teu ouvido.
Guitarras dedilhadas na velocidade da luz, num jumbo instrumental crescente. Os solos de guitarra parecem gaitas de fole numa jam de mais de oito minutos para, em seguida, ser desconectada aos poucos, como se estivessem retirando um instrumento de cada vez.
Depois de uns dois minutos lo-fi, com um volume baixíssimo que desce para depois subir descomunalmente, só esse momento já vale o show inteiro.
O show termina com um entardecer belíssimo, com o verde do parque sendo enaltecido pelo azul-dourado, quase rosa, do final da tarde. Os que presenciaram um semelhante show nunca esquecerão a viagem lisérgica.
Mogwai ,ao vivo, provoca uma alteração profunda na percepção e nos sentidos, resultando em uma experiência intensa, alucinógena ou psicodélica real.
Existe uma segunda chance para o público carioca, já que o Mogwai fará um show solo na Quarta-feira, 5 de Novembro, no Circo Voador, na Lapa. Algo que eleva a apresentação para novas percepções sensoriais. Pela curiosidade, não perca a oportunidade.
Bloc Party: A Festa Indie dos Anos 2000
Foto: @sand / Divulgação 30e
O Bloc Party não pisava no Brasil desde 2008, talvez naquela época em turnê com o terceiro álbum de estúdio, Intimacy. Mas a visita de 2025 festeja o vigésimo aniversário do álbum de estreia, Silent Alarm, tocando antes do Weezer, que faria um show alusivo aos 30 anos do Álbum Azul.
O Bloc Party estabeleceu um espaço importante na cena indie dos anos 2000. O quarteto londrino, com Russell Lissack (guitarra), Justin Harris (baixo) e Louise Bartle (bateria), é liderado por Kele Okereke — um dos poucos frontmen negros do rock alternativo assumidamente gay —, que infunde em suas letras vivências queer, políticas e confessionais. A discografia da banda (A Weekend in the City, Intimacy, Four, Hymns e Alpha Games) passeia pelo rock e eletrônico, marcada por viradas rápidas, grooves quebrados e uma identidade sonora extremamente física e dançante.
Como assim, este mini-festival indie não está esgotado? É praticamente um palco do Lollapalooza à disposição dentro do Parque do Ibirapuera.
Com certeza, Kele Okereke, o famoso vocalista da banda londrina, sabe que veio para fazer festa. Sem muitos cerimoniais, começa o trabalho de trazer os grandes sucessos de 2005 para 2025 e, claro, muito mais. Correndo, ele tem uma hora para mostrar quem o Bloc Party é e como a banda deveria ser tão cultuada quanto The Strokes, Interpol, The Killers, Arctic Monkeys, Vampire Weekend ou Franz Ferdinand (os anos 2000 foram uma revolução — isso é assunto para outro momento).
A apresentação começa com duas seguidas do álbum da capa da floresta coberta por neve: “So Here We Are” e “Hearing Voices”. A plateia, sedenta por Weezer, não ovaciona, mas a banda britânica rapidamente sabe como contornar qualquer multidão tímida ou com frio. São mais de 20 anos de estrada, e logo começa a brincadeira com pedais e repetições distorcidas da voz de Kele, com eco ou outras rotações. É um experimento ao vivo, um laboratório divertido, e eles estão felizes fazendo-o. A baterista, cavalgando como um metrônomo, ajustando dinâmica e ritmo veloz ao repertório, é incansável: definitivamente, um show à parte.
Vamos para 2008 com “Mercury” e, imediatamente colada, sentimos a primeira do segundo álbum a ser tocada esta noite: “Hunting For Witches”. Há gritos de satisfação. Muitos dançam, lembrando a luz estroboscópica de noites em clubes e casas noturnas que não existem mais. Estamos muito velhos, ou nossas vidas eram mais animadas, caóticas ou divertidas? Não importa: estamos vendo o repasse da nossa vida noturna diante dos nossos olhos, e a fotografia é alegre e perceptível.
Eles emendam logo outra de A Weekend in The City, o segundo álbum de estúdio, lançado em 2007. “Song for Clay (Dissappear Here)” exerce a função de preâmbulo ao talvez maior hit mundial do Bloc Party, e a bateria marcante não para um segundo. “BANQUET” deixa a escuridão mais alegre. A luz do palco te deixa cego. Canhões no teu rosto te fazem fechar os olhos e dançar.
Chegam os momentos mais aéreos ou espaciais: “Trap” e “Different Drug”. Esta segunda poderia ser do The Cure e tem um quê de Joy Division. A percepção post-punk é evidente, agradável e imensurável.
E realmente, a promessa de ouvir o Silent Alarm completo ficou no panfleto, com “The Love Within” e “Blue”. Construir um set de um único álbum nem sempre é o desejo de quem está há mais de uma década querendo ver sua banda favorita. Outros fãs, mais ortodoxos, querem o cumprimento do contrato. Mas nunca foi dito que seria um show exclusivo do álbum debut. Muitos acreditaram que fosse o caso, pois na Europa e no Reino Unido a turnê teve o propósito de festejar o álbum de 2005.
Mas não existe maior prazer do que dar um "cala a boca" para quem fala besteira. E o Bloc Party joga artilharia pesada e emenda duas faixas seguidas do tão lembrado álbum. Sequência sufocante que incluiu “Like Eating Glass”, “Helicopter” (de 2005) e “Flux” (de 2007). A plateia ainda estava se recuperando do refrão hipnótico de “Helicopter” que repete: "...are you hoping for a miracle, are you hoping for a miracle..." quando, em 60 minutos, o milagre tinha virado lembrança. Muito simpático o tempo todo, mencionou estar feliz de estar tocando com duas das suas bandas favoritas referindo-se ao Mogwai e ao Blur.
Agradecendo muito à plateia pela dança e pelos gritos, chegou o momento de dizer adeus, lembrando que esse era só o segundo show do giro latino-americano da banda britânica. Para terminar a festa do álbum debut, ouvimos “This Modern Love”. Sem tanta euforia, mas com bastante atenção, os indies na plateia lembraram de quando ainda tinham tempo e energia para enaltecer bandas emergentes que empolgavam sem TikTok nem redes sociais. Ficou o desejo de que voltem mais vezes para reativar o vírus de 2005 no Brasil. No placar final ouvimos 6 das 13 canções do tracklist debut. Outras cidades merecem ver este triturador de pistas de dança chamado Bloc Party.





