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Devotos celebra trinta anos de carreira na contundência de "O Fim Que Nunca Acaba"

Após seis anos sem gravar, Devotos está de volta com novo trabalho
Por Ricardo Cachorrão Flávio

“De andada no Alto, meu povo / Tem gente que anda de lado / Tem gente que anda com Bíblia / Que anda com arma e que anda fardado / Sindicato nasce na esquina / Gente do bem vende a alma ao Diabo / Tem gente que anda com Bíblia / Que anda com arma e que anda fardado / “Respeito é pra quem tem” / Sabota falou tá falado / Tem gente que anda com Bíblia que anda com arma E que anda fardado”.

Com batida marcial de Celo Brown, a guitarra cortante de Neilton e esses versos atuais e contundentes de Cannibal, com direito a citação ao rapper paulistano Sabotage, que os Devotos rompem um silêncio de 6 anos desde o lançamento do álbum anterior – Póstumos (2012) – e mostram ao mundo O Fim Que Nunca Acaba.

Mesmo sem lançar disco nos últimos anos, a rapaziada do Recife não para de se movimentar, sempre em várias frentes! Comemorando 30 anos de carreira, recentemente se encerrou uma exposição em sua terra natal com trabalhos do guitarrista e artista plástico (dentre outras habilidades) Neilton Carvalho e Cannibal, além do seu trabalho com a banda de reggae Café Preto, está lançando seu primeiro livro “Música Para o Povo Que Não Ouve”, ao mesmo tempo em que o sétimo disco deles chega às ruas.

Voltando ao álbum, depois da punkada “De Andada” que abre o disco, “Fé Demais” é a sequência e mostra que os Devotos são uma banda de punk rock hardcore, mas que tem DNA próprio, nunca se limitou a ser uma cópia do que veio antes, seus timbres e discurso tem voz que é só deles. Eu o Declaro Meu Inimigo” é uma porrada e tanto, e já era conhecida do público, por um belo clipe colaborativo lançado pela banda há 4 meses, confira aí o tamanho da bordoada:



O disco continua com “Dias de Vida”, que me remeteu ao disco de estreia deles (Agora Tá Valendo (1997) – quando os Devotos ainda eram “do Ódio”, e que teve turnê comemorativa de 20 anos de lançamento no ano passado). “DECIDA! RESISTA! INSISTA! A glória é a conquista”, é o grito de ordem da vez, na ótima faixa “D.R.I.”, que em minha opinião, tem tudo para ser hit do disco, juntamente com a faixa de abertura.

Incrédulo” traz uma mudança de clima no álbum, o discurso continua contundente, mas a guitarra aqui tem um viés psicodélico e a faixa ainda conta com participações especiais de Maestro Forró, no trompete, fundador da Orquestra Popular da Bomba do Hemetério, ideia de reunir músicos do bairro popular do Recife, e misturar ritmos regionais com erudição e de J Five S, no sintetizador. Vale citar que a Bomba do Hemetério é onde mora o guitarrista Neilton Carvalho.

Todos Lado a Lado” é porrada, pura e simples. Punk rock hardcore, sabe onde é que faz? Sim, é no Alto José do Pinho, e é do caralho! “Chama Padre Quevedo” tem mais participação do trompete de Maestro Forró e um violão que me lembrou de música flamenca, a cargo de Neilton, numa bela faixa. Não Fico” é daquelas faixas onde Cannibal declama sua poesia sobre uma base forte, densa, soturna até, novamente com Celo fazendo uma batida marcial, e com Neilton solando bonito. Esta faixa é um perfeito pós-punk.

Orar Sem Fé Não Abre Portas”, é um recado direto, curto e grosso. “Matou Morreu” vem na sequência e trás outra participação especial, e agora o amigo Carlão Underground dividindo vocais com Cannibal. O disco continua com “Periferia Fria”, uma balada reggae, de letra triste e forte, que trás uma dura realidade, onde Cannibal brada que “Tem aqueles que ajudam / Aqueles que unem / Aqueles que marcam / Tem aqueles que usam / Aqueles que abusam / Aqueles que escracham” e continua com “Ei! Não me faz ter dó / Você vacilou, você não é mais menor / O filho chora o pai que a mãe não deu / A mãe em prantos diz: - Seu pai sou eu”.

Caminhando para o final, “Te Dominou” segue a cartilha do PPP (Puta Punk Pernambucano), porrada direta e certeira. “Não Desista” é outra que traz um trabalho bacana de Neilton nos violões e do convidado J Five S nos sintetizadores. Finalizando este belo álbum, chega a faixa “Liga da Justiça”, outro reggae, com Maciel Salú na rabeca e segunda voz, artista de família conhecida no Recife, vindo dos velhos maracatus, ciranda, forró e rodas de coco, atualmente integra a Orquestra Contemporânea de Olinda.

Trinta anos de carreira e mais um disco empolgante, longe da mesmice, navegando por diversos mares, DEVOTOS mostram que ainda tem muita lenha a queimar no modorrento rock mainstream de 2018. Independentes e contundentes, discípulos diretos do Faça Você Mesmo, mas façam bem feito, como é a praxe de Cannibal, Neilton e Celo Brown.
Cotação:

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