Discos: Kaada / Patton (Bacteria Cult)

Foto: Divulgação
Mike Patton (Faith No More) e o compositor norueguês John Kaada
KAADA / PATTON
"Bacteria Cult"
Ipecac Recordings; 2016
Por Bruno Eduardo


John Kaada já produziu uma gama de álbuns ecléticos. Ele é certamente um dos compositores noruegueses mais requisitados no mundo das trilhas sonoras. Entre vários trabalhos solos e algumas improvisações, há também uma destacada parceria com o multi-talentoso Mike Patton. Patton, por sua vez, não precisa de grandes apresentações - principalmente para os fãs de rock, que cresceram ouvindo o som do Faith No More. No entanto, com o fim do FNM em 1998 (a banda voltou em 2009), o cantor se meteu com artistas de todos os segmentos e colecionou uma lista enorme de projetos experimentais e parcerias das mais improváveis. Numa de suas mais bem sucedidas aventuras, surgiu esse encontro com o compositor norueguês. 

A primeira colaboração entre estes dois talentos da música contemporânea aconteceu em 2004 com o lançamento de "Romances" - uma peça clássica que tinha pouca semelhança com qualquer outra coisa que Patton tinha se "metido a fazer" - talvez, com exceção de "Director's Cut" (uma trilha sonora heavy metal para filmes de terror/suspense, lançado pelo Fantômas). Essa parceria rendeu também um magnífico DVD ao vivo, lançado em 2007, que traz a apresentação da banda no Roskilde Festival 2005 na íntegra e cenas de ensaios e backstage.

Emparelhado com a Orquestra Sinfônica de Stavanger, Kaada criou um cenário exuberante para a voz incrivelmente versátil de Mike Patton. Poucos cantores de rock e metal na atualidade conseguem caminhar com tanto sucesso entre o punch e música clássica. A desenvoltura vocal de Patton é capaz de proporcionar um fluxo interminável de composições variadas, sem qualquer tentativa de impor sua marca ou fazer firulas desnecessárias. 

O disco abre com a assombrosa "Red Rainbow", que traz violinos e uma levada percussiva crescente. Já "Black Albino" é puro Ennio Morricone - que não por acaso, é uma das maiores referências de Mike Patton. A canção remete aos antigos filmes de velho oeste. A sinistra "Peste Bubónica" faz por capturar a energia obscura causada por um dos mais terríveis acontecimentos da história europeia. É um belo exemplo de quão impressionante a música pode ser, principalmente na tarefa de obter respostas emocionais de seus ouvintes. O medo dá lugar à delicadeza em "Papillion", que é também uma das mais fracas do disco.

"Dispossession" se baseia em composições clássicas de John Barry, que marcou inúmeros filmes de James Bond, e que também já foi lembrado pelo Faith No More no disco Angel Dust ("Midnight Cowboy"). A faixa é sutil e misteriosa, e justapõe um som de cordas com o rico barítono de Patton. O senso de humor também está presente em "A Burnt Out Case", com muito mais presença de vocais. Porém, nada resume tão bem a parceria de Kaada e Patton quanto "Imodium". A canção inclusive já rendeu o primeiro vídeo clipe do álbum [assista AQUI]. Bacteria Cult chega ao final com a grandiosa "Fountain Gasoline", que remete muito ao primeiro disco, Romances.

Em Bacteria Cult, John Kaada e Mike Patton conseguem mais uma vez repetir a bem sucedida parceria de anos atrás. Em um conjunto eclético e de extremo bom gosto, a dupla recria a mesma peça musical clássica e moderna, capaz de despertar a imaginação e os ouvidos de quem, acima de tudo, possui mente aberta para a música - independente de gênero ou modelo. É em suma, um disco para ser apreciado nos seus detalhes sonoros, e que merece ser testemunhado ao vivo em grandes salas de música no mundo inteiro.

Bruno Eduardo

Jornalista e repórter fotográfico, é editor do site Rock On Board, repórter colaborador no site Midiorama e apresentador do programa "ARNews" e "O Papo é Pop" nas rádios Oceânica FM (105.9) e Planet Rock. Como crítico cultural, foi Editor-chefe e colaborador do Portal Rock Press, e colunista do blog "Discoteca" da editora Abril. Desde 2005 participa das coberturas de grandes festivais como Rock in Rio, Lollapalooza Brasil, Claro Q é Rock, Monsters Of Rock, Abril Pro Rock, Summer Break Festival, Tim Festival, entre outros. Na lista de entrevistados, nomes como Black Sabbath, Aerosmith, Queen, Faith No More, The Offspring, Linkin Park, Legião Urbana e Titãs.

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