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Machine Head soa burocrático e sem direção em seu novo disco, 'Catharsis'

Robb Flynn e Machine Head retornam com seu novo disco, "Catharsis"
Por Lucas Scaliza

A única catarse possível com 'Catharsis' é você entender como Robb Flynn pensa sua música ultimamente e concordar com ele ao ponto de achar que ele está transcendendo barreiras de uma forma genial. A parte de entender como Flynn pensa é o que proponho discutir a seguir. Quanto a parte de concordar – e de experimentar uma catarse sincera – deixo para cada um de vocês, ouvintes e leitores.

Heavy metal, nu metal, thrash metal e metalcore. Essa combinação não é estranha e, citando apenas esses gêneros da pancadaria metaleira, parecem funcionar bem. Contudo, quando os clichês se tornam muito evidentes e a abertura sonora para sons feito por bandas mais jovens contamina o som que já era esperado por uma plateia mais antiga, críticas aparecem. O Machine Head passa por um período em que conseguiu mais ouvintes se rendendo a alguns modismos, sejam os traços de nu metal ou sejam os refrãos melodiosos contra versos furiosos, um esquema mais do que desgastado do metalcore americano e que está presente justamente na faixa-título do novo trabalho.

Nesse embate de gerações entre mudanças de foco artístico, a banda sofre com haterismo online ao mesmo tempo em que é considerada uma senhora banda, tecnicamente falando. Todos gostam de Robb Flynn, mas nem todos acham que ele segue o caminho correto sempre. 'The Blackening' (2007) e 'Unto The Locust' (2011) foram acertos que recuperaram o thrash e o groove metal dos primeiros discos de meados dos anos 90, com a voz gutural de Flynn onipresente. 'Catharsis', por sua vez, é um disco eclético de uma banda poderosa e barulhenta.

O novo álbum tem violência logo de entrada, já que “Volatile” é o que qualquer um identificaria como uma faixa do Slipknot. Já “Kaleidoscope”, com todos os seus “dedos do meio levantados” por cima de uma base genérica de metal, sublinha uma das performances mais desinteressantes de Flynn (sem falar que o videoclipe da faixa é péssimo!). “Beyond The Pale” está longe de ser criativa, mas mantém a empolgação e é um acerto da banda. “Triple Beam”, sobre drogas, se apega ao riff com dissonância de segunda menor e poderia estar, tranquilamente, na voz de Jonathan Davis num disco do Korn. Idem para “Grind You Down”.  Trocando em miúdos, não falta peso às novas criações do Machine Head e tem vários solos incendiários, mas não há thrash, como Flynn já tinha dito que não teria mesmo.

Outro ponto negativo é o tempo de duração de 'Catharsis'. Com 15 músicas e 74 minutos de play, o álbum vira uma tortura. Mesmo quem não gosta da composição mais eclética de Robb Flynn sabe identificar onde estão suas melhores ideias e tudo o que é gordura. Caso fosse um produto mais bem acabado e editado, poderia ter entre 45 e 50 minutos e nem sentiríamos falta de nada. “Eulogy”, uma das faixas mais longas do álbum, é também uma das piores já gravadas pela banda e poderia ter ficado de fora para que não colocássemos em dúvida, mais uma vez, o bom gosto de Flynn como músico, compositor, arranjador e produtor. Vai ver, o que falta à banda é justamente a visão de um bom produtor que possa expandir o potencial criativo sem se perder no lamaçal de clichês e ideias que deturpam a coesão do disco.

Assim como Mikael Akerfeldt abandonou o gutural e o death metal para expandir a sonoridade do Opeth (debaixo de muitos protestos de fãs), Flynn também quer se aventurar por outras formas de expressão no metal e na música. Essa sua vontade de não ficar se repetindo eternamente é muito louvável e, como artista, ele tem o direito e até o dever de propor novos caminhos em seu ramo. Mas enquanto o sueco abandona o death metal e faz produções de respeito e composições de respeito, cada vez menos gordurosas, o californiano não larga as vertentes do metal e quer combinar todas as ideias em um mesmo produto. Até as letras de 'Catharsis' parecem muitas vezes jogadas, deixando às claras que o Machine Head não tem o que contar.

O ecletismo da banda – ou de Flynn – chega ao ápice com “Bastards”, a faixa lançada como single que foi duramente criticada pelos fãs. O próprio compositor chegou a defender seu ponto de vista: uma música que fala dos EUA e deriva do estilo conhecido como “americana” de folk. Acredito que não seja uma faixa ruim por flertar com o folk – diversas bandas de metal fazem boas faixas assim. O problema é que “Bastards” é horrível em suas escolhas. O violão tem uma levada preguiçosa e a guitarra distorcida por trás simplesmente não combina com a música no geral. Quando engrena e vira um misto de americana e hardcore, parece que estamos ouvindo uma banda punk dos anos 90 com Robb Flynn nos vocais. A gente entende qual é o objetivo de Flynn, mas a execução é canhestra demais. “Behind a Mask” se sai muito melhor no quesito coesão também se valendo de arranjos acústicos do começo ao fim.

No final das contas, temos alguns bons momentos em Catharsis que mantém a audição para ver o que mais eles propõem, mas há muita coisa sobrando e muitas ideias erradas, assim como ideias que não soam originais de forma alguma, o que transforma o álbum em uma experiência meio burocrática e cansativa. Caso seja um apreciador do mashup metaleiro que o Machine Head anda fazendo e não se importe com as inclusões de pegadas mais adolescente, talvez um refrão como o de “Beyond The Pale” seja catártico realmente. Do contrário, procure alívio para a alma em outro lugar.

Cotação: 

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