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Do punk ao metal, Propaghandi completa metamorfose sonora em 'Victory Lap'

Na estrada desde 1986, Propagandhi é hoje um dos principais nomes da Epitaph
PROPAGANDHI
"Victory Lap"
Epitaph Records; 2017
Por Luciano Cirne


Há 40 anos o punk rock está  aí, visceral e enérgico dando aos jovens uma válvula de escape para que possam se expressar, o que nestes tempos malucos que vivemos - onde neonazistas fazem passeatas pelos EUA e deputados aqui no Brasil acham que proibir artistas de se apresentarem no país por questões religiosas, convenhamos - faz-se mais necessário que nunca. Ao mesmo tempo, porém, é inegável que o gênero encontra-se estagnado e, salvo raríssimas exceções como o Bad Religion e o Ratos de Porão, a maioria parece ter perdido o poder de fogo tão necessário para manter-se relevante. A este seleto grupo podemos incluir também os canadenses do Propagandhi.

Na ativa desde 1986, eles sempre foram uma das bandas mais engajadas de toda a cena punk / hardcore e nunca fugiram de uma polêmica. Essa integridade causou diversos problemas ao longo dos anos. Um exemplo foi quando Fat Mike, vocalista do NOFX, cortou relações com o grupo, expulsando-os do seu selo (Fat Wreck). O motivo, foi porque Fat se irritou com o fato de o Propagandhi não querer participar de uma coletânea contra George Bush organizada pela gravadora. A justificativa da recusa foi que dentre as ONGs que davam apoio a esse lançamento, haviam várias cujo maior financiador era o magnata George Soros. Mas se essa postura do grupo rendia cortes de relações, por outro lado isso sempre colocou eles um passo adiante dos demais. Durante toda sua história, o Propagandhi primou pela honestidade e pelas letras carregadas de mensagens pro-veganismo, pro-igualdade, anti-fascistas e anti-capitalistas. E  não seria diferente agora em seu sétimo trabalho, intitulado "Victory Lap".

A bem da verdade talvez não seja muito correto rotulá-los como punk ou hardcore no que tange à sonoridade, haja vista que desde o seu quarto disco ('Potemkin City Limits') eles vêm cada vez mais abraçando uma pegada thrash metal. Em 'Victory Lap' podemos dizer que a metamorfose se completa. É um álbum quase que essencialemente de metal, como atestam faixas enérgicas e velozes como "Failed Imagineer", "Comply / Resist", "Letters to a Young Anus", "In Flagrante Delicto" e "When Your Fears Collide". Mas há espaço também para algumas surpresas - como a levada quase indie de "Lower Order (A Good Laugh)" e a estranha e diferente de tudo que já gravaram até entçao: "Adventures in Zoochosis" (onde Chris Hannah narra em primeira em primeira pessoa a angústia que um animal sente preso no zoológico).


Também merecem destaque "Tartuffle", por ser a que mais se assemelha aos primeiros trabalhos e a nervosa faixa-título, que é seríssima candidata a música do ano, deixando claro que se a sonoridade é thrash, as letras não deixaram de ser puro punk rock (acho que só mesmo o Dead Kennedys ou o Bad Religion conseguiriam escrever algo tão ácido e eloquente como "quando as chamas tiverem engolido a casa dos bravos / a debandada para a fronteira terá sido em vão / Rostos se envergonharam e empalideceram / Como a parede que não poderia ser dimensionada e os tornaria grandes"). E claro, seria uma grande injustiça não ressaltar o quanto todos os integrantes do Propagandhi têm uma técnica incomum para uma banda oriunda do punk (são muito mais virtuosos inclusive que inúmeros conjuntos que começaram no metal): Jord Samolesky é um excelente e subestimado baterista e a guitarrista Sulynn Hago, que faz sua estreia aqui, é um MONSTRO, simples assim. Me arrisco a dizer sem medo de errar que é a melhor guitarrista do sexo feminino na atualidade.

Ainda que não seja seu melhor trabalho (na minha opinião, o prêmio vai para 'Today's Empires, Tomorrow's Ashes' de 2000), eles mantém o alto nível que caracteriza sua discografia e não decepcionam pois além da inegável perícia nos instrumentos, eles têm alma, coisa cada vez mais rara nos dias de hoje. Chris Hannah entona cada palavra como se estivesse exorcizando seus demônios e isso transparece ao longo da audição. Mesmo que você não entenda absolutamente nada de inglês, consegue sentir que ele canta com o coração, o que torna todo o discurso ainda mais genuíno. Eles ainda mantém acesa aquela chama idealista juvenil de salvar o mundo, porém não sozinhos; esperam que vocês captem suas mensagens e embarquem nessa, sem contudo esquecer da diversão e claro, pogando um bocado pelo caminho. Grande trabalho de uma grande banda que com certeza merece mais atenção!

Um comentário:

  1. Até que enfim um meio de comunicação especializado em música dando ao Propagandhi o devido destaque! Parabéns! Fábio "Punkid"

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