terça-feira, 23 de agosto de 2016

Discos: Cachorro Grande (Electromod)

Foto: Divulgação
Cachorro Grande investe pesado no eletrônico mas escorrega no contexto
CACHORRO GRANDE
'Electromod'
Coqueiro Verde; 2016
Por Lucas Scaliza



O flerte entre o rock’n’roll e o eletrônico não é novo. Pense no New Order da década de 1980 e no de hoje. Pense também no Garbage de ontem e de hoje. Depeche Mode vêm à mente. E quem sabe a banda paulistana Remove Silence? O Muse é um power trio com pegada roqueira e timbres eletrônicos. Chris Cornell deixou o grunge do Soundgarden de lado para fazer um eletrônico bem interessante na carreira solo. E até mesmo Mark Lanegan, do Screaming Trees, resolveu investir nisso e obteve resultados interessantes. E nem vamos falar de tudo o que David Bowie já fez…

No Brasil é bem mais difícil encontrar uma banda de rock orgânico que flerte com o eletrônico, ainda mais quando o som orgânico é tão característico desde o início da discografia. Mas a banda gaúcha Cachorro Grande resolveu arriscar e trouxe os timbres eletrônicos para a frente da produção de Electromod, oitavo disco de inéditas do catálogo. Se não fosse por algumas características do grupo (a voz do vocalista Beto Bruno, uma pegada psicodélica e o ritmo afoito de algumas faixas mais ágeis) seria um som quase irreconhecível.

Ouvir "Tarântula", "Nem Tudo É Mais Como Era Antes" e a primeira metade de "Pandora" é quase um choque. No lugar de uma bateria cheia de pegada temos batidas eletrônicas; no lugar de riff de guitarra, sons saturados produzidos por sintetizadores ou linhas melódicas feitas por teclados.

Mas calma. Electromod não é um disco que parece atestar que a banda mudou seu rumo musical, como se a partir de agora o Cachorro Grande deixasse de ser uma banda e passasse a ser um grupo de produtores de música eletrônica. O álbum está mais para um experimento na discografia e a chance de poderem se desafiar como artistas.

A maioria das faixas apresenta o Cachorro Grande enquanto banda mesmo – vocal, bateria, guitarra e baixo – enquanto o som é complementado por sons eletrônicos e viajantes comandados principalmente por Pedro Pelotas. Dessa forma, a dinâmica da banda mantém-se presente o tempo todo. "Limpol no Astral", uma das melhores músicas do álbum, é tão psicodélica quanto clubber. Rodolfo Krieger faz uma das linhas de baixo mais marcantes do álbum e Marcelo Gross faz um solo bastante radical no final, sem falar no excelente uso do pedal wah-wah. Outra faixa de destaque é "De Longe Todo Mundo É Normal", com uma performance notável de Krieger e Pelotas mais uma vez.

"Eu Sei Que Vai Feder", "Subir É Fácil, Difícil é Descer" e "Arpoador" (esta com uma participação expressiva da guitarra de Gross) dão conta de mostrar que a estrutura de composição do Cachorro Grande ainda é bastante calcada no pop rock. Ainda que as faixas possam ter sido pensadas como puxadas pelo eletrônico, no final é como uma banda comum acrescentando arranjos de sintetizador, teclado e programação eletrônica. 

Difícil saber se o público que acompanha o Cachorro Grande vai se dar bem com a proposta de Electromod, mas não há nada muito fora do lugar. Eles não entraram de cabeça nessa onda e nem tentaram maquiar os sintetizadores e as programações para soar como uma banda mesmo, como fez Mark Lanegan. Contudo, estão evidenciando bem mais a presença do eletrônico do que em Costa do Marfim (2015). Talvez a grande escorregada da banda ocorre na música que dá nome ao álbum - onde numa tentativa de, talvez, soar politizado em uma época de crise, o grupo gravou uma letra cheia de versos mal escolhidos e que achatam uma situação política mais do que complexa. 

Musicalmente falando, não é preciso mergulhar fundo para saber que o estilão da banda continua presente em Electromod. O problema é que as novidades sonoras não refletem um novo jeito de pensar e nem trazem um frescor tão grande assim à obra do grupo.

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