quarta-feira, 15 de junho de 2016

Discos: The Monkees (Good Times)

"Good Times", novo disco do Monkees, é um brinde à história do rock
THE MONKEES
Good Times
Rhino Records; 2016
Por Luciano Cirne


Fato: acho que ninguém, nem o fã mais ferrenho, imaginava que a essa altura o The Monkees, uma das bandas mais emblemáticas dos anos 1960, resolveria sair do limbo em pleno 2016 para celebrar os 50 anos de existência. E, acredito eu, menos gente ainda esperava que eles, malandramente, resolvessem atrair a atenção das novas gerações de roqueiros (que provavelmente só  conhecem  "I'm a Believer" e mesmo assim por causa do filme Shrek) convidando bambas do naipe de Neil Diamond (em “Love to Love”), Ben Gibbard (vocalista do Death Cab For Cutie, co-autor da lindíssima “Me And Magdalena”), Andy Partridge (vocalista e guitarrista do XTC, que colabora em “You Bring The Summer”, faixa mais alto astral do disco), Noel Gallagher (que dispensa apresentações e que participa, junto da também lenda vida Paul Weller em “Birth of an Accidental Hipster”, que parece um outtake das sessões de 'Morning Glory'), Rivers Cuomo (Weezer, que compôs o primeiro – e divertidíssimo – single “She Makes Me Laugh”, power pop daqueles que Rivers parece ser capaz de fazer até dormindo) e Adam Schlesinger (vocalista do Fountains of Wayne, que além de ajudar a escrever “Our Own World”, também produziu a bolachinha) para auxiliar nas composições. 

O resultado não poderia ser outro: sem dúvida, desde já, é nome certo na lista dos melhores de 2016, além de ser o melhor trabalho dos Monkees desde 1968 e, se me permitem a ousadia, poderia ir até mais longe e me arriscar a dizer que nenhum dos grandes medalhões do rock da mesma época e que ainda não penduraram as chuteiras lançou algo tão bom e consistente nos últimos tempos.

É óbvio que tanta gente ilustre engrandeceu o trabalho, mas isso seria dizer que as composições sem parcerias ficaram obscurecidas, o que não poderia ser mais injusto. Elas são, aliás, a parte mais emocional e confessional do trabalho. Prova disso é a pérola "Little Girl", uma das músicas mais bonitas lançadas neste ano até agora, com sua poética letra que traz versos como "venha, pegue minha mão / Abandone seus castelos de areia / Não dá para salvá-los do mar" e a canção que encerra o trabalho “I Was There (And I’m told I Had A Good Time)”, que é uma perfeita síntese deste espírito que permeia o CD: Micky Dolenz (cuja voz permanece bela e intacta aos 71 anos) revisita o passado com reverência e feliz não só por ter estado lá, mas também por, 50 anos depois, se divertir cantando a respeito e poder proporcionar aos seus fãs a mesma alegria.

Finalizada a audição, o sentimento é um só: se você é um daqueles que ainda torce o nariz para a banda e os estigmatizam como “fraudes” porque não tocavam os instrumentos e nem cantavam nas suas primeiras gravações (de certa forma, foram os precursores do Milli Vanilli - e isso, verdade, não é nenhum mérito) vai ter que dar o braço a torcer e reconhecer suas qualidades, pois é uma obra que consegue uma façanha: graças as acertadas escolhas para participações especiais, ele soa moderno  e atual mas, ao mesmo tempo, mantém também o espírito dos anos 60's e nos faz sentir como se tivéssemos voltado no tempo; já a molecada mais nova precisa abrir a cabeça, fugir do lugar comum e descobrir o som do The Monkees nem que seja pela curiosidade de ouvir seus ídolos cantando ao lado de septuagenários. Além de ser, claro, um deleite para alma e ouvidos.

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