segunda-feira, 25 de abril de 2016

Discos: Yuck (Stranger Things)

Foto: Divulgação
Yuck retorna com bom trabalho, mas não apresenta muitas novidades
YUCK
Stranger Things
Mamé Records; 2016
Por Luciano Cirne



Poucas bandas tiveram uma carreira tão cheia de altos e baixos em um espaço de tempo tão curto quanto o Yuck. Senão vejamos: lançaram o primeiro CD por uma gravadora independente renomada (Fat Possum, subsidiária da Epitaph Records) e conseguiram fazer algum sucesso no Reino Unido graças a sons como "Get Away" e "Holing Out", inspirados até a medula em My Bloody Valentine, The Cure e Jesus And Mary ChainQuando tudo parecia estar indo de vento em popa, o guitarrista, vocalista e compositor principal Daniel Blumberg resolveu cair fora para investir numa carreira solo (que, diga-se de passagem, não decolou até agora). 

Perdidos sem o seu ponto focal, lançaram Glow and Behold em 2013, disco preguiçoso que investia em melodias mais acessíveis na esperança talvez de abraçar um público maior, porém o resultado foi o completo inverso: o álbum não só fracassou nas paradas - rendendo um chute no traseiro pela gravadora - como também desagradou boa parte dos antigos fãs. Agora, tentando dar um novo gás e voltar aos tempos áureos, lançam Stranger Things. Nesse momento você deve estar me indagando se esse disco é tão bom quanto o primeiro trabalho, e eu respondo que com certeza é bom, mas se faz frente a sua estreia... Bem, aí já é outro papo.

Stranger Things tenta pegar um pouco mais pesado na distorção que seu antecessor, como é o caso da viajante faixa de encerramento "Yr Face", de "Cannonball" e da maravilhosa "Hold Me Closer" (seríssima candidata à música do ano). Mas o que predomina mesmo nesse trampo são momentos calmos e melódicos, como nas faixas "Like a Moth", "Swirling" e "I'm OK", que se por um lado evidenciam o potencial radiofônico do conjunto, também acabam expondo três pontos fracos que são bastante incômodos. O primeiro são os vocais bastante desafinados do vocalista (e também guitarrista) Max Bloom. Prova disso é a canção "As I Walk Away", a única cantada pela baixista japonesa Mariko Doi. Após ouvi-la, fica difícil não escutar as músicas restantes sem se perguntar o tempo inteiro quem foi que achou que seria uma boa ideia manter Max no microfone. Já o segundo problema é a falta de personalidade: Temos nítidos ecos de Weezer ("I'm Ok"), Teenage Fanclub ("Only Silence"), Superchunk ("Cannonball"), Lemonheads (a faixa-título, cuja melodia lembra e muito o hit "Into Your Arms"), só não temos mesmo nada que se assemelhe com seu inspirado primeiro álbum. O mais próximo disso é mesmo "Hold Me Closer", embora também falte personalidade e soe como cover do Pavement em vários momentos. Por fim, o terceiro e último defeito é se perder em sua própria pretensão. Algumas músicas são desnecessariamente longas ("Down" é o maior exemplo), o que torna a tarefa de chegar ao final da audição um tanto quanto cansativa. 

Talvez o fato de a própria banda ter produzido "Stranger Things" possa ter contribuído para isso; alguém de fora provavelmente teria percebido melhor o problema e dado o polimento devido, bem como alertado para não colocarem tantas faixas lentas em sequencia no final, onde o ouvinte pode acabar ficando como o bonequinho da capa do disco - e adormecendo no sofá. 

É nítido que o Yuck ainda está tentando se reinventar e achar sua própria identidade, mas também parece claro que não estão mais dispostos a serem tão ousados ou assumir riscos como na época em que Daniel Blumberg capitaneava o barco. Trocando em miúdos é bom, mas não tanto quanto poderia ser, pois potencial para ir além eles têm de sobra. O refrão de "I'm OK" seria uma boa de resumi-lo: "Não tenho nada para te dar, não tenho nada para oferecer, não tenho nada para dizer exceto 'Estou OK'". Concordo plenamente , está apenas ok e nada mais.

0 comentários:

Postar um comentário