quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Discos: Iggy Pop (Post Pop Depression)

Foto: Divulgação
IGGY POP
Post Pop Depression
Loma Vista Recordings; 2016
Por Lucas Scaliza


Não sei quando Dave Grohl se tornou unanimidade quando se fala no “cara mais legal do rock” e nem quem o elevou a este patamar, mas certamente quem acreditou nisso esqueceu-se completamente de Iggy Pop, um ícone do estilo, com uma enorme bagagem nas costas e ainda mandando ver ao vivo e em estúdio, sempre conservando a personalidade carismática, cheia de atitude e legítima como poucos famosos conseguem manter por tanto tempo. Aos 68 anos, o cantor e compositor continua sendo uma referência e mostrando gás para fazer as coisas diferentes.

E se Iggy Pop é o cara mais legal, Josh Homme é o melhor parceiro by far. Não só comanda uma das bandas mais modernas do rock – o Queens Of The Stone Age, caso ainda não saiba –, como também faz virar ouro (ou quase) tudo o que toca, seja um pretensioso projeto com vários amigos no meio do deserto (Desert Sessions), seja um rock direto, divertido e despretensioso (Eagles of Death Metal) ou então uma superbanda como o Them Crooked Vultures, que reuniu Homme (guitarra e vocal), Grohl (bateria) e o baixista John Paul Jones (do Led Zeppelin). Sem falar que foi Homme o produtor que ajudou a dar o direcionamento mais maduro ao som dos ingleses do Arctic Monkeys.

Post Pop Depression é o resultado da união do carisma de Iggy Pop com as habilidades de produtor e diretor musical de Josh Homme (backing vocal e guitarra). O disco todinho é bastante divertido, muito orgânico e reflete a personalidade de ambos. Contudo, embora seja para Iggy brilhar, sente-se a presença de Homme na estrutura musical da primeira até a última faixa, seja nas escolhas harmônicas, nos timbres de guitarra ou nos breaks. A linha de guitarra em “In The Lobby” aspira transformá-la numa canção do QOTSA, aliás.

Como foi Iggy que mandou um mensagem para Josh e sugeriu que fizessem algo juntos, suspeito que o antigo líder dos Stooges queria justamente colocar sua voz nas produções do líder do QOTSA, confiando plenamente em seu discernimento e poder de composição. Não é por acaso que a banda que acompanha o cantor é reforçada por Dean Fertita (tecladista do QOTSA, guitarrista do The Dead Weather e que também foi tecladista na última turnê de Jack White) e o baterista Matt Helders, o cara mais cheio de atitude do Arctic Monkeys. Ao vivo, o quarteto principal ganha o reforço de Matt Sweeney no baixo e Troy Van Leeuwen (também do QOTSA, Desert Sessions, EODM e A Perfect Circle) na guitarra.

Iggy Pop é uma das estrelas do rock que melhor soube utilizar sua voz com a chegada da terceira idade. O registro grave lhe cai bem e cai bem às músicas que faz, tendo um timbre muito particular e ainda cantando com emoção e muita graça, como tão bem ilustra “Gardenia” em Post Pop Depression. Nick Cave, Tom Waits e Leonard Cohen também envelheceram com a voz em forma. Já “Vulture” é o tipo de música estranha em que Pop se aproxima do saudoso Lou Reed e entrega uma interpretação animalesca. Cabe lembrar aqui da excelente participação do vocalista na música “Astray Dog”, do último disco do New Order, Music Complete (2015).

Embora seja um disco de rock, Pop e Homme conseguem diversificar a obra incluindo um pouco de dance em “Sunday”. A bateria de Helders e o baixo mantém a música funcionando como uma música para as pistas, mas são as guitarras sujas de overdrive que fazem os arranjos no lugar de efeitos eletrônicos ou dos teclados. Esse é o tipo de decisão artística que torna Post Pop Depression tão orgânico e tão característico da dupla que o criou. Não dá para deixar de citar “German Days”, em que o vocal abusa do vibrato. O passo da canção é lento, mas as guitarras são ansiosas e criam o ambiente roqueiro alternativo, deixando para o baixo a tarefa de marcar a harmonia e a base da música, bem ao estilo do The Dead Weather.

Mas nem tudo é estranhismos no álbum. “Chocolate Drops” é mais comum, marcada pela troca de acordes e sem arranjos excêntricos, tão amigável quanto “Gardenia” e “Break Into Your Heart”. “Paraguay” fecha o disco mostrando seu lado mainstream na primeira metade e a faceta mais agressiva do quarteto no final. Assim, Post Pop Depression cumpre seu papel de disco de rock, oferecendo algumas pirações (de leve) para quem gosta de uma pegada mais alternativa e também canções mais digeríveis e, ainda assim, com diversos detalhes que as tornam valiosas e nada banais. Essa é, afinal, a especialidade de Josh Homme: não é que a composição seja sofisticadíssima ou complexa, mas um detalhe na forma de tocar, o lugar onde colocam uma acentuação, um break ou forma de lidar com os acordes fazem a diferença entre uma música bastante comum e vulgar e outra com algo a se prestar atenção.

O disco foi todo gravado em segredo no estúdio caseiro de Homme em Joshua Tree. Após trocarem algumas letras e ideias, o grupo começou a trabalhar em composições ainda não finalizadas. Em apenas três semanas gravaram tudo o que era preciso (contando uma semana de produção em Burbank). Este trabalho foi um dos fatores que ajudou Homme a lidar com as semanas seguintes após os ataques terroristas de Paris em novembro, quando pessoas foram mortas e feitas refém durante um show do EODM.

O clima do álbum não é exatamente feliz, já que lida com a sensação de chegar ao fim de sua vida útil e o legado que vai deixar neste mundo. Reflete como Iggy Pop tem se sentido nos últimos anos, mais fazendo aparições e participações especiais do que gravando e precisando sair em turnês longas pelo mundo para divulgar seus discos. Ele ainda se apresenta e ainda dá tudo de si, mas já diz que quer se aposentar. Dá para imaginar um mundo em que o pai do punk vai aparecer menos, gravar menos e cantar menos nos palcos? É por isso que o nome Post Pop Depression cai bem ao trabalho. Mesmo assim, está longe de ser um álbum triste ou carregado de bad feelings. E nem vai ser o último, caso ele continue vivo para nos presentear mais algumas vezes com sua voz grave e atitude roqueira legítima.

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