terça-feira, 28 de abril de 2015

DISCOS: BLUR (THE MAGIC WHIP)

BLUR

The Magic Whip

Parlophone; 2015

Por Lucas Scaliza






The Magic Whip não é um novo Parklife (1994). Nem um novo The Great Escape (1995) ou Think Tank (2003). Seu maior mérito é ter reunido os quatro membros originais da banda que mostrou o britpop para o mundo nos anos 90. Damon Albarn (voz, guitarra, sintetizador, teclado), Graham Coxon (guitarra, teclado, sintetizador), Alex James (baixo) e Dave Rowntree (bateria) gravam juntos novamente depois de 16 anos, quando 13 (1999) marcou a despedida de Coxon.

Toda a gravação do álbum ocorreu em maio de 2013 na China, após o Blur ter sido escalado para tocar em um festival japonês que foi cancelado, deixando o quarteto com muito tempo livre em Hong Kong. Então eles gravaram no Avon Studios. Saíram de lá com várias novas ideias inacabadas. Só em novembro passado Coxon teve permissão para reativar o trabalho com o produtor Stephen Street (que já trabalhou com os The Smiths, MorrisseyKaiser Chiefs e com o próprio Blur).

Enquanto isso, Albarn estava na turnê do ótimo Everyday Robots, seu primeiro álbum solo. Após terminar a turnê na Austrália, pousou em Hong Kong e inspirou-se pelo clima da cidade (e, como The Magic Whip deixa muito claro, por seu momento autor reflexivo e de solidão desde a concepção de seu début solo) e gravou em janeiro de 2015 os vocais das músicas que Coxon havia preparado.

Mas não foi uma sessão convencional para gravação de um novo disco. A banda se reuniu por cinco dias, num estúdio pequeno da cidade chinesa para jam sessions que, como Coxon e o resto da banda podem ter observado, tinha potencial para virar um álbum. É aí que entra o papel de Stephen Street - o cara que produziu todos os discos do Blur de 1991 até 1997.

Por causa dele, The Magic Whip traz a mesma pegada que marcou o som do grupo nos anos noventa - onde os melhores exemplos estão na ótima “Go Out”; a fluente “Ong Ong”; e a dramática “There Are Too Many of Us” (que mostra um momento de reflexão sobre a China, evidenciando assim o talento de Albarn para compor letras, onde nesse caso em específico, ele expõe publicamente situações privadas do dia a dia dos chineses). Mas eles também se modernizaram, permitindo-se ser menos guitarreiros (do que em Parklife, por exemplo) e mais abstratos, confiando em ruídos e sintetizadores. Resumindo: o Blur ainda pode ser o Blur, mas não passou incólume pelo que foi produzido com o Gorillaz, com as trilhas sonoras, a carreira solo de Albarn e de a solo de Coxon.

Para uma volta, que foi recebida com um misto de entusiasmo e desconfiança por parte de fãs, críticas e público ligado à música em geral, The Magic Whip começa bastante animado com a boa “Lonesome Street”, que tem o inegável DNA do Blur de álbuns passados. A bela “Ice Cream Man”, com todos os seus sintetizadores, traz Albarn cantando uma letra mais reflexiva que facilmente pode ser entendida como uma clara mensagem política. Aos poucos o sintetizador some e dá espaço para os violões de Albarn e Coxon, sem falar na bela melodia criada por Alex James.

Pyongyang” é melancólica - poderia estar em Everyday Robots e se apoia em um riff simples de guitarra que se repete ao longo de toda a faixa. Há muitas camadas de sonoridade: desde as batidas comedidas de Rowntree, o baixo sempre presente de James e teclados e sintetizadores soando junto, completando o sentimento morno de desconforto da canção.

Though I Was a Spaceman”, com mais de 6 minutos, é uma das melhores faixas do disco. Grooves e uma batida eletrônica, vocal maduro e guitarra abstrata. Sem refrão, vai ganhando corpo e som sem pressa até explodir na sonoridade mais viajante do álbum. Deverá dar trabalho para reproduzir ao vivo, mas valerá a pena. “I Broadcast” também começa bastante eletrônica, mas logo mostra toda a vitalidade característica do Blur.

Se você prestou a devida atenção em Coxon, sabe que sua especialidade e sua intenção não é tocar uma guitarra reta e direta, com ritmos que todos nós já estamos bem acostumados. Ou seja, dentro do britpop, ele é o oposto do Noel Gallagher, seja no Oasis ou na carreira solo. E essa tendência de Coxon a usar o instrumento de maneiras novas está presente por todo The Magic Whip. Pequenos solos aqui, pequenos riffs ali, uma sequência de acordes acolá, muitos efeitos de pedal para maquiar a presença do instrumento. Ele é o responsável por fazer “Ghost Ship” ser tropical, faz ótimos arpejos em “New World Towers” e mantém seu instrumento quase que em segundo plano na ótima “My Terracotta Heart” (a linha de baixo e bateria são mais proeminentes, mas Coxon está ali fazendo sua harmonia valer a pena com seus dedilhados e fills).

Apesar de o disco ter começado espontaneamente com quatro caras tocando junto – e se permitindo experiências sonoras novas –, o resultado é maior do que isso. A banda está muito pouco preocupada em fazer britpop, o que é bom, e também pouco preocupada com o rock, como em Think Tank. Pelo menos em estúdio, The Magic Whip soa quase experimental para os padrões do Blur e foge do pop mais fácil, mostrando que o quarteto está bem crescido e não precisa dar um passo atrás no que seria o desenvolvimento musical de qualquer um de seus membros. “Mirrorball” fechando o trabalho novo com sua sobriedade e sem nenhum momento catártico é sintoma disso.

A volta dos ingleses não vem ladeada pelo melhor disco da carreira deles, porém mostra que ninguém parou no tempo ou é saudosista. Se Parklife e The Great Escape tinham diversão em abundância, o novo disco é mais contemplativo e muito menos dançante ou irônico. Mas não se engane, The Magic Whip é um álbum repleto de momentos animados.

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