Alex Sant’Anna grava Tom Zé com prima do tropicalista, 1º single do quinto álbum

Foto: Bruna Noveli

Menina Jesus, com participação de Mamah, é a primeira prévia de “O Futuro é do Pretérito”, novo disco do cantor e compositor de Sergipe

Com quase três décadas de carreira, o cantor e compositor Alex Sant’Anna, baiano radicado em Aracaju e um dos nomes centrais da música autoral de Sergipe, acaba de lançar sua releitura de Menina Jesus, canção em que Tom Zé retrata a saudade e a fé do migrante nordestino.

A faixa abre os caminhos de “O Futuro é do Pretérito”, quinto disco solo do artista, e tem participação da cantora sergipana Mamah, prima de segundo grau de Tom Zé.

Ouça Menina Jesus em distro.ffm.to/qvxogqe.

“Este é o primeiro single do meu novo disco, O Futuro é do Pretérito. Pra abrir as portas desse disco, lanço Menina Jesus, canção de Tom Zé que já está no meu repertório há tanto tempo que muita gente já me perguntou se era minha. Eu neguei, claro, mas fiquei feliz em saber que alguém chegou a cogitar que essa obra-prima pudesse ser minha”, conta Alex.

Há 15 anos, uma relação

A relação de Alex Sant’Anna com Tom Zé vem de longe. O artista abriu dois shows do tropicalista baiano há cerca de 15 anos e tentou gravar “Menina Jesus” em dois discos anteriores, “Enquanto Espera” (2015) e “Baião Amargo” (2020), sem que a gravação acontecesse. “Agora, para O Futuro é do Pretérito, finalmente eu consegui, e acredito que veio no momento certo, porque a música dialoga com o conceito do álbum”, afirma.

Lançada por Tom Zé no disco “Correio da Estação do Brás” (1978), a canção tensiona o sagrado, o profano e as contradições sociais do Brasil. Ela conta a história de um migrante nordestino que sente saudade da terra natal, mas carrega a obrigação de só voltar quando tiver vencido na vida, com símbolos de ascensão como um relógio de pulso, o filho na escola e o imposto de renda pago.

O som

Na interpretação de Alex Sant’Anna, “Menina Jesus” ganha contornos de rock alternativo e de uma brasilidade torta, aproximando a vanguarda tropicalista da música nordestina contemporânea.

A introdução, guiada por um piano dramático e por arranjos de cordas densos, cria um clima suspenso, pontuado por guitarras em detalhes precisos. O ponto alto vem na passagem para o verso “Bença, mãe”, quando a música explode com bateria pesada e guitarras distorcidas, conduzidas pela voz rouca de Alex.

A produção é de Leo Airplane, parceiro de longa data do artista, e do próprio Alex Sant’Anna, com produção executiva de Nah Donato.

Quem é Mamah

“E falando em prima, convidei Mamah, com seu sangue de Irará, pra cantar comigo nesta canção”, diz Alex, em referência à cidade baiana onde Tom Zé nasceu.

Cantora e compositora sergipana, Mamah iniciou a carreira em 2018. No ano seguinte, ficou em segundo lugar no festival Sescanção com as canções “Dose de Amor” e “Lua em Leão”. Em 2021, lançou o EP de estreia, “Elã”, e, entre 2023 e 2025, três singles, entre eles “Pense N’eu”, com participação de Táia, e “Na Guerra Começo a Dançar”, com NG Lampião da Rima e Bricelet. Também atua como backing vocal de artistas como Rebecca Melo, Morgana, Anne Carol e Joésia Ramos e integra o Coletivo Sergipano de Mulheres no Samba, que fortalece a presença feminina na cena musical.

Trajetória

Nascido em Ipiaú, no interior da Bahia, Alex Sant’Anna se mudou para Aracaju aos 15 anos e começou a tocar profissionalmente em 1997. Em 2001, foi um dos fundadores da banda Naurêa, que misturava samba e baião e levou a música sergipana a turnês pela Alemanha. Na carreira solo, lançou os discos “Aplausos Mudos, Vaias Amplificadas” (2004), “Enquanto Espera” (2015), “Baião Amargo” (2020) e “Encruzilhada” (2022), este último gravado com compositores de seis estados.

Ao longo da carreira, dividiu o palco com nomes como Tom Zé, Liniker, Naná Vasconcelos e Zeca Baleiro, assinou trilhas para teatro e cinema e compôs boa parte do repertório d’A Banda dos Corações Partidos.

Também é criador do selo Disco de Barro e do coletivo Serigy All Stars, que mantém uma playlist dedicada aos lançamentos sergipanos e realizou, em janeiro de 2026, a primeira edição do Festival Serigy All Stars. Em 2025, recebeu o título de Cidadão Sergipano da Assembleia Legislativa de Sergipe.

O tempo como tema: novo álbum

O novo disco iria se chamar “Feito Benção”, mas o nome mudou no meio do processo de composição. “À medida que fui compondo as canções, percebi que um tema estava recorrente, que era a questão do tempo. Falo de passado, presente e futuro e, algumas vezes, da simultaneidade entre eles. Aí resolvi renomear o disco”, explica Alex.

O conceito do álbum dialoga com duas referências do pensamento brasileiro: o livro “Futuro Ancestral”, do líder indígena e escritor Ailton Krenak, e o conceito de tempo espiralar, desenvolvido pela poeta, ensaísta e dramaturga Leda Maria Martins a partir de rituais afro-brasileiros como o Congado, em que a memória é inscrita no corpo.

“Os dois conceitos partem de matrizes culturais diferentes, a cosmovisão banto e iorubá de Leda e a perspectiva indígena de Krenak, mas convergem de forma profunda. Ambos usam o ancestral não como algo que ficou no passado, mas como uma tecnologia de sobrevivência para o futuro”, diz o artista.

A ideia atravessa as letras das novas canções, em versos como “o presente enrosca o futuro e o futuro engravida o passado”, da faixa “Pretérito Perfeito”.

Arte da capa: @mund0negr0 e @carolpatriarca

Ficha técnica

Menina Jesus (feat. Mamah)

Composição: Tom Zé
Produção: Leo Airplane e Alex Sant’Anna
Produção executiva: Nah Donato
Gravação: FabSounds, por Leo Airplane e Fabrício Rossini
Vozes e guitarra gravadas no DDB Studio por Leo Airplane
Piano gravado no Marmelada Records por Aroldo Rezende
Mixagem e masterização: Leo Airplane, no DDB Estúdio
Arranjo de cordas: Rafael Ramos, Abraão Gonzaga, Leo Airplane e Gledson Souza
Conceito e arte: Júlia Bezerra Cruz
Social media: Sara Florêncio

Músicos

Alex Sant’Anna: voz
Mamah: voz
Danyel Nanume: bateria
Rafael Ramos: piano e baixo
João Mário: guitarra
Gledson Souza: violino e viola

Este projeto foi contemplado nos Editais da Política Nacional Aldir Blanc e tem apoio do Sistema Nacional de Cultura, do Governo do Estado de Sergipe e da Prefeitura Municipal de Aracaju, por meio da Fundação Cultural Cidade de Aracaju via PNAB, direcionada pelo Ministério da Cultura, Governo Federal.

Mais sobre Alex Sant'Anna


Ricardo Cachorrão

Ricardo “Cachorrão” é o velho chato gente boa que não pede licença pra gostar de música. Viciado em rock and roll, formou opinião longe de rádio, longe de MTV e perto demais de pilhas de discos e revistas. Tem alergia a banda cover, respeito profundo por discos obscuros do Frank Zappa e ainda sai sorrindo de um show do Iron Maiden — mas é no calor, no barulho e no caos dos buracos punk da periferia que se sente vivo de verdade. Já escreveu para Rock Brigade, Kiss FM, Portal Rock Press e a Revista Eletrônica do Conservatório Souza Lima. Está no Rock On Board desde o começo — e não pretende sair tão cedo.

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