O Greta Van Fleet chega ao seu quinto álbum de estúdio. A banda, que ficou famosa - e odiada por alguns - por "parecer demais com Led Zeppelin", recebendo elogios do próprio Robert Plant, chega para se consolidar de vez como um nome influenciado pelos deuses do rock setentista, se afastando dessa fama pejorativa de produto genérico.
Palace For The People é um disco que mantém todas as essências que fizeram o quarteto arrebatar fãs no mundo inteiro, mas que parece menos chupinhado da fonte original. A banda vai provando que a vibe deles é mesmo fazer o som que aprenderam a amar, com muita habilidade e uma capacidade de execução acima da média.
Em entrevista exclusiva ao Rock On Board, o baterista Danny Wagner já havia antecipado que o grupo finalmente se reconhecia na própria identidade, sentindo-se plenamente confiante em seus passos. É exatamente essa maturidade que transborda em Palace For The People.
Com exceção de “Play Your Games” (primeiro single divulgado, onde o vocal estridente de Josh Kiszka ainda evoca inevitáveis comparações com Plant), o restante do disco prefere se ambientar nessas influências em vez de simplesmente se apropriar delas. O grupo também decidiu dar um passo atrás no rock progressivo e nas viagens psicodélicas. Há pouco espaço para devaneios sonoros longos como os da ótima “The Weight Of Dreams”, encontrada em The Battle at Garden's Gate. Aliás, o único alongamento sonoro do álbum é “Born Into This”, que encerra o registro.
Ainda assim, trata-se de uma obra imponente de quase uma hora de duração - o que, na era dos LPs e da ditadura dos algoritmos, transforma Palace For The People em um item obrigatório em vinil duplo para os colecionadores.
O título do álbum foi inspirado no histórico centro cultural britânico Alexandra Palace, em Londres, carinhosamente apelidado de “The Palace of the People” por ter sido concebido como um espaço público de arte, encontro e liberdade para a comunidade. Diferente dos trabalhos anteriores, porém, o grupo optou por desacelerar nas alegorias mitológicas. O foco agora é a humanidade, a conexão, a resiliência e a transcendência, entregando um conjunto de canções profundamente pessoal e universal.
“A função do artista é oferecer aquilo que o universo não consegue”, reflete o vocalista Josh Kiszka. “Queríamos fazer um disco que representasse aventura, paixão, brutalidade, beleza, sexo e imaginação. E foi exatamente isso que fizemos. Tocamos no Alexandra Palace, em Londres, e percebemos que nossa música também é um palácio para as pessoas. Quanto mais você conhece o mundo, mais percebe o quanto ainda há para descobrir. Somos buscadores das estrelas. Apenas transformamos a experiência humana em música.”
O álbum abre com uma vinheta épica perfeita para ditar a atmosfera das grandes arenas. Ela serve de gancho para “Tear it Down”, faixa que melhor sintetiza o novo assentamento sonoro do grupo: refrão colante, levada cadenciada e um Josh Kiszka bem mais contido nos vocais. Essa postura vocal mais madura é, inclusive, o ingrediente principal para distanciar o grupo dos fantasmas do passado. Mesmo quando atinge notas agudas, Josh recorre a novas texturas, como na quase acústica “Boughten Pills”, onde os falsetes dão lugar a drives rasgados e bem colocados.
Candidata a melhor do disco, “Heart And The Beat” certamente ostenta o riff mais marcante desse trabalho. Jake Kiszka reforça seu posto como um dos guitarristas mais impressionantes da atualidade - o garoto frita o instrumento em solos estonteantes e dá uma aula de arquitetura de riffs. Em “Lost In The Golden”, por exemplo, Jake entrega um show de técnica ao alternar acordes, adicionar riffs hendrixianos e passear por mudanças de estrutura extremamente interessantes.
Os pianos ganham protagonismo em “Saw You Stand”, impulsionados por uma performance vocal impecável de Josh, que exibe uma variação de timbres impressionante. Já o carimbo explícito da escola zeppeliana surge em “Heya”, resgatando aquela clássica pimentada oriental no hard rock imortalizada por Page e Plant.
Analisado em sua totalidade, Palace For The People revela a estrutura mais consciente e segura do Greta Van Fleet até hoje. A banda buscou refinamento, e maturidade sem perder a sua essência. Este pode não ser o álbum que vai converter os detratores mais radicais ou silenciar todos os críticos da internet, mas é, sem dúvidas, o disco que mais comprova a intenção sonora do grupo.
Assim como as bandas de punk rock ou thrash metal mantêm intactas as estruturas tradicionais dos gêneros que as originaram, o Greta Van Fleet deixa claro em Palace For The People que seu único compromisso é seguir a vida tocando, da melhor maneira que puderem, o estilo de música que aprenderam a amar.

