Beck transforma divórcio e luto em oração acústica no melancólico 'Ride Lonesome'


Aos 56 anos de idade e com mais de três décadas de uma trajetória consolidada desde a explosão do hino lo-fi "Loser" e do clássico Odelay, Beck demonstra a sabedoria de um compositor que sabe o momento exato de dar vida às suas dores mais profundas.

Com o lançamento de Ride Lonesome, seu décimo quinto álbum de estúdio lançado pela Capitol Records, o músico californiano encerra um jejum de sete anos sem material autoral inédito — o maior hiato de sua carreira desde o lançamento do pop e eletrônico Hyperspace, produzido por Pharrell Williams.

Desta vez, contudo, o artista desacelera o ritmo para construir uma obra introspectiva, contemplativa e visceral. Estruturado como uma verdadeira oração em forma de canção, o álbum acolhe as transformações recentes de sua vida pessoal, inspirado de forma direta pelo fim de seu casamento de 20 anos com a atriz Marissa Ribisi e pelos sentimentos inevitáveis de luto, desapego e solidão que acompanham um recomeço.


O Fechamento da Trilogia Acústica e o Reencontro nos Estúdios

O projeto se consolida como a peça final e o fechamento natural do capítulo estético de uma trilogia iniciada na dor crua de Sea Change (2002) e aprofundada na reconstrução iluminada de Morning Phase (2016), trabalho que lhe rendeu o cobiçado prêmio de Álbum do Ano no Grammy.

Para capturar a essência orgânica desse momento, Beck voltou aos históricos estúdios United, em Hollywood, e chamou para a mixagem seu parceiro de longa data, Nigel Godrich. A produção ficou a cargo do próprio Beck, que convocou sua lendária banda de apoio com quem cultiva um entrosamento quase telepático: Joey Waronker (bateria), Justin Meldal-Johnsen (baixo), Smokey Hormel e Jason Falkner (guitarras) e Roger Joseph Manning Jr. (teclados). Juntos, constroem uma base sonora calorosa e acolhedora.


As Faixas de Trabalho e Participações Especiais

O álbum foi introduzido ao público através de três faixas de trabalho que sintetizam a atmosfera da obra:

"Ride Lonesome": A faixa-título estabeleceu o clima ancorado no country folk e ganhou inclusive uma versão alternativa marcante ao lado da cantora Sierra Ferrell, vencedora de múltiplos prêmios Grammy.

"In the Night": Balada emotiva que ganhou um clipe estrelado pelo renomado ator francês Denis Lavant e trouxe a participação especial da lenda do jazz Stanley Clarke no contrabaixo.

"Disappearing Act": Faixa atmosférica que aprofunda a faceta do folk psicodélico, combinando arranjos orquestrais cinematográficos, violões dedilhados e camadas harmoniosas de vocais.


Um Filme em Forma de Música

Para quem conhece Beck apenas pela energia urbana e irreverente de hits como "Devil's Haircut", "Loser" ou "The New Pollution", o capítulo final desta trilogia melancólica pode soar quase como uma MPB cantada em inglês.

No entanto, para os fãs que acompanham sua evolução e sabem ler nas entrelinhas, cada nuance do "divórcio narrado" em Ride Lonesome revela uma obra profunda e poética. É um disco para se ler como um livro e assistir como um filme — descobrindo e acolhendo as novas camadas de um dos compositores mais brilhantes da nossa geração.

Loquillo Panamá

Nômade agregador de ritmos musicais e fanático por shows. Está sempre correndo atrás de novidades para multiplicar e informar os amantes de boa música.

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