![]() |
| Foto: André Mello |
“Doguinho, vá ver esses moleques e me conta o
que você achou.”
Foi
mais ou menos assim que Claudia
Reitberger, minha primeira editora na Rock
Press, me apresentou à ZEFIRINA
BOMBA. Era 2006 e aqueles paraibanos estavam lançando “Noisecoregroovecocoenvenenado”, o primeiro álbum oficial da banda.
A doce e saudosa “chefinha” mandou o recado e eu fui cumprir a missão.
E
não foi apenas uma vez.
Vi
aqueles caras pelo menos três vezes seguidas, abrindo shows de Devotos (PE) – no Inferno Club, Restos
de Nada e Lixomania – no Hangar 110 e o Cólera – no Espaço Cultural Cidadão do
Mundo, em São Caetano do Sul (SP). E a primeira impressão foi, no mínimo,
curiosa.
A
formação tinha violão, baixo e bateria.
“Que porra é essa? Acústico?”
Aí
os caras começaram a tocar.
Meu
queixo caiu.
Aquela
porra não tinha absolutamente nada de acústica.
Era
barulho, velocidade, distorção, punk, hardcore e uma espécie de psicodelia
torta que, em alguns momentos, me remetia a Syd Barrett e ao Pink Floyd.
E ainda havia aquela figura estranha no centro do palco: um violão que parecia
ter sido arrancado de algum ferro-velho e transformado em arma sonora.
Hoje
eu sei que a história daquele instrumento começa antes mesmo da banda chegar a
São Paulo.
E é uma história que ajuda
a explicar o que é a Zefirina Bomba.
A
Zefirina Bomba surgiu em João Pessoa (PB), em 2003, justamente a partir de uma
vontade de experimentar.
A
ideia não era simplesmente montar mais uma banda de rock. Os caras queriam
descobrir o que aconteceria quando instrumentos pouco convencionais fossem
colocados dentro daquela equação. Berimbau, viola e outras possibilidades
entraram na brincadeira.
A
viola de dez cordas acabou ganhando protagonismo.
A
sonoridade aguda, áspera e estridente do instrumento chamava atenção dos
músicos, que enxergavam ali uma possibilidade de confrontar a estética
tradicional do rock e, ao mesmo tempo, estabelecer uma ligação direta com suas
raízes nordestinas.
Otacílio
Batista, Zé Ramalho e Jackson do Pandeiro estavam no imaginário.
Do
outro lado, havia referências como Vladimir Carvalho, Tom Zé, João Cabral de
Melo Neto, Lula Côrtes e Jaguaribe Carne.
Ou
seja: não era apenas fazer barulho por fazer.
Era
fazer barulho a partir de algum lugar.
E
havia uma insatisfação com aquele aparente sossego de João Pessoa. A vontade
era justamente romper a tranquilidade, provocar, experimentar e ver no que
aquilo ia dar.
Sem
dinheiro para comprar uma guitarra, a solução foi usar uma viola de dez cordas
que já estava em casa.
E
assim nasceu a Zefirina Bomba.
O
primeiro registro foi gravado em fevereiro de 2003 e, quase imediatamente,
começou a circular. Vieram convites para festivais, entre eles o MADA, em
Natal, e o interesse de gente como Carlos
Eduardo Miranda.
Só
que havia um pequeno detalhe técnico: a viola saturava rápido.
Os
shows, portanto, duravam cerca de quinze minutos.
Onze
músicas.
Quinze
minutos.
Caos
total.
E, sinceramente, não
consigo imaginar uma maneira mais Zefirina Bomba de começar uma carreira.
A
mudança para São Paulo, em 2005, trouxe algumas necessidades práticas. O
instrumento precisava aguentar mais porrada e permitir que os shows fossem um
pouco mais longos.
E
foi no centro de São Paulo, entre Anhangabaú e Praça dos Correios, que apareceu
a solução.
Uma
carcaça de Del Vecchio.
Só
a carcaça.
Sem
cordas, sem ponte, sem tarraxas. Um violão tradicional fabricado em São Paulo,
completamente detonado.
“Quanto é?”
“Cem reais.”
Não
dava.
“Tenho quarenta conto.”
“Vai… eu vendo.”
E
foi assim que Ilsom Barros saiu feliz
da vida carregando pelo centro de São Paulo aquele que se tornaria um dos
grandes símbolos da Zefirina Bomba.
O
violão estava todo fudido.
E
é justamente assim que a própria banda o apresenta até hoje, inclusive em sua
comunicação visual.
Mas
havia método naquela loucura.
O
instrumento recebeu cordas Canário e um captador, e Ilsom manteve a afinação
utilizada anteriormente na viola. Aquele Del Vecchio não era simplesmente um
substituto da guitarra que a banda nunca teve.
Era
a continuação da experiência.
Uma
espécie de gambiarra transformada em identidade.
E
funcionou.
Com
shows chegando aos trinta minutos, as portas começaram a se abrir. Vieram o MTV
Banda Antes, festivais como o Rec-Beat, o contrato com a Trama Virtual e uma
estrada que parecia não ter fim.
A
banda passou a cruzar o Brasil.
Foram
centenas de apresentações, quase sempre com aquela lógica independente de
colocar quatro pessoas, instrumentos, amplificadores e tudo o que fosse
necessário dentro de um carro e simplesmente cair na estrada.
Um
Uno chegou a rodar dezenas de milhares de quilômetros carregando praticamente
uma banda inteira.
E
quando a estrada brasileira já não parecia suficiente, veio a Europa.
Em
2011, a primeira turnê europeia.
Em
2014, o SXSW, em Austin, Texas.
Aquela experiência que
havia começado em João Pessoa com uma viola de dez cordas já tinha atravessado
fronteiras.
Foi
nesse processo que nossos caminhos se cruzaram.
Quando
vi a Zefirina Bomba pela primeira vez, em 2006, eu não conhecia toda essa
história. Eu só sabia que aqueles três caras estavam fazendo um barulho
inacreditável com uma formação que parecia não fazer sentido.
E
talvez justamente por isso funcionasse tão bem.
O
primeiro álbum oficial, “Noisecoregroovecocoenvenenado”,
era uma paulada.
Punk
rock e hardcore encontravam uma psicodelia que passava por Syd Barrett. A banda
chegou a tocar “Interstellar Overdrive”,
do Pink Floyd, e aquilo era um arregaço.
Também
aparecia Nirvana no repertório.
Mas
o que realmente importava eram as músicas da própria Zefirina.
“Vá
Se Foder”, “O Que Eu Não Fiz”, “TPM”, “HC”…
Pequenas
bombas.
Depois
veio “Nós Só Precisamos de 20 Minutos Pra
Rachar Sua Cabeça”, em 2010.
O título já avisava o que estava por vir e o
disco cumpria a promessa sem precisar pedir licença.
Uma
porrada certeira.
Depois
disso, por uma dessas cagadas da vida, deixei de acompanhar a banda com a mesma
proximidade.
Eis
que, anos depois, Ilsom reaparece nas redes sociais.
“Estamos com trampo novo, se liga.”
E
me manda “Trampo / 2026”.
Fui ouvir.
São
oito faixas.
Curtas.
Diretas.
Furiosas.
E,
principalmente, sem paciência.
A
abertura, “Culto da Desgraça”, já coloca as cartas na mesa. A música ataca
a associação entre Deus, pátria e família e expõe aquilo que a banda enxerga
como a mistura de religião, dinheiro, poder, cinismo e política.
Não
existe tentativa de esconder o alvo.
Na
sequência vem “Falsos Crentes de Merda”, ainda mais agressiva. A bateria vem
insana e o violão todo fudido faz exatamente aquilo que esperamos dele:
transforma madeira, cordas, captador e distorção em uma máquina de barulho.
A
letra mira a hipocrisia religiosa, a alienação e aqueles que entregam sua
consciência a líderes religiosos enquanto o dinheiro continua circulando por
trás do discurso de fé.
“Farsa”
segue pela mesma trilha.
Aqui,
a crítica está voltada para a transformação da religião em instrumento de poder
político. A máscara caiu, segundo a banda, e aquilo que antes podia ser
disfarçado já não faz questão de se esconder.
É
a Zefirina Bomba olhando para o chamado “evangelistão” e dizendo exatamente o
que pensa.
Sem
rodeios.
Sem
eufemismos.
Sem
preocupação em ser agradável.
“Rexista”,
“Vão
Morrer Pela Boca”, “Policial Fascista” e “Parasitas”
mantêm a pancada.
Os
títulos já entregam bastante coisa, mas o importante é que o som acompanha a
urgência do discurso.
Não
há espaço para grandes introduções ou construções intermináveis.
A
Zefirina aponta.
E
dispara.
A
última faixa, “Manipulação”, fecha o trabalho voltando a atenção para os meios
de comunicação, o dinheiro, a construção das notícias e a audiência transformada
em massa passiva.
É um encerramento coerente
para um trabalho que passa boa parte de seus poucos minutos questionando
estruturas de poder e as maneiras pelas quais elas moldam o comportamento das
pessoas.
O
curioso é que o próprio título do trabalho combina perfeitamente com a história
da banda.
Trampo.
Porque
sempre houve muito trabalho nessa história.
Começou
com uma viola de dez cordas porque não havia dinheiro para uma guitarra.
Passou
por um violão todo fudido comprado por quarenta contos.
Virou
estrada.
Virou
centenas de shows.
Virou
Brasil.
Virou
Europa.
Virou
SXSW.
E
continua virando música.
A
Zefirina Bomba mudou, evidentemente. A vida muda, as pessoas mudam, as
formações mudam, os equipamentos mudam.
Mas
algumas coisas permanecem.
A
vontade de experimentar.
A
independência.
A
mistura de referências.
A
ligação com a Paraíba.
E,
principalmente, a disposição de fazer barulho contra aquilo que incomoda.
Por
isso, ouvir “Trampo / 2026” depois de tanto tempo teve um sabor especial.
Eu
conheci aqueles “moleques” quando eles estavam apresentando seu primeiro disco
e ainda pareciam uma espécie de aberração sonora ambulante. Duas décadas
depois, Ilsom aparece novamente com a mesma disposição de mandar a mensagem sem
colocar açúcar.
E
isso é bonito.
Não
porque a Zefirina Bomba tenha ficado parada no tempo.
Muito
pelo contrário.
Ela atravessou o tempo sem
perder a capacidade de incomodar.
Depois
de ouvir o novo trabalho, conversei rapidamente com Ilsom e perguntei se havia
planos de lançar “Trampo / 2026” fisicamente.
A
ideia é colocar o material em um compacto.
Mas
não para por aí.
Em
novembro, a banda deve voltar ao estúdio para gravar outras músicas. A intenção
é juntar esse material e, posteriormente, lançar um novo CD.
Ou
seja: o trampo continua.
E,
sinceramente, que bom.
Porque
algumas bandas envelhecem.
Outras
simplesmente ficam mais experientes.
E
existem aquelas que, depois de mais de vinte anos, ainda entram em campo com a
mesma vontade de bagunçar tudo.
A
Zefirina Bomba pertence à terceira categoria.
O marasmo que se
foda.
A bomba continua
funcionando.
Por
ora, não deixem de visitar o Bandcamp da banda e ouvir essa cacetada: ZEFIRINA BOMBA - "TRAMPO / 2026" .
Tags
Zefirina Bomba








