Zefirina Bomba: 23 Anos fazendo barulho contra o marasmo

Foto: André Mello

Doguinho, vá ver esses moleques e me conta o que você achou.

Foi mais ou menos assim que Claudia Reitberger, minha primeira editora na Rock Press, me apresentou à ZEFIRINA BOMBA. Era 2006 e aqueles paraibanos estavam lançando “Noisecoregroovecocoenvenenado”, o primeiro álbum oficial da banda. A doce e saudosa “chefinha” mandou o recado e eu fui cumprir a missão.

E não foi apenas uma vez.

Vi aqueles caras pelo menos três vezes seguidas, abrindo shows de Devotos (PE) – no Inferno Club, Restos de Nada e Lixomania – no Hangar 110 e o Cólera – no Espaço Cultural Cidadão do Mundo, em São Caetano do Sul (SP). E a primeira impressão foi, no mínimo, curiosa.

A formação tinha violão, baixo e bateria.

Que porra é essa? Acústico?

Aí os caras começaram a tocar.

Meu queixo caiu.

Aquela porra não tinha absolutamente nada de acústica.

Era barulho, velocidade, distorção, punk, hardcore e uma espécie de psicodelia torta que, em alguns momentos, me remetia a Syd Barrett e ao Pink Floyd. E ainda havia aquela figura estranha no centro do palco: um violão que parecia ter sido arrancado de algum ferro-velho e transformado em arma sonora.

Hoje eu sei que a história daquele instrumento começa antes mesmo da banda chegar a São Paulo.

E é uma história que ajuda a explicar o que é a Zefirina Bomba.

Foto: Campo Grande - MS - Divulgação

A IDEIA ERA ACABAR COM O MARASMO

A Zefirina Bomba surgiu em João Pessoa (PB), em 2003, justamente a partir de uma vontade de experimentar.

A ideia não era simplesmente montar mais uma banda de rock. Os caras queriam descobrir o que aconteceria quando instrumentos pouco convencionais fossem colocados dentro daquela equação. Berimbau, viola e outras possibilidades entraram na brincadeira.

A viola de dez cordas acabou ganhando protagonismo.

A sonoridade aguda, áspera e estridente do instrumento chamava atenção dos músicos, que enxergavam ali uma possibilidade de confrontar a estética tradicional do rock e, ao mesmo tempo, estabelecer uma ligação direta com suas raízes nordestinas.

Otacílio Batista, Zé Ramalho e Jackson do Pandeiro estavam no imaginário.

Do outro lado, havia referências como Vladimir Carvalho, Tom Zé, João Cabral de Melo Neto, Lula Côrtes e Jaguaribe Carne.

Ou seja: não era apenas fazer barulho por fazer.

Era fazer barulho a partir de algum lugar.

E havia uma insatisfação com aquele aparente sossego de João Pessoa. A vontade era justamente romper a tranquilidade, provocar, experimentar e ver no que aquilo ia dar.

Sem dinheiro para comprar uma guitarra, a solução foi usar uma viola de dez cordas que já estava em casa.

E assim nasceu a Zefirina Bomba.

O primeiro registro foi gravado em fevereiro de 2003 e, quase imediatamente, começou a circular. Vieram convites para festivais, entre eles o MADA, em Natal, e o interesse de gente como Carlos Eduardo Miranda.

Só que havia um pequeno detalhe técnico: a viola saturava rápido.

Os shows, portanto, duravam cerca de quinze minutos.

Onze músicas.

Quinze minutos.

Caos total.

E, sinceramente, não consigo imaginar uma maneira mais Zefirina Bomba de começar uma carreira.

Foto: Festival DoSol 2012 - Ediiano Silva

DE UMA VIOLA A UM VIOLÃO TODO FUDIDO

A mudança para São Paulo, em 2005, trouxe algumas necessidades práticas. O instrumento precisava aguentar mais porrada e permitir que os shows fossem um pouco mais longos.

E foi no centro de São Paulo, entre Anhangabaú e Praça dos Correios, que apareceu a solução.

Uma carcaça de Del Vecchio.

Só a carcaça.

Sem cordas, sem ponte, sem tarraxas. Um violão tradicional fabricado em São Paulo, completamente detonado.

Quanto é?

Cem reais.

Não dava.

Tenho quarenta conto.

Vai… eu vendo.

E foi assim que Ilsom Barros saiu feliz da vida carregando pelo centro de São Paulo aquele que se tornaria um dos grandes símbolos da Zefirina Bomba.

O violão estava todo fudido.

E é justamente assim que a própria banda o apresenta até hoje, inclusive em sua comunicação visual.

Mas havia método naquela loucura.

O instrumento recebeu cordas Canário e um captador, e Ilsom manteve a afinação utilizada anteriormente na viola. Aquele Del Vecchio não era simplesmente um substituto da guitarra que a banda nunca teve.

Era a continuação da experiência.

Uma espécie de gambiarra transformada em identidade.

E funcionou.

Com shows chegando aos trinta minutos, as portas começaram a se abrir. Vieram o MTV Banda Antes, festivais como o Rec-Beat, o contrato com a Trama Virtual e uma estrada que parecia não ter fim.

A banda passou a cruzar o Brasil.

Foram centenas de apresentações, quase sempre com aquela lógica independente de colocar quatro pessoas, instrumentos, amplificadores e tudo o que fosse necessário dentro de um carro e simplesmente cair na estrada.

Um Uno chegou a rodar dezenas de milhares de quilômetros carregando praticamente uma banda inteira.

E quando a estrada brasileira já não parecia suficiente, veio a Europa.

Em 2011, a primeira turnê europeia.

Em 2014, o SXSW, em Austin, Texas.

Aquela experiência que havia começado em João Pessoa com uma viola de dez cordas já tinha atravessado fronteiras.

Um violão todo fudido

QUANDO EU CONHECI OS MOLEQUES

Foi nesse processo que nossos caminhos se cruzaram.

Quando vi a Zefirina Bomba pela primeira vez, em 2006, eu não conhecia toda essa história. Eu só sabia que aqueles três caras estavam fazendo um barulho inacreditável com uma formação que parecia não fazer sentido.

E talvez justamente por isso funcionasse tão bem.

O primeiro álbum oficial, “Noisecoregroovecocoenvenenado”, era uma paulada.

Punk rock e hardcore encontravam uma psicodelia que passava por Syd Barrett. A banda chegou a tocar “Interstellar Overdrive”, do Pink Floyd, e aquilo era um arregaço.

Também aparecia Nirvana no repertório.

Mas o que realmente importava eram as músicas da própria Zefirina.

“Vá Se Foder”, “O Que Eu Não Fiz”, “TPM”, “HC”…

Pequenas bombas.

Depois veio “Nós Só Precisamos de 20 Minutos Pra Rachar Sua Cabeça”, em 2010.

O título já avisava o que estava por vir e o disco cumpria a promessa sem precisar pedir licença.

Uma porrada certeira.

Depois disso, por uma dessas cagadas da vida, deixei de acompanhar a banda com a mesma proximidade.

Eis que, anos depois, Ilsom reaparece nas redes sociais.

Estamos com trampo novo, se liga.

E me manda “Trampo / 2026”.

Fui ouvir.


O TRAMPO

São oito faixas.

Curtas.

Diretas.

Furiosas.

E, principalmente, sem paciência.

A abertura, “Culto da Desgraça”, já coloca as cartas na mesa. A música ataca a associação entre Deus, pátria e família e expõe aquilo que a banda enxerga como a mistura de religião, dinheiro, poder, cinismo e política.

Não existe tentativa de esconder o alvo.

Na sequência vem “Falsos Crentes de Merda”, ainda mais agressiva. A bateria vem insana e o violão todo fudido faz exatamente aquilo que esperamos dele: transforma madeira, cordas, captador e distorção em uma máquina de barulho.

A letra mira a hipocrisia religiosa, a alienação e aqueles que entregam sua consciência a líderes religiosos enquanto o dinheiro continua circulando por trás do discurso de fé.

Farsa” segue pela mesma trilha.

Aqui, a crítica está voltada para a transformação da religião em instrumento de poder político. A máscara caiu, segundo a banda, e aquilo que antes podia ser disfarçado já não faz questão de se esconder.

É a Zefirina Bomba olhando para o chamado “evangelistão” e dizendo exatamente o que pensa.

Sem rodeios.

Sem eufemismos.

Sem preocupação em ser agradável.

Rexista”, “Vão Morrer Pela Boca”, “Policial Fascista” e “Parasitas” mantêm a pancada.

Os títulos já entregam bastante coisa, mas o importante é que o som acompanha a urgência do discurso.

Não há espaço para grandes introduções ou construções intermináveis.

A Zefirina aponta.

E dispara.

A última faixa, “Manipulação”, fecha o trabalho voltando a atenção para os meios de comunicação, o dinheiro, a construção das notícias e a audiência transformada em massa passiva.

É um encerramento coerente para um trabalho que passa boa parte de seus poucos minutos questionando estruturas de poder e as maneiras pelas quais elas moldam o comportamento das pessoas.

Capa do "Trampo / 2026"

TRAMPO É TRAMPO

O curioso é que o próprio título do trabalho combina perfeitamente com a história da banda.

Trampo.

Porque sempre houve muito trabalho nessa história.

Começou com uma viola de dez cordas porque não havia dinheiro para uma guitarra.

Passou por um violão todo fudido comprado por quarenta contos.

Virou estrada.

Virou centenas de shows.

Virou Brasil.

Virou Europa.

Virou SXSW.

E continua virando música.

A Zefirina Bomba mudou, evidentemente. A vida muda, as pessoas mudam, as formações mudam, os equipamentos mudam.

Mas algumas coisas permanecem.

A vontade de experimentar.

A independência.

A mistura de referências.

A ligação com a Paraíba.

E, principalmente, a disposição de fazer barulho contra aquilo que incomoda.

Por isso, ouvir “Trampo / 2026” depois de tanto tempo teve um sabor especial.

Eu conheci aqueles “moleques” quando eles estavam apresentando seu primeiro disco e ainda pareciam uma espécie de aberração sonora ambulante. Duas décadas depois, Ilsom aparece novamente com a mesma disposição de mandar a mensagem sem colocar açúcar.

E isso é bonito.

Não porque a Zefirina Bomba tenha ficado parada no tempo.

Muito pelo contrário.

Ela atravessou o tempo sem perder a capacidade de incomodar.

Foto: Circo Voador / 2013 - Divulgação

E O TRABALHO CONTINUA

Depois de ouvir o novo trabalho, conversei rapidamente com Ilsom e perguntei se havia planos de lançar “Trampo / 2026” fisicamente.

A ideia é colocar o material em um compacto.

Mas não para por aí.

Em novembro, a banda deve voltar ao estúdio para gravar outras músicas. A intenção é juntar esse material e, posteriormente, lançar um novo CD.

Ou seja: o trampo continua.

E, sinceramente, que bom.

Porque algumas bandas envelhecem.

Outras simplesmente ficam mais experientes.

E existem aquelas que, depois de mais de vinte anos, ainda entram em campo com a mesma vontade de bagunçar tudo.

A Zefirina Bomba pertence à terceira categoria.

O marasmo que se foda.

A bomba continua funcionando.

Por ora, não deixem de visitar o Bandcamp da banda e ouvir essa cacetada: ZEFIRINA BOMBA - "TRAMPO / 2026" .

Foto: Festival B.E.R.R.O. - Rafael Passos


Ricardo Cachorrão

Ricardo “Cachorrão” é o velho chato gente boa que não pede licença pra gostar de música. Viciado em rock and roll, formou opinião longe de rádio, longe de MTV e perto demais de pilhas de discos e revistas. Tem alergia a banda cover, respeito profundo por discos obscuros do Frank Zappa e ainda sai sorrindo de um show do Iron Maiden — mas é no calor, no barulho e no caos dos buracos punk da periferia que se sente vivo de verdade. Já escreveu para Rock Brigade, Kiss FM, Portal Rock Press e a Revista Eletrônica do Conservatório Souza Lima. Está no Rock On Board desde o começo — e não pretende sair tão cedo.

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