Black Pantera transforma o Brasil em som e fúria no grandioso “Continental”


Black Pantera
Continental
⭐⭐5/5
Por  Ricardo Cachorrão Flávio 

O Black Pantera chegou a um ponto da carreira em que não precisa mais provar que é uma grande banda. Depois de "Ascensão" (2022) consolidar sua identidade e "Perpétuo" (2024) ampliar seus horizontes, chega Continental, quinto álbum de estúdio do trio mineiro formado por Chaene da Gama (baixo e vocal), Charles Gama (vocal e guitarra) e Rodrigo “Pancho” Augusto (bateria). E se existe uma palavra capaz de resumir o disco, ela é exatamente a escolhida para batizá-lo: continental.

Não apenas pelo tamanho do Brasil, mas pelos vários Brasis que cabem dentro dele. Pelas diferenças, pelas contradições, pela ancestralidade, pela violência, pela cultura, pela resistência e pela capacidade de transformar tudo isso em música. O Black Pantera amplia seu território sem abandonar aquilo que o trouxe até aqui. E o resultado é um disco pesado, suingado, melódico quando precisa ser e, acima de tudo, furioso.


Continental”, a faixa que abre o álbum, é um verdadeiro arregaço. Rodrigo Pancho simplesmente destrói a bateria logo de cara, Charles canta nervoso e a banda inteira parece estar em estado de alerta. É uma música de afirmação da América do Sul, com a participação do professor e pensador Milton Santos reforçando a dimensão geopolítica da faixa. Mas o discurso não diminui o peso. Pelo contrário: a banda está furiosa.

ELES NÃO SÃO O MUNDO!”

O refrão é simples, direto e tem tudo para virar um daqueles momentos gigantes nos shows. O Black Pantera não está apenas falando sobre um continente: está questionando quem determina o que é o mundo e quem tem o direito de ocupar seu centro.

Serotonina” mantém a temperatura elevada. Os irmãos dividem os vocais e a participação de Duquesa amplia ainda mais o alcance musical da banda. “Poucas palavras… não vou gastar meu alfabeto com um vacilão” é apenas uma das frases que mostram o tom de confronto da faixa. A cozinha é avassaladora: o groove de Chaene e a pancada de Pancho formam a cama perfeita para a guitarra e o gutural de Charles. A presença de Duquesa não parece um corpo estranho colocado ali para cumprir a cartilha das participações especiais. Ela pertence à música.


“Hórus”, já conhecida por ter sido lançada como single e clipe, traz uma abordagem ainda mais pessoal para a questão racial. “Todos os olhos em mim” funciona como refrão e também como síntese de uma experiência: o negro que sabe que está sendo observado, julgado e cobrado o tempo inteiro.

A música fala de fé, sincretismo e proteção - "Em  nome do Pai, do Filho e do Preto Santo / Amém, Axé” - mas também do cotidiano. Não usar chinelo no shopping, não correr sem camisa, saber que o segurança, mesmo negro, está observando. O peso dos erros multiplicado. A sensação permanente de estar sob vigilância. É uma das grandes qualidades do Black Pantera: transformar uma discussão social ampla em experiências que podem ser reconhecidas na vida real.

“Quando Canto” muda novamente o ambiente. A música começa com uma batida afro e um canto que remete ao soul, ao gospel e aos spirituals, com Sandra Sá dividindo os vocais com Chaene. Aos poucos, Charles entra com sua voz rasgada e o andamento ganha intensidade.

Quanto canto somos a mãe de milhares que vieram antes de nós… e nós estamos aqui.

A ancestralidade aparece aqui não como algo congelado no passado, mas como força presente. Sandra Sá, uma artista de outra geração, e o Black Pantera estabelecem uma ponte que combina perfeitamente com a proposta do álbum: diferentes tempos, diferentes linguagens, diferentes Brasis.


“Velho Jeans Rasgado” chega com um grito de guerra - "Hey! Hey! Hey! Hey! Hey!” - e uma batida animada. A música cresce progressivamente, aumentando intensidade, velocidade e barulho. É outra demonstração de que a banda aprendeu a trabalhar o peso sem depender apenas da velocidade ou da distorção.

“Negusa Nagast” começa com tambores e um baixo pesado. Logo a guitarra de Charles entra e, em determinados momentos, a lembrança de Sepultura é inevitável. Chaene assume o vocal principal e imprime à música um suingue diferente. “Deixe a gira girar que ela vai te guiar pro que for melhor” conduz uma faixa que termina praticamente transformando o próprio Black Pantera em manifesto: “Rock Preto universal! Rock Preto Universoul!

Então chega “Start the Game”, primeiro single de Continental, e o álbum entra no universo dos videogames para falar da vida real. Polarização, manipulação, violência, jogos de poder e uma humanidade que parece ter transformado o próprio mundo em uma partida.

Fim do mundo é só uma fase / Final boss é a humanidade.

A sacada funciona porque não fica apenas na brincadeira com a linguagem gamer. O videogame vira metáfora para uma realidade em que existem cartas marcadas, vidas usadas, manipulação e violência transformada em espetáculo.

E então o Black Pantera simplesmente pisa no acelerador.

“Obsoleto” tem apenas 1:42. É um hardcore alucinado, uma porrada na cara, sem tempo para respirar. W.P.P.” - White People Problem - também não amacia. É outra cacetada na moleira e dedo direto na ferida. A banda não demonstra qualquer interesse em suavizar o discurso para torná-lo mais confortável.



E chega “Banzo”.

Aqui, para mim, está uma das grandes faixas de Continental - e minha preferida do álbum. A música começa com uma batida tribal e a presença de Chico César imediatamente dá outra dimensão à faixa. Sua voz encontra a de Chaene em um dueto poderoso. Depois de pouco mais de um minuto, entra uma guitarra distorcida, mas contida, e Charles também passa a participar dos vocais.

Criança não tem que ter medo de ser feliz / eles não entendem a nossa raiva / eles não conhecem a nossa dor / não viveriam um dia nossas vidas / só vivem para manter o status quo.

É uma música bonita, mas sua beleza não está separada da dor. “Banzo” carrega memória, raiva e resistência. E a participação de Chico César não parece apenas uma homenagem a um grande artista brasileiro: seu sotaque paraibano encontra o sotaque mineiro do Black Pantera e materializa, dentro da própria música, essa ideia de um Brasil formado por diferentes regiões e experiências.


“Yasuke” já começa alucinante. Pancho deve ter terminado as sessões de gravação muito mais magro e musculoso, porque o que esse menino bate nas peles não está escrito. Chaene assume novamente o vocal principal, trazendo mais suingue à música. Quando Charles entra, a coisa ganha outra camada de visceralidade. É uma combinação que mostra como os irmãos conseguem alternar funções sem que a identidade da banda se perca.

“Sic Mundus” vem na sequência e é, talvez, uma das músicas que melhor resume o Black Pantera que chegou até aqui. A banda criou casca. Tem DNA próprio. A gente reconhece o Black Pantera em poucos acordes. Há peso em todas as músicas, mas também há suingue, melodia e uma bateria que não deixa o corpo ficar parado. A evolução da banda não significou abandonar sua essência. Significou aprender até onde essa essência pode chegar.

E o disco termina com “Punhos Cerrados”, quase um hino de guerra.

Ergam seus braços, punhos cerrados!

Depois de percorrer geopolítica, ancestralidade, racismo, identidade, videogames, violência, memória e resistência, o Black Pantera termina convocando o ouvinte para a ação. Não é um final contemplativo. É um punho levantado.


Continental é um disco enorme porque fala de um país enorme, mas também porque mostra uma banda que cresceu sem deixar de ser aquilo que sempre foi. O Black Pantera encontrou seu próprio DNA e agora consegue colocar dentro dele soul, gospel, rap, ritmos afro-brasileiros, hardcore, metal, groove e diferentes sotaques sem parecer perdido em nenhuma dessas possibilidades.

As participações de Sandra Sá, Duquesa, Chico César e Derrick Green ajudam a ampliar esse universo, mas não roubam o protagonismo do trio. Pelo contrário: cada convidado parece encontrar um espaço natural dentro daquilo que a banda já construiu. E talvez esse seja o maior mérito de Continental: o Black Pantera ficou maior sem ficar distante.

É uma banda que toca em estádios e em botecos com a mesma desenvoltura. Que está na banquinha do merchandising, que não recusa uma foto, que responde às pessoas e faz questão de lembrar de onde veio. Existe uma coerência rara entre o discurso e a atitude. Os caras fizeram por merecer o tamanho que alcançaram.

Continental é mais um disco importante na trajetória do Black Pantera. Tem qualidade, tem personalidade, tem peso, tem suingue e, principalmente, tem uma mensagem direta e necessária. E se o Brasil é continental, o Black Pantera também parece ter descoberto que não existe limite para onde pode chegar.

O certo é que será bem alto.

Foto: Hugo Brito

Ricardo Cachorrão

Ricardo “Cachorrão” é o velho chato gente boa que não pede licença pra gostar de música. Viciado em rock and roll, formou opinião longe de rádio, longe de MTV e perto demais de pilhas de discos e revistas. Tem alergia a banda cover, respeito profundo por discos obscuros do Frank Zappa e ainda sai sorrindo de um show do Iron Maiden — mas é no calor, no barulho e no caos dos buracos punk da periferia que se sente vivo de verdade. Já escreveu para Rock Brigade, Kiss FM, Portal Rock Press e a Revista Eletrônica do Conservatório Souza Lima. Está no Rock On Board desde o começo — e não pretende sair tão cedo.

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