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| Foto: Divulgação |
Há
tempos não via uma banda instrumental despertar tanto entusiasmo quanto o duo
canadense Angine de Poitrine. Bastou uma apresentação no KEXP para que a
internet começasse a falar em “o futuro do rock”, “a grande novidade da música
instrumental” e até “os novos gênios da música”.
Confesso
que fui ouvir Angine de Poitrine Vol. 1 esperando encontrar algo realmente
transformador.
Encontrei
uma banda interessante.
A proposta é diferente. A
sonoridade também. A guitarra e o baixo microtonais fogem completamente do
lugar-comum, a conversa entre guitarra e bateria é precisa, as máscaras ajudam
a construir uma identidade visual marcante e o mistério em torno dos músicos
certamente aumenta o fascínio.
Até
aí, tudo funciona.
O
problema começa quando termina a primeira faixa.
E
continua na segunda.
Na
terceira.
Na
quarta…
Ao final das seis músicas
de Vol. 1, a sensação era de ainda estar ouvindo a primeira.
Não
porque sejam ruins. Pelo contrário. Os músicos demonstram competência e sabem
exatamente o que pretendem fazer. Mas a impressão é que encontraram uma ideia
muito boa e decidiram explorá-la durante o disco inteiro, sem que cada faixa
desenvolva uma personalidade própria.
Talvez
a microtonalidade seja justamente o elemento que levou tanta gente a tratar o
duo como uma revolução. É diferente, chama atenção e desperta curiosidade. Mas
inovação técnica, por si só, não transforma um álbum em obra-prima.
Existe
uma diferença importante entre criar uma linguagem e escrever grandes músicas.
A
história do rock está cheia de artistas que mudaram a forma de tocar um
instrumento, inventaram novas sonoridades ou romperam padrões. Mas permaneceram
relevantes porque, além da novidade, entregavam composições memoráveis.
No
caso de Vol. 1, a novidade acaba carregando um peso grande demais. Depois que o
ouvido se acostuma ao timbre e à proposta, sobra um álbum que, para mim, se
torna excessivamente repetitivo.
Como
a banda acaba de lançar Vol. 2, resolvi dar a ela o benefício da dúvida.
Imaginei encontrar uma evolução natural, novas ideias, novos caminhos.
Há
novidades.
As
vocalizações aparecem, mas não como um vocal tradicional. São processadas,
carregadas de efeitos e incorporadas à massa sonora como mais um instrumento,
exatamente como a guitarra e o baixo microtonais. A escolha mantém a coerência
estética do duo e preserva o anonimato de seus integrantes.
A
proposta continua interessante.
O
problema, para mim, também.
Ao final dos dois álbuns,
doze faixas depois, a impressão é a mesma: parece que ouvi uma única música
durante todo esse tempo.
Longe
disso.
É
uma banda diferente.
Tem
personalidade.
Tem
identidade.
Tem
uma proposta artística consistente.
Mas ainda não vejo motivos
para colocá-la no pedestal onde parte da crítica já a instalou.
Vivemos
uma época em que cada nova descoberta precisa ser apresentada como “a salvação
do rock”. A velocidade da internet transformou qualquer lançamento promissor em
candidato imediato ao status de clássico.
A
história da música, porém, costuma ser bem menos apressada.
Bandas
verdadeiramente influentes não precisam ser proclamadas revolucionárias na
semana em que um vídeo viraliza. O tempo faz esse trabalho muito melhor do que
qualquer manchete.
Angine
de Poitrine merece ser ouvida justamente por ser diferente.
Encontrou
uma linguagem própria muito cedo. Isso é um mérito.
Agora
falta transformar essa linguagem em composições que surpreendam tanto quanto a
ideia que lhes deu origem.
Se será lembrada como uma
das grandes bandas desta geração ou apenas como uma curiosa experiência sonora,
isso ninguém pode afirmar agora.
Banda
diferente? Sim.
Som
diferenciado? Sem dúvida.
Inovadora?
Talvez.
A
salvação da música? Nem de longe.
Cansativa? Demais.
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Angine de Poitrine


