O metal sempre foi um gênero de resistência, mas por décadas essa resistência foi majoritariamente representada por vozes e rostos masculinos. No entanto, quem percorreu o Memorial da América Latina durante o último final de semana percebeu que algo mudou. O Bangers Open Air 2026 ficará marcado na história como o festival em que o protagonismo feminino não foi apenas um detalhe, mas a força motriz de alguns dos momentos mais memoráveis de todo o evento.
Sábado: O Domínio das Vertentes e o Peso da Autoridade
O primeiro dia do festival já deixou claro que a diversidade de estilos seria acompanhada por uma forte presença feminina. O público pôde testemunhar desde o doom rock magnético de Johanna Sadonis, à frente do Lucifer, até a agressividade técnica e visceral de bandas nacionais que hoje são referência mundial.
A Crypta e o Torture Squad provaram que o metal extremo brasileiro está em excelentes mãos, entregando performances de uma precisão técnica que poucas bandas no mundo conseguem alcançar. Enquanto isso, o Jinjer trouxe a versatilidade impressionante de Tatiana Shmayluk, que transita entre o gutural e o melódico com uma facilidade assombrosa. E o que falar da estreante Lauren Hart, que ganhou os holofotes como a nova vocalista do Arch Enemy.
Outro grande destaque nesta mesma linha foi o Seven Spires, com performance impressionante de Adrienne Cowan. Até mesmo em propostas mais festivas e performáticas, como o Feuerschwanz, a presença de musicistas talentosas reforçou que o espaço para as mulheres no metal é, hoje, irrestrito e soberano.
Domingo: Carisma, Técnica e a Consagração no Palco
Se o sábado foi sobre peso e autoridade, o domingo trouxe uma combinação de técnica refinada, carisma e apresentações hipnotizantes. Logo cedo, o público foi surpreendido pela performance avassaladora de Thalìa Bellazecca no Primal Fear. Como uma guitarrista negra brilhando em uma tradicional banda alemã de Power Metal, Thalìa não apenas executou solos perfeitos, mas roubou a cena com uma presença de palco que se tornou um dos assuntos mais comentados de todo o festival.
Não podemos deixar de falar também do metal sinfônico e aventureiro do Visions of Atlantis, liderado pela voz cristalina de Clémentine Delauney, e a energia direta da banda Malvada, que reafirmou a força do rock cantado em português. O encerramento não poderia ser mais emblemático: o Within Temptation, comandado pela icônica Sharon den Adel, entregou um espetáculo que une elegância e potência, coroando um final de semana onde as mulheres foram as grandes protagonistas.
Uma Evolução que não tem Volta
Ver tantas bandas com integrantes femininas em destaque, ocupando horários nobres e palcos principais, é o reflexo de um mercado que finalmente entendeu que o talento independe de gênero. Mais do que "cotas" ou representatividade simbólica, o que se viu no Bangers Open Air foi uma entrega artística de altíssimo nível.
Essas mulheres não estavam lá apenas ocupando um espaço; elas estavam liderando, inovando e inspirando uma nova geração de fãs e musicistas que olham para o palco e se enxergam no futuro do metal. O festival termina com a certeza de que o gênero está mais rico, mais diverso e, acima de tudo, mais forte. O metal é, e deve ser, para todos — mas em 2026, ele teve, orgulhosamente, o rosto e a voz delas.
