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| Foto: Divulgação |
Entre
o existencial e a crítica social, a estreia dos Fantasmas de Plutão mostra que
o pós-punk ainda tem o que dizer.
O
nome surgiu quase por acaso. Paulo da Costa queria algo que misturasse astronomia
e sobrenatural. Um amigo sugeriu. Ficou. Mas se o batismo foi despretensioso, o
conteúdo está longe de ser.
"Mentiras
Sinceras" é um disco coeso, calcado no pós-punk, que equilibra conflito interno
e crítica social sem soar panfletário ou refém de nostalgia. Há referências
claras, mas há personalidade.
“Atrás
das Estrelas” abre o trabalho com violões atmosféricos que remetem à fase mais
recente do New Model Army, especialmente o clima de "Winter". Quando a bateria
entra com marcação quase marcial, a música ganha direção. Guitarras que evocam
The Mission e a fase mais encorpada do T.S.O.L. sustentam versos sobre
autoconhecimento. O disco começa olhando para dentro.
“O
Fracasso” eleva a tensão e não recua. Baixo em evidência, bateria pesada e
guitarras firmes criam um ambiente que remete ao peso rítmico do Joy Division,
mas com mais corpo e solos marcantes. É a faixa mais sólida do álbum —
intensidade contínua, sem concessões.
“Sociedade
Demoníaca” é ataque direto: riff forte, vocal com efeitos e crueza que lembra
Iggy & The Stooges. Curta, nervosa e eficaz.
Então
vem “Vai Brasil”, pesada e densa, com potencial de ecoar além do nicho. O
refrão soa como grito coletivo, mas a ironia é evidente: “levanta essa taça dos
sofredores”. A crítica ao espetáculo nacional e à ilusão de ascensão pelo
consumo é frontal. Aqui, o disco amplia o foco e encara o país sem
romantização.
“(Des)evolução”
reforça o desencanto: batida seca, guitarras sujas e versos que apontam para um
mundo que não evoluiu como prometido. A insistência rítmica funciona como
martelo.
“Farrapos
Humanos” mergulha novamente no íntimo. A repetição de “não sei dizer o que eu
sinto” traduz bloqueio emocional, resolvido em um refrão que explode em
entrega. É um dos momentos mais humanos do trabalho.
“Pintando
o Mundo” amplia as referências. O instrumental flerta com Depeche Mode,
enquanto o vocal e as guitarras remetem ao rock brasileiro oitentista de Legião
Urbana e Uns e Outros. A base rítmica mantém a unidade do disco.
O
encerramento com “Um Deserto” sintetiza a proposta: guitarra ruidosa, vocal que
cresce aos poucos, bateria seca e cozinha coesa. Sem exibicionismo, apenas
consistência.
No
conjunto, "Mentiras Sinceras" não reinventa o pós-punk — e nem precisa. Entende
suas raízes, evita caricaturas e entrega conteúdo num cenário onde muita banda
prefere estética vazia a discurso consistente.
Em
tempos de pose e algoritmos, "Mentiras Sinceras" escolhe peso e conteúdo. Não é
revival decorativo, é assimilação com propósito. Se “Vai Brasil” tem cara de
hino, “O Fracasso” tem cara de verdade. E verdade, quando bem dita, nunca é
confortável.
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Fantasmas de Plutão



Sensacional , escutei e adorei
ResponderExcluirAí sim!
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