Deftones
Private Music
⭐⭐⭐⭐⭐5/5
Por Lucas Scaliza
Esse grupo fez o que achei que não seria mais possível. Depois de Ohms (2020), que foi um disco excelente, não imaginava que o Deftones conseguiria subir mais um degrau na carreira. São 30 anos de estrada desde Adrenaline, passaram pela morte do baixista Chi Cheng, uma pandemia e uma "ordem global" que fez o guitarrista Stephen Carpenter não mais acompanhar a banda fora dos EUA. Mas private music é um novo clássico na discografia dessa banda, pra ficar ao lado de White Pony (2000) e de qualquer outro que sua opinião pessoal acreditar que mereça um lugar no pódio deftoniano.
Cada música é um pequeno novo acontecimento. É fácil identificar os elementos característicos dos Deftones - e eles estão por toda parte. Aliás, nesses 30 anos, uma grande quantidade de outras bandas imergiram no som dos californianos e regurgitaram essa influência de maneira descarada e declarada. Mas também são constantes os momentos em que a banda soa renovada e refrescante.
Private Music é um álbum feito para ser ouvido do começo ao fim. Uma faixa flui para a outra. Mesmo que não sejam parte da mesma história, habitam o mesmo universo. Faixas que são verdadeiras bangers como "cXz" e "milk of the madonna" avizinham faixas como "i think about you all the time", uma valsa bonita e poderosa que não é algo que se vê em todo disco da banda, e "infinite source", que sabe ser experimental dentro de uma estrutura fácil de acompanhar.
As letras são todas de Chino Moreno, o vocalista e guitarrista. Elas continuam sendo criadas apenas depois que a música já está pronta. Todas as composições do álbum são creditadas a todos os membros, inclusive a Fred Sablan, o baixista que acompanha a banda desde 2021, mas não é um membro oficial. A produção ficou com Nick Raskulineckz, que já tinha sido responsável por Diamond Eyes (2010) e Koi No Yokan (2012), os dois discos lançados em meio ao coma de Cheng, baixista original que faleceu em 2013.
Depois de passar pela experiência de private music, várias faixas do catálogo da banda agora soam conservadoras. É estranho e engraçado pensar nisso. Esse é o poder do décimo disco de uma banda com 30 anos: a partir dele, é possível ouvir o material pregresso com outros ouvidos, procurando elementos que não sabíamos que um dia o grupo iria entregar.
Sei que o parágrafo anterior propôs um exercício safado de anacronia. Mas é o tipo de exercício que, se feito, nos faz perceber com mais clareza onde, como e quando a banda ampliou seus limites ou mudou. Só talvez não saibamos o por quê. Será a maturidade dos integrantes? Um vigor renovado em trabalharem juntos que não existiu nos dois álbuns anteriores? Uma vontade de tentar coisas novas organicamente? O processo de composição que se deu ao longo de muito tempo, com vários dias de pausa entre a criação de uma música e outra, mas só começavam a criar cada faixa quando todos estavam juntos e tocando?
A verdade é que private music é como é porque não se esquece das canções. Entre partes mais groovadas, mais metaleiras e experimentais, as faixas estão todas construídas coerentemente, não se perdem em excessos e os músicos não competem por atenção. E aí o Deftones soa urbano ("cut hands"), onírico ("~metal dream", obviamente), atmosférico ("departing the body"), furioso e também sexy de certa forma. Tudo isso manifestado em texturas e dinâmicas que vão se alternando, se somando, mantendo a audição sempre interessante.
O maior intervalo nos deu o melhor álbum dos últimos 25 anos da banda. private music não vai tornar o grupo mais digerível e nem responder se essa banda é mais nu metal ou mais shoegaze (uma das discussões menos produtivas sobre o Deftones), mas vai ampliar ainda mais toda a força e influência de seu som, tornando esses alternativos californianos mais relevantes do que nunca.


