quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Robert Plant segue inabalável em 'Carry Fire' e justifica caminho anti-Zeppelin

Aos 69 anos, Plant não se acomoda e mostra ter muito ainda a oferecer 
Por Bruno Eduardo

Robert Plant tem uma longa e variada história na música. Mas seu tempo gasto como vocalista do Led Zeppelin fez dele um ícone de rock inquestionável. Desde o fim do Zeppelin, Plant passou sua carreira solo desafiando esse rótulo e explorando diferentes sons e estilos. Foi uma longa jornada tentando se desvencilhar de um caminho provável, que dava sempre de volta ao passado. O tamanho de seu desafio pode ser medido por uma reputação sustentada numa das maiores bandas de rock que já pisaram neste planeta. Trocar as engrenagens e se separar de um gênero que o manteve no estrelato por mais de uma década não deve ter sido uma das tarefas mais fáceis. 

Aos 69 anos de idade, Robert Plant não quer mais saber de hinos prontos para estádios, e na mesma proporção que nega convites para uma suposta volta do Led Zeppelin, o cantor segue disseminando sua arte com novas criações, refletindo todos lugares onde esteve escondido esses anos, e ruminando sobre o que viu e sentiu por onde passou. Como músico de renome que é, Plant possui acesso a recursos e especialistas musicais incríveis, e reflete isso de forma brilhante em seu décimo-primeiro disco de estúdio, 'Carry Fire'. Acompanhado da ótima Sensational Space Shifters, ele quebra o molde da música rock, ou mesmo da música folk rock, usando um conjunto diversificado de instrumentos e incorporando alguns acentos eletrônicos sempre refogados por sua habilidade vocal.

Embora seu novo disco aparentemente siga a mesma fórmula de 'Lullaby And The Ceaseless Roar' (2014), Robert Plant mostra que sua música está sempre em mudança profunda, experimentando e mantendo uma arte baseada na sua própria ciência. 'Carry Fire' tem as mesmas pitadas do Oriente Médio que Plant adora, trazidas por instrumentos da região, além de alguns tons jazzísticos e uma vibração genericamente terrena e descontraída. Mas ainda assim pode-se ser chamado de um grande álbum de rock.


Da mesma forma que se afasta do rock trovejante do Led Zeppelin, ele mistura o antigo com o novo de forma peculiar e homenageia o passado com o devido cuidado de quem não quer se tornar caricato. Repare no título da canção que abre o disco. "The May Queen" é uma clara referência ao hino "Stairway To Heaven". E o que dizer da versão grandiosa para "Bluebirds Over the Mountain" que foi originalmente composto por Ersel Hickey, e que também ganhou roupagens de gente classuda como Ritchie Valens e The Beach Boys. E aqui, ainda conta com a contribuição de Chrissie Hynde do The Pretenders, tornando-se ainda mais especial e nostálgica.

No decorrer de todo o trabalho, podemos encontrar inserções sonoras que remetem sempre a alguma origem marcante, mas que parecem ser levemente quebradas pela forma que Plant conduz as canções. Você nota um clima bluesy na maior parte do trabalho, mas também linhas de baixo nervoso e acentos percussivos angustiantes. Uma das melhores é "Bones of Saints", uma canção típica do rock proposto por Plant, com tom esfumaçado em meio a sintonizações estrondosas de ritmo, melodia e vozes combinadas. 
O álbum também inclui alguns comentários políticos, especificamente nas faixas "Carving Up the World Again ... A Wall and Not a Fencee "New World" - que aludem questões datadas, como nacionalismo, e outras mais atuais ao falar de refugiados e imigração.


'Carry Fire' é moderno, expressivo e musicalmente brilhante. E não deve ser visto apenas como mais uma adição perfeita ao catálogo da Plant. Esse disco justifica cada negativa por uma nova reunião com o Led Zeppelin. Afinal, Plant quer continuar sendo essencial nos tempos atuais da mesma forma que foi nos anos sessenta e setenta. E mesmo que não tenha mais os hinos para as multidões, ele dá exemplo de como criar e recriar sua arte de forma autêntica e honesta. E continua sendo inabalável - tanto na posição de artista contemporâneo quanto na imagem de lenda do rock.

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