terça-feira, 3 de outubro de 2017

R.E.M + King Crimson + Sleater-Kinney: supergrupo Filthy Friends lança um dos melhores discos do ano

Filthy Friends traz Peter Buck, Corin tucker e Bill Rieflin em sua formação
FILTHY FRIENDS
"Invitation"
KRS; 2017
Por Luciano Cirne


O rock este ano está se caracterizando por um fenômeno no mínimo pitoresco: Já repararam em quantas resenhas de CDs envolvendo supergrupos tivemos até agora aqui? Primeiro comentamos sobre o Crystal Fairy, depois o Dead Cross e agora a bola da vez é o Filthy Friends, que há muito já vinha causando um murmurinho na imprensa musical por ter em seu lineup nada mais nada menos que Peter Buck (guitarrista do R.E.M.), Corin Tucker (a bela - ainda que a idade esteja começando a pesar - vocalista e guitarrista do Sleater-Kinney) e Bill Rieflin (baterista do King Crimson), além de a notória figura do underground Kurt Bloch (que além de tocar guitarra no cultuado Fastbacks, já produziu um sem número de álbuns). 

A princípio Corin e Peter uniram-se para fazer covers do David Bowie como uma homenagem póstuma e, posteriormente, para protestar contra a candidatura do Donald Trump, mas como a química entre eles fluiu ainda melhor que o esperado, a criatividade fluiu e surgiu a necessidade de recrutar mais gente para fazer com que esse projeto tomasse forma.

Falando na campanha contra o Trump, é exatamente "Despierta", a canção composta e lançada como single às vésperas da eleição presidencial americana (e cuja letra diz "se segurar ao passado não vai fazer com que ele se repita", o que cai como uma luva aos tempos nebulosos que vivemos onde as pessoas são incapazes de analisar a história e desejam a volta de algo que só existiu em suas cabeças), que abre os trabalhos e que traz uma característica marcante de 'Invitation': Incrível como as músicas têm letras politizadas e com mensagens tão contundentes, mas as melodias são sempre ensolaradas e alegres. Isso fica evidente também na lindíssima "Brother", cuja sonoridade se assemelha e muito aos bons tempos do Pixies e "Come Back Shelley", que parece uma sobra de estúdio do T-Rex.


Além desses óbvios destaques, temos também a lindíssima "Faded Afternoon", que se fosse cantada pelo Michael Stipe seria o típico R.E.M., porém na voz cheia de atitude de Corin Tucker, ganha uma personalidade única; a punk "No Forgotten Son" (a mais furiosa do álbum) e "Any Kind of Crowd", cheia de texturas, é o mais próximo que Corin soa do Sleater-Kinney ao longo dos seus enxutos 38 minutos de duração. Vale também ressaltar como curiosidade que o baixo foi gravado por um cara chamado Krist Novoselic (Nirvana), que também é conhecido por seu engajamento político, mas ele infelizmente pediu as contas logo em seguida... Pena! Se um dia o Filthy Friends vir ao Brasil, na certa seria um atrativo a mais!

Não lembro quando foi a última vez que ouvi um disco e consegui dizer isso, mas vai lá: Corin, Peter e seus comparsas conseguiram e fizeram um álbum simplesmente perfeito do início ao fim, onde cada música parece ter sido milimetricamente trabalhada e cada segundo tem sua razão de ser! Também, com tanta gente tarimbada envolvida, não tinha como dar errado, não é mesmo? 'Invitation' é um trabalho urgente que soa alto astral, onde é nítido que todos estão se divertindo, sem contudo parecer bobo ou alienado e que mesmo sendo relativamente curto é mil vezes mais eloquente que obras com 60 minutos ou discos duplos que, como bem diria o saudoso Renato Russo: "Falam demais por não terem nada a dizer". Uma pérola a ser descoberta e presença assegurada na lista dos melhores do ano!

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