sexta-feira, 20 de outubro de 2017

U2 inicia turnê "The Joshua Tree" no Brasil com o melhor show da vida de 70 mil pessoas

Show de celulares na apresentação do U2 no Morumbi (Foto: Stephan Solon)
Por Silvia Briani

Ao som da música de introdução “The Whole of the Moon” (The Waterboys), o baterista Larry Mullen Jr. entra sozinho e caminha em direção à bateria montada no pequeno palco anexo que fica no meio do púbico, despretensioso, senta, se ajeita e já de cara manda forte na bateria o começo de “Sunday Bloody Sunday”. Na sequência vem entrando The Edge tocando a guitarra, Bono entra cantando, e o último a se juntar a eles é o baixista Adam Clayton. Começo de show avassalador. Estádio lotado e as pessoas pulando compactamente. O show segue em ritmo forte, e sem pausa, Adam Clayton já engata o baixo com "New Year’s Day", também do álbum War de 1983 e na sequência "Pride", deixando claro que o show testaria as coronárias da maioria dos fãs ali presentes. Talvez a comemoração dos 30 anos de “The Joshua Tree” tenha deixado em casa a molecada. O publico que ali se viu era realmente de fãs mais antigos da banda, ansiosos por ver seus clássicos de adolescência ao vivo.

Aos primeiros acordes de “Bad”, Bono Vox fala que o universo conspirava para que essa fosse uma noite épica de Rock’n’Roll. Então ele convida a que todos se rendam uns aos outros, e à música. A canção flui emocionante, dedicada no Brasil à Renato Russo e Cazuza, e termina emendando “Heroes” de David Bowie, e alguns que se deixam levar pela forte energia do momento vem às lágrimas. Até aí a banda se apresentava de maneira crua no palco anexo (aquele que vai até o meio do público), atestando que não precisam de efeitos e pirotecnia para levar os mais de 70 mil presentes à loucura. Performances perfeitas, cruas, pesadas, claramente mais “raiz” e menos “nutella”.

As primeiras notas de “Where The Streets Have No Name” anunciam o início da parte principal da noite, enquanto todos da banda se dirigem ao palco grande, ao mesmo tempo em que o telão começa a exibir a grande árvore em um fundo vermelho. As sombras de Bono, The Edge, Larry Mullen Jr. e Adam Clayton complementam a impactante beleza da imagem no imenso telão que vai de um lado a outro do palco. Era a hora da ‘estrela da noite’ – “The Joshua Tree” enfim estava começando. The Edge, com seu estilo único, dá os primeiros acordes da música e a galera ovaciona. Bono manda muito bem no vocal potente e emocionado. O estádio vai à loucura. Apoteótico.

O coro de 70 mil vozes que desde a primeira música acompanhava Bono Vox em cada verso, não fez diferente em “I Still Haven’t Found What I’m Looking For” e “With Or Without You”. As luzes dos celulares davam aquele efeito bonito em todo o estádio. Na sequência “Bullet the Blue Sky” vem forte, com peso e guitarra desconcertante, perfeita e contrastante intridução para a linda “Running to Stand Still” que a galera cantou juntamente em coro com Bono Vox.
Juntos, num dos momentos mais bonitos da noite (Foto: Stephan Solon)
A Banda trouxe peso e paixão às músicas mais lado B do álbum, lembrando a pegada das performances ao vivo do filme “Rattle and Hum” de 1988 mas nitidamente o público aproveitou as músicas menos conhecidas para dar aquela respirada, apreciá-las, acalmar o coração, cantar e se preparar para a porrada seguinte, que certamente viria. Assim foi durante “Red Hill Mining Town”, “In God’s Country”, “Trip Through Your Wires”, com  Bono e sua gaita e “One Tree Hill”. Para a introdução da música seguinte, o telão exibiu o trecho de um filme americano mais antigo, onde temos um personagem chamado Trump que curiosamente fala sobre a construção de um muro. Crítica direta, e então “Exit” veio com a força do baixo, da voz, e dos trechos estrondosos de bateria e guitarra. Montanha russa de porrada e calmaria traduzindo a mensagem da música sobre o contraste e dualidade moral entre amor e ódio que permeiam a mente de um assassino perturbado, como bem explicou o próprio Bono Vox em 1987 ao fazer a introdução da música em um show “Essa canção é sobre um homem religioso… que se tornou um homem muito perigoso, e que não conseguiu entender o mistério das mãos do amor”. Talvez a parte mais pesada do show.

O U2 tem o dom de transformar cada show em um ato político, e com esse não seria diferente. O próprio álbum “The Joshua Tree” surgiu com esse contexto há 30 anos, e revivê-lo hoje não foi somente uma saudosista exibição de um álbum clássico. A banda soube contextualizar com maestria as questões políticas e críticas de suas músicas mais antigas aos acontecimentos e retrocessos políticos e sociais de hoje pelo mundo, inclusive o Brasil. Além do discurso direto, as críticas e mensagens reflexivas estavam presentes no telão, que sincronicamente complementavam as execuções musicalmente fortes que aconteciam no palco.

Mothers of the Disappeared” encerra a apresentação do Album “The Joshua Tree”, com o agradecimento de Bono Vox ao público por ouvi-lo. Vem então a primeira pausa oficial do show.

Os irlandeses voltam ao palco em clima de festa com “Beautiful Day” e o Morumbi treme ao som de “Elevation”, seguida de outro hit da banda “Vertigo”. Três hinos mais recentes, que mostram a influência da banda nos anos 00. O protesto fica por conta de vários closers dados às costas do baterista Larry Mullen Jr que trazia uma estampa contra a censura.

Nova pausa e a banda volta com a nova "You're the Best Thing About Me" e “Ultraviolet (Light My Way)” que foi dedicada às mulheres, celebrando a força transformadora de grandes mulheres do mundo, conhecidas ou não, mas que são verdadeiras heroínas que em seus contextos sociais resistem, insistem e persistem a luta por seus direitos e abrem caminhos na história enquanto no telão apareciam fotos de grandes mulheres como Frida Kahlo, Madre Teresa, Tarsila do Amaral, Maria da Penha, Michelle Obama, Eva Peron, Patti Smith, e também imagens de mulheres ativistas anônimas. Lindo e forte.
Telão de alta definição medindo 80 metros por 18 de altura (Foto: Stephan Solon)
O show se encerra com Bono passando sua mensagem aos brasileiros, lembrando enfaticamente que há anos atrás o Brasil mostrou ao mundo como cuidar das pessoas mais vulneráveis com dignidade, claramente se referindo às políticas de igualdade adotadas pelos governos anteriores, e também enfatizando a importância do Brasil no papel de combate à AIDS. Bono pede que os brasileiros reconheçam a verdadeira importância disso, e como isso fez a diferença, e pede que o povo, estudantes, doutores,  todos se unam em uma só liderança e trabalhem juntos para salvar as vidas dos mais pobres e mais vulneráveis, reforçando que somos muito mais poderosos quando trabalhamos em conjunto como “Um”, palavra substituída simplesmente pela introdução dos primeiros acordes da música “One”.

Sim, o universo conspirou a favor. A noite foi épica. Uma mega apresentação, digna de uma mega banda que não deixou para trás suas raízes. Não teve “selinho no Bono”, a pegada dessa turnê é claramente outra. A presença de palco de todos os integrantes transparece a paixão tesão da Banda por fazer esse trabalho em 2017. Bono sempre muito expressivo, cantou com voz potente e apaixonada. Sem dúvida o melhor show entre todos que a banda já fez no Brasil. Sejam bem vindos de volta ao Rock’n’Roll! Nós preferimos vocês assim.

Na abertura, Noel faz bom show mas para poucos interessados

A noite começa com apresentação agradável do Noel Gallagher’s High Flying Birds que traz 6 ótimas músicas do trabalho solo de Noel Gallagher mas não empolgam muito o público, até pela postura mais contida do músico, apesar dele dedicar a última musica do show para o jogador Gabriel Jesus. Os vocais da plateia se aquecem quando Noel traz covers de sua antiga banda Oasis, e o show se encerra após uma hora.

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