terça-feira, 11 de outubro de 2016

Entrevista com Clemente, ícone do punk e que acaba de lançar seu primeiro disco solo

Foto: Divulgação
Clemente está envolvido em vários projetos, incluindo seu primeiro disco solo
Por Ricardo “Cachorrão” Flávio

O cara é um ícone! Clemente Tadeu Nascimento, guitarrista, vocalista, compositor, 53 anos de idade, mais de 35 dedicados ao rock and roll. Inocentes, Plebe Rude e agora em voo solo, lançando livro. Um papo honesto e sincero com esse cara que é parte importante da cultura nacional. Com tantos projetos dedicados ao rock, o músico ainda conseguiu tempo para colocar na praça um dos grandes discos desse ano [leia a resenha AQUI] e ainda abriu um espaço para esse bate-papo, onde fala desse momento que está vivendo após o lançamento de Clemente E A Fantástica Banda Sem Nome. Com vocês, a simplicidade do “seo” Clemente, numa entrevista concedida com exclusividade ao Rock On Board.

Inocentes, Plebe Rude, Kiss FM, Showlivre, DJ, Jack & Fancy, Kazagastão no YouTube, produção de festival de bandas novas em Osasco... E ainda achou tempo para um disco solo. Clemente, como você conseguir se dividir em tantas atividades?

Rapazzzz... Eu não tenho tempo não! (risos) Mas é assim, têm algumas coisas que estão meio devagar, tipo, Jack & Fancy tááá em... Vamos dizer assim, está hibernando [Jack & Fancy é um projeto paralelo que reúne Clemente e Sandra Coutinho, baixista das Mercenárias]. A gente não faz show e tem um tempo que o projeto deu uma parada. Lá em Osasco, já faz um ano que acabou a minha participação como curador também e eu tô fora. E o disco solo levou um ano sendo feito, né? Na verdade, a gente demorou um ano ensaiando, definindo repertório pra gravar. Foi uma coisa assim super prazerosa de se fazer e foi uma coisa light, sem muita pressão, entendeu? Ensaiando uma vez por semana, quando dava. É que os caras são muito profissa... Quando a gente definia uma coisa, pronto, já era! Então foi um foi um prazer fazer! Foi tipo um churrasco de final de semana, entendeu? Encontrar os caras, trocar ideia e gravar! E tocar! O legal é que não tem a pressão do Inocentes e nem da Plebe. É só diversão!

E como surgiu a ideia desse trabalho solo? Quem te acompanha nessa nova empreitada?

Cara, eu tinha várias músicas que ficaram guardadas, que não cabiam no repertório, tanto do Inocentes, quanto da Plebe. E eu sempre tive vontade de gravar essas músicas, registrar de alguma maneira. E falei isso pro Rodrigo Cerqueira, que era do Skuba, Firebug e tal. E ele sempre me encheu o saco, tipo "vamos lá! Vamos lá!". E eu tinha sempre essa ideia na cabeça. E aí vendo o Joe tocar, o Johnny Monster, que são caras que eu sou fã, que eu gosto do estilo, eu falei e eles toparam. Então nasceu essa empreitada! Na verdade, a partir do momento em que eles toparam que eu me animei, porque foi sensacional tocar com os caras e tal. E o louco é que algumas músicas eram músicas antigas, que a gente deu forma a elas. Tem música lá que tem uns 25 anos, como “Sonhos”, que é muito antiga. Mas tem coisas que são novíssimas, que a gente fez depois de ensaiar, juntos. A energia estava tão boa nos ensaios, que começou a rolar uma coisa nova. E assim, na verdade, esse disco solo meio que cumpre o papel que teria o Jack & Fancy, que foi ficando parado, ficando parado, e eu não conseguia fazer, mostrar esse outro lado, essas outras influências, esse tipo de canção que as pessoas não estão acostumadas a me ouvir fazer.

Ouvindo o álbum, notamos certa introspecção, um destaque maior para letras e voz, isso foi pensado antes, por ser um trabalho solo, ou foi apenas uma feliz coincidência, aconteceu naturalmente?

Cara, é bem isso mesmo! É um trabalho muito mais introspectivo! E esse destaque na voz é intencional mesmo, porque eu acho as letras importantes e a interpretação importante. Existe uma lenda no Brasil, principalmente no meio do punk rock, de que a voz tem que ser muito baixa, né? Mas se você ouve bandas como The Clash, como Sex Pistols, principalmente as bandas de 77, as letras são super audíveis! Ou até as bandas mais novas, como o Rancid, ou como o Down By Law, você consegue entender o que os caras cantam! Essa coisa de voz enterrada é coisa só de hardcore e banda indie, né? E que é uma coisa bem brasileira, porque na gringa você ouve a voz! Então a voz estar nesse plano é intencional mesmo, é pras pessoas entenderem a minha letra e até cantarem juntos! É bem isso mesmo, você falou bem, é um disco bem introspectivo mesmo, com destaque para a interpretação, para a poesia.

Eu sei que você fez um show de pré-lançamento desse disco com a banda nova. Pretende sair em turnê com a turma? E nos shows das suas outras bandas, há chance de aparecer alguma canção desse trabalho?

Nãooo.. A ideia justamente é essa, show do Inocentes é show do Inocentes, show da Plebe é show da Plebe e vice-versa. No show solo, você não vai ouvir nenhuma canção do Inocentes! Acho que seria até um desrespeito, porque a banda existe, está aí! Quem quer ver canção do Inocentes, tem que ir no show do Inocentes! Que tá rolando, a banda está na estrada! E a ideia é fazer shows mesmo, mas é que no Brasil não tem aquele coisa de “vamos fazer uma tour”, uma tour fechada. Você faz os shows que aparecem, né? Então, Clemente & A Fantástica Banda Sem Nome, o primeiro show oficial será em Balneário Camboriú, em Santa Catarina, dia 05 de novembro. Um dia antes eu toco com a Plebe em Belo Horizonte. Faz muito tempo que a Plebe não toca em Belo Horizonte. E uma semana antes, eu toco com o Inocentes em Osasco! Olha só... Então é assim, pra você ter uma agenda fechada, todo final de semana, você precisa ter vários trabalhos. Se bem que o trabalho com a Plebe vem aumentando muito... Mas a ideia é fazer shows sim, mas sem aquela mega preocupação. O trabalho solo é mais diversão mesmo.

Em “Antes que Seja Tarde”, ouvimos você mostrando um ecletismo que não cabe nos Inocentes ou na Plebe Rude. No álbum tem baladas, blues, um rock mais tendendo ao pop, e até mesmo uma canção totalmente psicodélica - experimental (“A Noite Passa Tão Devagar”), que me lembrou coisas do Júpiter Maçã. Eu queria saber como tem sido a receptividade do disco, o que os antigos fãs tem dito ao ouvir.

Rapaz, eu tô eclético, hein! (risos) Mas é que com o passar dos anos, você vai ficando mais velho e tal e você vai colocando mais as coisas que te influenciaram no seu trabalho. E, assim, as pessoas vem recebendo bem, né? Pelo menos as pessoas que não são aquela coisa estereotipada de punk e tal, que realmente eu não sei se vão gostar ou não... Mas não importa! O importante é fazer um trabalho legal e ser verdadeiro com esse trabalho, né? Mas a receptividade tem sido boa, as pessoas gostam de várias coisas, e eu acho que apesar de ter toda essa diversidade, acho que a veia mais visceral tá ali no meio, e isso que é legal! Às vezes tem uma música, uma canção super suave, mas que tem na sua origem uma veia mais visceral! E se você pensar bem, eu sou fã de Iggy Pop, e Iggy Pop já fez de tudo! No último solo dele, ele gravou até bossa nova. Ele gravou Tom Jobim! Gravou jazz, gravou um monte de coisas! Se você ouvir o trabalho do Iggy Pop inteiro, como um todo, ele é super diverso, você pega discos como “Idiot”, o “The idiot” tem muitas bases eletrônicas, é quase inteiro eletrônico! O “Zombie Birdhouse”, outro disco solo dele, é muito mais eletrônico! E o Iggy Pop nunca perdeu a veia por causa disso. Eu me inspiro muito nessas pessoas, me inspiro no The Clash, no Joe Strummer, no trabalho do Joe Strummer, que é super diverso, são pessoas que eu admiro e que mostram que você pode abrir várias possibilidades sem perder a veia, saca? É porque geralmente as pessoas só lembram... Os punks e tal, só lembram dos trabalhos mais pesados dessas pessoas. Mas na verdade eles sempre foram muito ecléticos, misturando muita coisa.

Ainda falando sobre sonoridades diferentes do que estamos acostumados quando o assunto é Clemente Nascimento, o que você tem ouvido ultimamente? Quais são as suas novas influências?

É engraçado, né? Mas na verdade não são novas influências. São coisas que eu sempre ouvi! Ouvi a vida inteira! Bandas como o Niños Com Bombas, banda que tem um chileno no vocal, um brasileiro no baixo e um alemão na bateria, a banda que o vocalista, o chileno, ele era de uma banda punk chamada Pinochet Boys, que abriu um show do Inocentes em 1985, só que ele continuou, continuou evoluindo e tal e essa banda Niños Com Bombas é uma banda da década de 90. Tocou no Brasil até! Gravou por aquele selo que era do cara do Bad Religion [Epitaph]. Eu ouço desde Gorillaz até... Putz, eu ouço um monte de coisas! Não são influências que vem de agora. Gosto muito de reggae, aquele reggae do começo, como Toots & Maytals, Gregory Isaacs, The Ethiopians... Sou fã desses caras! Gosto muito de ska, gosto muito de Might Might Bosstones, de Desordem Pública, uma banda da Venezuela, as bandas de ska gringas... Eu gosto muito de ska! Gosto muito de Hives... Ahhhh... Como é o nome dele mesmo? Ah, gosto muito de um monte de coisas! Gosto muito de rock! Gosto muito de música que tenha pegada, né? Gosto muito Tom Waits! Sempre fui fã de Tom Waits! Ouvi muito Tom Waits a vida inteira! Danko Jones! Então... Assim, eu ouço muita coisa! Eu não sou muito fã, não ouço muito metal, né? Mas eu gosto muito, tipo, daqueles discos do Black Sabbath do começo, do Deep Purple do começo, que não são uma coisa metal estereotipado, né? O Black Sabath pra mim, é uma banda de jazz muito boa! Assim, tem muita influência de jazz... E já ouvia muita coisa disso de pivete, que eu não comecei ouvindo o punk, comecei ouvindo rock and roll, e bandas estranhas, como o Blue Cheer, como o Lucifer Friends, que são bandas que eu cresci ouvindo. E isso sem falar nas coisas brasileiras, como Patife Band... Crime... isso além das bandas punks, saca? Não fico restrito a uma coisa só... Wado, um cara que eu acho sensacional! Tem muita coisa legal rolando. Além de grupos como Seychelles, Jonatha Doll & Os Garotos Solventes... o André Frateschi que lançou um disco muito bom também... nunca fiquei restrito ao punk, sempre ouvi muita coisa.

Clemente, seu disco está disponível nas plataformas digitais, como Spotify e Deezer, antes mesmo das cópias físicas chegarem às lojas, como você vê esse lance? Depois da internet, e os downloads não autorizados, muitos acreditaram que o disco estava com as horas contadas – apesar de algumas pessoas, como eu, que não abandonam o velho hábito de ter a cópia física, com disco, capa, encarte, letras e ficha técnica em mãos. É uma saída rentável em virtude da queda de vendas de discos?

Cara, esse lance da distribuição digital, das plataformas digitais, na verdade é o que está salvando a indústria fonográfica! E quando falo assim, não é na cena independente, porque a cena independente continua vendendo uma quantidade de discos que mantém a estrutura funcionando. O que acontece é o seguinte: quem é da cena independente gosta de disco, gosta de ter o CD na mão! Eu também gosto, eu adoro! Só que as plataformas digitais são um facilitador. Ajuda as pessoas ouvirem antes, as pessoas avaliarem e até escolherem se querem comprar ou não! Mas isso numa determinada gama de gente que tem uma relação com a música e não só como um produto descartável, mas um produto que é consumível, uma coisa que você gosta de guardar, que você aprecia. Agora, para a grande massa, esse negócio das plataformas digitais ajudou, né? Porque os caras não tão nem aí! Eles consomem música. Para eles a música é descartável! O que tá na moda hoje, não é o que vai estar na moda amanhã! Então o cara não precisa ter disco, ele só quer ouvir a música! Então, pra indústria fonográfica isso foi a salvação. Porque a venda de discos tinha caído e o download de graça tava tomando conta. Agora o cara paga, e não sente que paga! Ele paga pouquinho então, pra indústria, foi uma maneira de retomar sua lucratividade. E eu acho que é importante se você pensar na indústria não como uma produtora de arte, mas uma produtora de entretenimento, que é uma coisa diferente. A indústria fonográfica, os números, de quem produz entretenimento, são gigantescos! Emprega muita gente e toda aquela coisa. Mas não é minha praia! O disco saiu antes nas plataformas digitais, porque virou praxe, é um facilitador, chega antes lá, a pessoa já vai fazendo um esquenta e ajuda até na vendagem dos discos. Aliás, o seu disco está guardadinho aqui pra eu te entregar! (risos)

Continuo esperando...

E uma coisa que é importante ressaltar, é que quem gosta de ter o material físico na mão, gosta mesmo! Tanto é que o vinil voltou com força total! E o vinil não é feito pra grande massa, mas é feito pra poucos e bons! Então, as quantidades são pequenas, o preço é alto, mas o público que realmente curte música, e realmente gosta de colecionar música! Então é isso aí! O CD, o vinil, fita cassete, tá tudo aí no ar, tudo junto e misturado.

Deixando o solo um pouco de lado, a Plebe Rude está comemorando 30 anos de “O Concreto Já Rachou”, recentemente saiu um documentário no Canal Brasil, os Inocentes estão completando 35 anos de atividade. Apesar das duas bandas terem lançado trabalhos inéditos recentemente (Plebe Rude lançou “Nação Daltônica” e os Inocentes lançaram “Sob Controle”), existe algum projeto em andamento com elas?

Nós estamos com os discos relativamente novos, né? Mas o Inocentes tá preparando um disco pra comemorar os 35 anos de estrada, um disco lendário! Estamos decidindo o que fazer. E eu como estou atolado de coisa... É casamento da minha filha e não sei o que... Da Mariana, você vai saber muito bem o que é isso daqui uns anos (risos). Sua Mariana ainda tá pequenininha [ambos temos filhas com o mesmo nome], mas vai sair logo, talvez um CD pra 36 anos e não 35. E a Plebe tá preparando material, talvez. A gente ainda não sabe direito, tem vários projetos e tal, mas eu sei que em 2017, quando a gente decidir qual o projeto vai pra frente, eu falo pra você. Mas as duas bandas estão na ativa e preparando coisas novas.

Clemente, agora mudando um pouco o foco, está para ser lançado o livro “Meninos em Fúria”, parceria sua com o Marcelo Rubens Paiva. Fale-nos um pouco como nasceu esse projeto e o que podemos esperar dele. Muitas revelações do “punk veio” estão por vir?

Cara... o livro... partiu do Paiva. A gente sempre se encontrava no Metrô, na Paulista e tal, e sempre usávamos o mesmo transporte público. Eu tava escrevendo meu livro, começando... O nome já era o mesmo, “Meninos em Fúria”. E o Paiva me perguntou: “pô, e aí, você precisa lançar um livro”. Eu falei: “ah, to escrevendo, mas não saí do primeiro capítulo”. E aí ele se propôs, “quero escrever isso aí!”. E começou a escrever. E o louco é que ele acabou se inserindo na história! O que é mais legal! Então não virou só uma biografia minha, é uma biografia dos dois! É um relato sobre um momento histórico e importante do Brasil, do início do punk, como o punk influenciou toda uma geração e deu a... Vamos dizer assim... Foi o ponto de largada da década de 80 e de tudo o que veio depois da década de 80, porque o punk foi meio a mola propulsora de tudo aquilo. Foi o que incentivou aquela rapaziada começar a se manifestar com poucos recursos, né? Cada um na sua manifestação artística... Fosse na música, fosse na literatura, fosse no cinema, no teatro, na fotografia, na moda, todo mundo começou. O punk incentivou a rapaziada começar a produzir coisas diferentes, foi o famoso faça você mesmo. Então o punk foi meio que o impulsor, a mola propulsora da década de 80, a cisão entre a década de 70 e a década de 80.

Clemente, valeu, obrigado! Manda um salve aí, fale o que quiser!

Valeu Cachorrão... pô eu que agradeço o espaço, você sempre participa da nossa trajetória, do Inocentes, da Plebe, minha carreira solo... muito obrigado! Um abração a todo mundo do Rockonboard! Tamo na área... derrubou, é pênalti!

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