quinta-feira, 14 de abril de 2016

Discos: Santana (IV)

Foto: Divulgação
Santana (ao centro) volta a se reunir com integrantes do Woodstock
SANTANA
IV
Sony Music; 2016
Por Lucas Scaliza




O grande chamariz de IV, e o motivo que lhe dá o nome em numerais romanos, é a reunião do guitarrista Carlos Santana com alguns dos mesmos músicos de sua clássica era Woodstock. A última vez em que todos eles estiveram gravando juntos foi em 1971, com III. A principal expectativa é vê-los fazendo algo instigante e criativo como na virada dos anos 60 para os 70. Contudo, a carreira de Santana mudou bastante nos últimos anos. Continua um ótimo guitarrista, mas seus discos não respiram (e nem aspiram) à criatividade plena, estacionando em uma maioria de músicas acessíveis quando não aposta em regravações. Ou seja: ou IV volta ao espírito daquela época, atualizando o que for necessário (Santana não é do tipo que aposta no retrô, sabe?), ou talvez o disco não mereça seu título.

Há que se contextualizar que os primeiros discos de Santana não só o firmaram como grande guitarrista em meio a tantos outros que despontaram na mesma época nos Estados Unidos e na Inglaterra (e os nomes vão desde Jimi Hendrix a Jimmy Page, passando por Eric Clapton e Jeff Beck, sem falar no pessoal do Jefferson Airplane, Greatful Dead, Johnny Winter, Sly & The Family Stone, The Who, Robert Fripp, entre vários outros), mas trouxe a latinidade mexicana para o rock psicodélico, propondo um estilo de guitarra muito conectado ao zeitgeist da época e ao mesmo tempo muito próprio. Não é a toa que, na guitarra, Santana é a referência do uso do modo grego dórico, responsável por temperar as melodias com sons que entram em nossos ouvidos e nosso cérebro se acostumou a reconhecer como latinos.

Santana está ladeado por Gregg Rolie (teclado e voz), Neal Schon (guitarra e voz), Mike Carabello (percussão) e Mike Shrieve (bateria). Da formação clássica, ficaram de fora o baixista David Brown e o percussionista José “Chepito” Areas, substituídos por Benny Rietveld (baixo), Karl Peralzzo (percussão) e o cantor Ronald Isley, todos membros da banda de Santana nos últimos anos. Existem momentos em que a interação do grupo parece realmente reviver aqueles anos dourados e loucos de início de carreira, mas no geral IV comporta-se bem, como qualquer um dos últimos discos de Santana, e não com a visceralidade que talvez pudéssemos esperar de uma reunião tão importante quanto essa.

IV está longe de ser um novo grande clássico, mas faz valer a pena o reencontro dos músicos e tira Santana dos covers e de uma maioria de canções sem sabor. E o que seria do México sem o sal, a pimenta, as cores e o gingado? O disco exercita sua latinidade do começo ao fim, mesmo que seja uma música latina mais quadradinha, sem muitas torções ou invenções, bem ao gosto do público internacional que em geral tem uma ideia também quadrada da música na américa hispânica.

Shake It” é contagiante e já coloca o sangue e a percussão latina no meio do rock’n’roll das guitarras de Carlos e Neal Schon. O teclado de Rolie surge quente, apimentando a faixa, abrindo espaço para solos incendiários. “Love Makes The World Go Round” e “Freedom In Your Mind”, ambas com Isley no vocal, são bem divertidas, recuperam um pouco do feeling de 45 anos atrás e Rolie abusa do timbre vintage do teclado. “Come As You Are” é a música mais feel good do álbum, para ouvir numa festa e, de preferência, tomando margaritas.

Os momentos mais preciosos de IV são as composições instrumentais. “Fillmore East” e “Forgiveness” tem mais de sete minutos cada uma e são um show de feeling e viagem sonora como há muito tempo não víamos o Santana fazer. “Fillmore East” explora o lado mais místico e xamânico da personalidade musical de Santana e sua banda. Shrieve, Peralzzo e Carabello seguram muito bem o pulso da música, além de criarem batidas que valorizam os detalhes e os estalos, enquanto as guitarras de Santana e Schon criam a paisagem sonora ideal para essa jornada. Já “Forgiveness” é mais espacial, também aproveitando bem para criar duas linhas complementares de guitarra. Enquanto uma delas abusa do sustain e dos efeitos de expressão, a outra executa os fraseados mais ligados a um solo ou improviso. Fãs de Robert Fripp e de psicodelia vão adorar.

Echizo”, também instrumental, é outro dos grandes momentos do álbum. Uma dessas faixas que não é pretensiosa, mas cria uma composição para guitarra que se ajuda a mostrar o que é possível fazer com a percussão latina, um guitarrista virtuoso e outro viajante na mesma banda. “You And I” é mais um desses episódios de beleza em que os músicos provam que fazem música boa e criativa, mas desta vez com contornos mais dramáticos e sensíveis. E falando em sensibilidade, o grupo cria uma belíssima transição da melodia de violão para a guitarra em “Suenos”, acompanhando a evolução da faixa.

A presença das músicas instrumentais é importantíssima para que o álbum se consolide como o que ele quer ser – um Santana (banda) mais artístico e que recupera as origens –, mas ainda é um disco do Santana que virou um cara popular, um músico respeitado mas cujo público não é o mesmo do Steve Vai, Joe Satriani ou mesmo Joe Bonamassa. Seu público, em boa parte, é formado por pessoas que estão atrás sim do grande músico Carlos Santana, mas que não são afeitas às viagens mais astrais, ou à exploração mais jazzística da latinidade e por aí vai. Por isso, apesar do rock e das viagens, incluíram também momentos mais pop ou que possuem mais apelo junto ao público “menos especializado”.

Se não fosse isso, “Choo Choo” seria dispensável, apesar de ter uma ligação com a ótima (e instrumental) “All Aboard”. Mas faixas como “Leave Me Alone” e “Blues Magic” cumprem tanto a tarefa de se aproximarem do público quanto de demonstrar um pouco do potencial musical dos artistas envolvidos. Sobra mesmo para “Anywhere You Want To Go”, o single do trabalho, a tarefa de ser mais comum. Enquanto isso, a ótima “Caminando” traz um senso de perigo e suspense blueseiro ao disco combinado com a percussão afro, quase como uma versão Santana para “Symphathy For The Devil” dos Rolling Stones. Não precisa nem dizer que é mais uma das faixas obrigatórias do álbum, certo?

Após todas essas considerações, respondo que IV merece seu nome. Sem a intenção de soar como nos anos 70, fizeram um bom disco de guitarra psicodélica com ritmos afrolatinos para esta década. O álbum apenas parece muito calculado. Assume riscos, sim, mas não riscos demais que não possam ser controlados em estúdio. Da parte de Santana, é muito prazeroso notar como a interação com Schon dá uma sacudida na forma como as guitarras vão soar, criando mais camadas do instrumento e contribuindo com a nossa imersão em suas jam sessions. Mesmo sem carregar muito na pimenta, Carlos, Gregg, Neal, Mike e Carabello acertam na receita de IV.

0 comentários:

Postar um comentário