terça-feira, 12 de abril de 2016

Discos: Deftones (Gore)

Foto: Divulgação
Deftones mantém a inspiração que consagrou a banda na década passada
DEFTONES
Gore
Warner Music; 2016
Por Bruno Eduardo



O Deftones chega ao seu oitavo trabalho de estúdio com mesma pegada que marcou seus trabalhos mais inspirados. A única diferença deste para os outros, é talvez a motivação do grupo em sua caminhada. Desta vez, eles escolheram economizar nos riffs grudantes e se concentraram na junção de uma química honrosa entre melodia e texturas. Aqui, o peso, a poesia e a melancolia caminham juntas e de forma não-econômica.  

Se nos dois discos anteriores (Diamond Eyes e Koi No Yokan) o Deftones já tinha chegado próximo da fórmula consagradora de White Pony, em Gore a coisa fica mais profunda. Tanto que tem fã dizendo por aí, que o disco é uma cópia do Palms, projeto paralelo de Chino Moreno - o que não chega nem perto de ser verdade. Hoje, o Deftones caminha como poucas bandas no que se diz respeito a criação musical e estética no rock. A banda segue de forma muito mais intuitiva do que planejada, e constrói progressivas colchas de retalhos melódicos, que por muitas vezes beiram à melancolia, é verdade. Mas que também chega a ser assustadoramente brutal. 

Em Gore, o grupo traz a sua considerável exploração sonora, protegida por uma parede maciça de guitarras (mais limpas que de costume) do talentoso - e subestimadíssimo - Stephen Carpenter. O guitarrista, que chegou a mostrar certo incômodo sobre a direção musical do grupo em algumas entrevistas, acerta em cheio nas escolhas de texturas, como pode ser conferido nas palhetadas deleitosas de "Acid Hologram" - uma das melhores do disco. No entanto, ele também tem espaço para mostrar sua veia metal em "Doomed User", que além de arregaçar no peso, não economiza nos acordes abertos - uma de suas marcas registradas. 

O disco abre com "Prayers / Triangles", que inclusive foi escolhida como primeiro single e já tem clipe rodando na web. Além de magnífica, a faixa consegue um fato raro, que é resumir em poucos minutos o padrão da banda neste novo trabalho. Mais intricadas e igualmente deslumbrantes, "Geometric Headdress" e "Pittura Infamante" chegam perto dessa condição de revelar a pedra, mas se apoiam principalmente na receita funcional do disco anterior, com direito à levadas particulares do baterista Abe Cunningham e vocais brilhantes de Moreno.

É bom ressaltar, que neste novo trabalho a banda decidiu não dar continuidade ao produtor Nick Raskulinecz (que gravou os dois últimos discos do grupo) e optou por Matt Hyde, que já trabalho com bandas do gênero, como Slipknot, Machine Head e Bullet For My Valentine. Essa experiência acabou garantindo texturas mais densas, como na arrastada "Acid Hologram" e trouxe um investimento na cartilha lapidada do novo metal. Por exemplo: a berraria dos velhos tempos - representada em discos como Around The Fur (1997) - ressurge de forma moderada em "Xenon", e o nu-metal é enfim reciclado no peso atmosférico da faixa-título, "Gore". Isso tudo pode ser considerado reflexo da influência de Matt na direção do álbum. Desse conjunto irrotulável, "Hearts / Wires" até causa a impressão de estar desconectada da proposta, mas ressurge de forma impetuosa entre os falsetes de Chino Moreno e a levada atmosférica do "descontente" Carpenter.

Embora hajam alguns resquícios de sua origem tribal, o Deftones segue cada vez mais embriagado em fontes de bandas como Radiohead e Depeche Mode - comprovado na  "achatada" mas igualmente brilhante "Phantom Bride". Porém, o que podemos dizer hoje, é que enfim a banda parece ter encontrado algo que muitos procuram durante toda a carreira: estabilidade criativa. Discaço.  

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