domingo, 24 de janeiro de 2016

Vinte anos depois, Legião Urbana renasce em Metropolitan lotado

Foto: Adriana Vieira

Por Bruno Eduardo

"Estamos indo de volta para casa" 

O verso de "Por Enquanto", que também encerra o primeiro disco da Legião Urbana, homenageado esta noite por seus trinta anos de lançamento, é o que melhor determina o valor desta simbólica apresentação. Por coincidência, o Metropolitan - que voltou a usar seu nome original recentemente - foi também o local do último encontro dos fãs com Renato Russo e a formação clássica da Legião. Este show de 1994, acabou ganhando um registro ao vivo, lançado em CD duplo, com o nome de "Como é Que Se Diz Eu Te Amo" (2001). 

Antes de Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá subirem ao palco para relembrar algumas das canções que pontuaram a história do rock nacional, já era possível ver a devoção dos legionários estampada nos corredores do Shopping Via Parque. Na praça de alimentação, famílias inteiras uniformizadas. Dentro da casa de shows, fãs de todas as idades estavam enfim unidos pela mesma (re)legião. Pois é, como diria Renato Russo, a verdadeira Legião Urbana sempre esteve à frente dos palcos, e, com a casa já devidamente tomada, o mito já tinha ressurgido antes mesmo do show começar. 

O show Legião Urbana XXX é mais do que necessário para o novo momento do rock e da política nacional. Artisticamente, é interessante ver a evolução do primeiro disco da banda ao vivo, trinta anos depois. Outro ponto positivo é que Dado e Bonfá souberam suprir bem a ausência da figura central de Renato Russo. Principalmente na parte visual, onde eles utilizaram uma produção de palco bem tramada. No início, luzes frias e um telão de fundo deram o tom do número, com letras de algumas músicas e imagens históricas sendo exibidas. Depois foi a vez de lâmpadas amarelas descerem ao palco para ganhar contraste na contra luz dos refletores. 

Outra boa sacada da dupla foi dividir a responsabilidade com André Frateschi nos vocais, o que acabou soando mais leve aos fãs de Renato. A tarefa de André não era as das mais fáceis, é verdade. Mas ele acabou se saindo muito bem. Tanto que roubou a cena em vários momentos do show. Suas interpretações para clássicos como "Soldados", "Há Tempos" e "Angra dos Reis" foram marcantes.

O repertório contou com três diferentes módulos. Para começar, a já esperada reprodução completa do primeiro disco, onde faixas como "Será" e "Ainda é Cedo" (essa com Marcelo Bonfá assumindo o vocal) foram os momentos de maior cantoria. As onze primeiras faixas foram passadas de forma dinâmica, com pouco diálogo e muita concentração na execução. É impressionante como a mensagem do disco continua fresca após três décadas. Letras como "A Dança"(cantada por Dado), "Petróleo do Futuro" e, principalmente, "Baader-Meinhof Blues" ainda servem de trilha sonora para atual sociedade.

Após exibirem uma declaração de Renato Russo nos telões, a banda retornou ao palco trazendo alguns de seus maiores sucessos - com amplo destaque para os discos Dois e As Quatro Estações - e algumas participações especiais. Marina Franco, da maneiríssima banda carioca Glass And Glue, cantou "Dezesseis" - única faixa lembrada de A Tempestade. Logo em seguida foi a vez de Jonnata Doll (Garotos Solventes) tacar fogo no palco ao som de "1965". Para completar a festa, não poderia faltar a presença dos padrinhos da banda. "A gente não estaria aqui se não fossem esses caras", disse Dado, chamando ao palco Os Paralamas do Sucesso para outra versão de "Será", e "Conexão Amazônica".

Foi legal também ver algumas músicas emblemáticas com novas roupagens. Além da ótima banda de apoio, que conta com Mauro Berman (baixo), Roberto Polo (teclados) e Lucas Vasconcellos (Letuce), Dado e Bonfá se remodelaram ao tempo certo. Por exemplo, em "Índios", Bonfá incluiu novos arranjos e modificou o andamento de forma proposital, transformando a levada melancólica em algo mais enérgico, que tem muito mais a ver com formato deste novo show. Já Dado Villa-lobos deu uma atualizada no roteiro em "O Teatro dos Vampiros", cantando: "os meus amigos todos estão tomando rivotril (ao invés de "procurando emprego"). Mas foi em "Pais e Filhos" o momento mais emocionante para a dupla. Subiram ao paco Nicolau Villa-lobos e João Pedro Bonfá (que inclusive está lançando um disco com o pai) para uma versão em família. "O motivo dessa música está aqui no palco com a gente, agora", disse Dado.

"Perfeição", e a sempre atual "Que País é Este?" (na companhia dos Paralamas do Sucesso) finalizaram de forma catártica esta digna e necessária celebração. Lá de cima, Renato Russo deve ter definido esta noite com a seguinte frase: Urbana Legio Omnia Vincit.

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