sábado, 23 de janeiro de 2016

Ramones: Do Pior ao Melhor

Foto: Ilustrativa
A discografia do Ramones avaliada na série "Do Pior Ao Melhor"
Por Luciano Cirne

Parece até que foi ontem, não? Entretanto, no dia 6 de agosto de 2016, completam 20 anos que os Ramones encerraram oficialmente suas atividades. Foi nesta data que tocaram ao vivo pela última vez na Califórnia, em um show que contou com as ilustres presenças do Soundgarden, Rancid, Eddie Vedder e, claro, da lenda Lemmy Kilmister (tocando o hino do Motörhead "R.A.M.O.N.E.S."!). Portanto, para homenageá-los, resolvi dissecar sua extensa discografia em um trabalho de utilidade pública para que as próximas gerações de roqueiros que estão por vir saibam por onde começar caso queiram enveredar pelo fabuloso mundo desta banda que deu o pontapé inicial nesta maravilha sonora que é o punk rock. Lembrando que essa lista é opinião puramente pessoal, ok? Se você discorda, por favor, deixe um comentário dizendo a sua ordem de preferência, vou adorar saber! E também é bom frisar que citei somente os álbuns de estúdio, certo? Dito isso, vamos cortar a lenga lenga e partir para o que interessa. 

 14 'Subterranean Jungle' (1983) 
Apesar de conter os hinos "Psycho Therapy" e "Outsider", além da furiosa "Highest Trails Above", no geral esse é o trabalho menos inspirado dos Ramones. O momento da banda era ruim: Marky lutava contra o alcoolismo (seu problema com a bebida causou tantos transtornos que acabou sendo expulso ainda durante as gravações, sendo as faixas restantes finalizadas por Billy Rogers) e Johnny quase passou dessa para melhor ao se envolver numa briga e sofrer uma fratura no crânio que necessitou de uma complicada cirurgia de 4 horas para reparação. O resultado desse ambiente é um disco nitidamente sem foco, com dois covers ("Little Bit O'Soul" e "Time Has Come Today") obviamente encaixados para encher linguiça e várias canções fraquíssimas como "Somebody Like Me", tão idêntica a "Blitzkrieg Bop" que chega a constranger.


 13 'Halfway To Sanity' (1987) 
Só coloquei esse disco na penúltima colocação porque, enquanto no já citado "Subterranean Jungle" consegui pinçar apenas três sons dignos de nota, aqui pelo menos consegui quatro: "Bop Till You Drop", "I Know Better Now" (que foi composta pelo baterista Richie), "I'm Not Jesus" (talvez a música dos Ramones que menos combine com a banda em sua extensa discografia) e o hit "I Wanna Live". De resto, apenas um punhado de canções pouco consistentes, e, como curiosidades, a participação de Debbie Harry (vocalista do Blondie) em "Go Lil' Camaro Go" e "Bye Bye Baby" que, com seus 4 minutos e 33 segundos, é a maior música que gravaram.


 12 'End Of The Century' (1980) 
Esse até poderia estar numa colocação melhor, se não fosse pela mão pesada do produtor Phil Spector. Metódico e perfeccionista, ele era exatamente a antítese do que o som simples e sem firula dos Ramones pedia, e isso inevitavelmente gerou um ambiente tumultuado e repleto de atritos: Além de ter corrido atrás do baixista Dee Dee com um revólver (na sua biografia, Dee Dee diz que ficou de saco tão cheio do Phil que simplesmente não deu mais as caras no estúdio. Tanto é que ele morreu dizendo desconhecer quem gravou as músicas em seu lugar, uma vez que os músicos de estúdio não foram creditados), de forçar Johnny a repetir mais de 50 vezes a introdução de "Rock N' Roll High School" para depois escolher a que ficou melhor, ainda encheu os arranjos com saxofones e teclados que fizeram vários fãs torcerem o nariz. Mesmo assim pauladas como "I'm Affected", "This Ain't Havana", "Do You Remember Rock N' Roll Radio?" e, claro, "Rock N' Roll High School" tornam esse disco obrigatório.


 11 'Animal Boy' (1986) 
Mais um caso de como um produtor mal escolhido pode botar quase tudo a perder. Desta vez o "culpado" foi Jean Beauvoir, da infame banda punk Plasmatics, que na ânsia de modernizar o som dos Ramones (como se eles precisassem disso) e aproximá-lo da onda new wave que dominava aqueles tempos, encheu o disco de sintetizadores e de teclados de gosto duvidoso. Funciona em alguns momentos (caso da bela "My Brain Is Hanging Upside Down", que trata de uma polêmica visita que o ex-presidente dos EUA Ronald Reagan fez a um cemitério alemão para homenagear nazistas mortos na Segunda Guerra Mundial e que foi lançada anteriormente em single com o título de "Bonzo Goes to Bitburg". Porém, a pedido de Johnny, notório republicano e conservador, o nome foi alterado), mas em outros beira a cafonice (como em "Something to Believe In", que pelo menos ganhou um hilário videoclipe). Vale também pelas faixas "Somebody Put Something In My Drink", "Eat That Rat", "Love Kills" (composta originalmente para a trilha sonora do filme "Sid e Nancy" mas que sabe-se lá porquê, acabou de ficando de fora na última hora) e, obviamente, pela faixa-título.


 10 'Acid Eaters' (1993) 
Fiquei em dúvida se deveria incluir o álbum de covers deles nesta lista, mas na última hora achei que não tinha como deixa-lo de fora (mas se até o allmusic.com o conta como parte de sua discografia oficial, por não deveríamos fazê-lo também?). Aposto que muitos fãs devem estar indignados por ter colocado essa obra a frente de algumas consideradas mais importantes, e indagando porque fiz isso, certo? Acalmem-se, a resposta é simples: Quando penso em Ramones, duas palavras invariavelmente surgem em minha mente, despretensão e diversão. E essas duas palavras mágicas definem com precisão o que "Acid Eaters" é. Sem contar que não tem como não gostar do repertório escolhido (The Who, Bob Dylan, Beach Boys, Rolling Stones, Creedence Clearwater Revival, etc), não é mesmo? Só pérolas! Rock simples, direto e sem frescura como deve ser.


 9 'Pleasant Dreams' (1981) 
O trabalho anterior ("End of The Century") foi um passo megalomaníaco e ambicioso que não deu o resultado esperado. Joey, Johnny e cia não só não conseguiram estourar nas paradas de sucesso mundialmente como ainda perderam alguns fãs dos primórdios com a guinada sonora que deram. Portanto decidiu-se que o melhor a fazer era voltar ao básico, o que não poderia ter sido mais acertado. Ainda que às vezes pareça um disco um pouco sem foco, que o clima no geral seja de ressaca, e que a produção limpa demais de Graham Gouldman (da banda 10cc, aquela da xarope "I'm Not In Love") tenha deixado as músicas sem punch, qualquer pessoa que tenha um mínimo de apreço por rock e punk se emociona quando ouve os primeiros acordes de faixas como "We Want the Airwaves", "You Sound Like You're Sick", da bela balada "Don't Go" e do clássico "The KKK Took My Baby Away"(que, reza a lenda, é uma alfinetada de Joey endereçada ao guitarrista Johnny, que roubou a namorada dele e depois acabou casando com ela, o que fez com que, daí em diante, cortassem relações.).


 8 'Brain Drain' (1989) 
Na minha humilde e modesta opinião, talvez seja o disco mais subestimado da banda. Concordo que "Pet Sematary" há muito já torrou o saco, mas "Zero Zero UFO", "Don't Bust My Chops", "I Believe in Miracles", "Merry Christmas (I Don't Wanna Fight Tonight)" e a porrada na orelha "Ignorance is Bliss" por si só valem a compra. Importante ressaltar que "Brain Drain" marca o retorno de Marky às baquetas (Ritchie havia pedido as contas por achar que estava sendo sacaneado na divisão de lucros) e a saída do baixista Dee Dee, que pirou na batatinha e decidiu virar rapper (!!!) por achar que o punk perdera o sentido, pois não mais retratava a realidade das ruas como o rap passou a fazer, lançando posteriormente "Standing In The Spotlight", considerado por 9 entre 10 críticos de música que se prezam um dos piores discos de todos os tempos.


 7 'Mondo Bizarro' (1992) 
A entrada do jovem CJ no baixo deu uma rejuvenescida nos Ramones, o que provavelmente colaborou para que "Mondo Bizarro" soasse enérgico como há tempos não se (ou)via. Pode até soar como cover de si mesmo em alguns momentos (grande exemplo disso é "Touring", que parece "Rock N' Roll High School" com uma letra diferente), mas para cada pequeno deslize, temos petardos como "Strenght to Endure", "Main Man", "Poison Heart" (todas essas composições do ex-baixista Dee Dee, que as vendeu aos Ramones e depois disse ter sido "roubado" por eles, fato nunca comprovado) e "Anxiety", isso sem falar na hilária "Cabbies on Crack" (baseada em um episódio verídico envolvendo Joey Ramone e um taxista e com solo de guitarra do Vernon Reid, do também nova iorquino Living Colour) e o maravilhoso cover de "Take It As It Comes", do The Doors.


 6 'Adios Amigos' (1995) 
Para um álbum que era abertamente um canto do cisne, "Adiós, Amigos" soa o exato oposto. Apesar de conter as melancólicas "She Talks to Rainbows" e "Life's a Gas" (essa última composta assim que Joey descobriu que estava com o câncer linfático que, apenas alguns anos depois, fez com que ele desencarnasse) o clima geral é de festa, como se quisessem terminar por cima e como se fosse um presente para os fãs. Maior exemplo é a faixa de abertura, o correto cover de "I Don't Wanna Grow Up", do Tom Waits, que soa quase que como uma autoparódia. Temos ainda o cover de "The Crusher" (que muita gente não sabe, mas foi gravada originalmente por Dee Dee Ramone em seu pavoroso álbum de rap citado anteriormente - e talvez seja a única música decente ali), o rock n' roll rasgado de "Scattergun" e as divertidas "Got A Lot To Say", "Have a Nice Day" e "Cretin Family", além de a canção-tema do Homem-Aranha, faixa-bônus escondida que só saiu nas primeiras tiragens da versão americana. CJ canta em quatro faixas, muito provavelmente para poupar Joey


 5 'Too Tough To Die' (1984) 
O trabalho anterior ("Subterranean Jungle") quase fez com que os Ramones encerrassem mais cedo suas atividades, porém a entrada do novo baterista Richie e a acertada escolha de Tommy Erdelyi na produção (a.k.a Tommy Ramone, o baterista da fase áurea da banda) fizeram com que entrassem novamente nos eixos e reencontrassem o caminho do bom e velho punk rock, caso de "Mama's Boy", "Wart Hog", "Danger Zone", "Chasing the Night" e da insana "Endless Vacation", embora também haja espaço para momentos radiofônicos, como "Howling At the Moon". Vale destacar que tenho um carinho todo especial por "Too Tough To Die" pois a primeira camisa de banda de rock que comprei foi uma com a capa deste disco estampada, que usei até virar uma peneira...


 4 'Road To Ruin' (1978) 
A partir daqui é covardia. TODOS os quatro primeiros álbuns são perfeitos! "I Just Wanna Have Something to Do", "She's The One", "Don't Come Close", "I Wanna Be Sedated" - que mais alguém pode querer? Ah, e "Road to Ruin" marca também a estreia (com o pé direito) da primeira passagem de Marky na bateria, pois Tommy não aguentava mais as extensas turnês e nem segurar a onda nas constantes discussões que os demais integrantes, todos geniosos, tinham constantemente. Como curiosidade, temos a balada "Questioningly", que foi escrita pelo baixista Dee Dee apenas porque ele queria provar à sua mãe que era capaz de fazer uma música romântica.


 3 'Leave Home' (1977) 
Sinceramente fica até difícil fazer quaisquer comentários. Digamos apenas que, se você não gosta de "Leave Home" e / ou nem entende como ele pode estar na terceira posição, então você não gosta de rock, fato. Muito mais lapidado que o seminal - porém tosco - disco de estreia, é difícil até citar seus pontos altos, uma vez que ele é bastante coeso e homogêneo: "Gimme Gimme Shock Treatment", "Commando", "Swallow My Pride", "Suzy Is a Headbanger", "You're Gonna Kill That Girl", "Glad To See You Go", o cover de "Califórnia Sun" (da banda Rivieras, que muita gente até hoje acredita ser dos Ramones) e claro, o hino "Pinhead", inspirado num polêmico filme de terror de 1932 chamado "Freaks", que usou pessoas deformadas reais no elenco e de onde foi tirada a icônica frase "Gabba Gabba Hey" (na verdade, isso é uma corruptela da expressão "Gobble Gobble", forma como os personagens na película saudavam uns aos outros)... tá bom ou quer mais?


 2 'Ramones' (1976) 
O disco que mudou para sempre o mundo do rock, mostrando como menos pode ser mais. Simples, rápido (14 músicas em 28 minutos), uma produção suja e tosca, a estreia do quarteto nova-iorquino imortalizou o brado "Hey Ho, Let's Go". Foi o marco zero do movimento punk, tornou casacos de couro e jeans rasgadas uniformes para toda uma geração e que provou como basta três acordes para compor pérolas como "Chainsaw", "Today Your Love, Tomorrow The World", "Judy Is a Punk", "Havana Affair", "Listen To My Heart", "Loudmouth", "Beat on The Brat" e, claro, "Blitzkrieg Bop" (nossa, citei praticamente o álbum inteiro!). Em uma só palavra: fundamental.


 1 'Rocket To Russia' (1977) 
Apesar de sua estreia ser um clássico atemporal, foi aqui em "Rocket to Russia" que a fórmula dos Ramones atingiu seu ponto ideal. Nenhum outro trabalho conseguiu captar com tamanha perfeição e energia sua mistura de surf music dos anos 50 e 60, garage rock e pop. Não existe alguém que tenha um mínimo de apreço por punk que não conheça "Cretin Hop", "Rockaway Beach", "I Don't Care", "Sheena Is a Punk Rocker", "Teenage Lobotomy", "Ramona" e os covers de "Do You Wanna Dance?" (do Johnny Rivers) e "Surfin' Bird" (do Trashmen). Verdadeiro manual de como fazer um bom disco de rock n' roll!

4 comentários:

  1. Muito bom os comentários de cada disco. Concordo com o Rocket To Russia em 1°, mas colocaria o Leave Home em 2°. Ótima matéria!!!

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  2. Prezado Alexandre,
    Antes de mais nada, MUITO obrigado pelos elogios!! Quanto ao "Leave Home", eu admito que até chegar num veredicto, alterei essa lista centenas de vezes... como disse na matéria, os 4 primeiros álbuns dos Ramones são perfeitos, eu poderia mudar a ordem que mesmo assim não seria injusto, concorda?: )
    Abração!

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  3. Ótima crítica, como fã dos Ramones não penso muito diferente... e me fez refletir: sempre considerei o "End Of The Century" o pior da banda, devido ao produtor ter descaracterizado TOTALMENTE o som deles, mas agora, pensando bem, não foi culpa da banda, certo? O que vale são as composições do álbum.

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  4. Bela análise, eu prefiro o debut dos caras que o Rocket...que também é um discaço , Ramones é foda.

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