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DISCOS: BON JOVI (BURNING BRIDGES)

BON JOVI

Burning Bridges

Mercury Records; 2015

Por Lucas Scaliza



 

Vocês já tiveram a chance de ouvir os primeiros trabalhos de Jon Bon Jovi? Antes de virar a banda Bon Jovi, ele assinava como John Bongiovi e gravou uma série de demos - todas repletas de um rock como mandava o figurino dos anos 80. Ele não era um bom vocalista ainda e muito menos fazia músicas que seriam marcantes. Parecia um amontoado de sobras e músicas para encher um possível CD. Mas eram demos, então temos que dar um desconto ao Bon Jovi.

O caso é que o Bon Jovi, o grupo, com Jon Bon Jovi à frente dos vocais e das letras, teve uma carreira de sucesso entre os anos 80 e 90. O sucesso atingiu a banda em 1986 com Slippery When Wet, o disco que definiu como eles soariam dali para a frente: hard rock, um pouco de glam, muito romance, a guitarra de Richie Sambora fazendo a diferença, e complementando, o vocal poderoso e alto do cantor. Na sequência vieram New Jersey (1988), Keep The Faith (1992) e These Days (1995), todos mantendo acesa a chama do rock que o Bon Jovi passou a representar: era comercial, levava a mulherada a loucura (como pouquíssimas bandas de rock conseguiram depois deles), mas havia qualidade musical e personalidade ali.

Exatos 20 anos após o lançamento de seu último bom disco, Bon Jovi volta aos holofotes agora com Burning Bridges, seu 13º álbum de inéditas. Nesse trabalho, Bon Jovi quase sempre segue o caminho mais fácil e se entrega não como uma banda de rock, mas como uma banda romântica. Qual um Roberto Carlos, antes um cara que ajudou a despontar o rock brasileiro com seu iê-iê-iê na Jovem Guarda, mas que agora vive de amores inofensivos.

Entre 1995 e 2000, Bon Jovi deu um tempo na carreira de músico. Fez filmes, fez séries, administrou e investiu sua grana em outras coisas. Ao voltar, com Crush (2002) e Bounce (2002), já não era a mesma banda. A veia comercial tomou uma parte maior da banda, mas ainda tentava se manter no rock como antigamente, ao mesmo tempo que se atualizava. Emplacaram os hits “It’s My Life” e “Misunderstood”, alcançando, inclusive, uma nova audiência, jovens que não tinham vivido o ápice de 86 a 95. Daí para frente, a banda lançou novos trabalhos entre 2005 e 2013 (Have a Nice Day, Lost Highway, The Circle e All About Now) que nunca emplacaram e quase ninguém lembra muita coisa. Nem a banda parece se importar muito com o que fizeram nesse tempo. O último ao vivo deles, One Last Wild Night (2013) é quase inteirinho devotado aos seus primeiros anos de carreira, deixando um espaço ridiculamente pequeno para o que foi feito de 2000 até ali.

Aliás, o repertório ao vivo da banda passou a ser baseado nos clássicos do passado, dando a impressão que cada novo disco de estúdio era mais uma desculpa para sair em turnê e tocar o que realmente importava para o público do que produzir música boa e relevante. Não era relevante nem para eles, como seria para um público já viciado nos hits oitentistas?

Burning Bridges tem muito pouco rock. É bom avisar logo de cara, porque uma banda que abriu tantos discos com músicas poderosas, resolveu colocar a sofrida e gemida “A Teardrop To The Sea” para já dar a entender que não é dessa vez que o Bon Jovi vai ser criativo ou mostrar qualquer frescor. “We Don’t Run” entra para o histórico da banda como mais uma tentativa de atualizar o som, colocando grandes refrãos, coros de “Ôôô” e até pequenos trechos de bateria eletrônica, como aqueles do Imagine Dragons. “Saturday Night Gave Me Sunday Morning” é a típica faixa do Bon Jovi dos últimos tempos: uma guitarra levemente distorcida, um bom refrão e um ótimo potencial comercial. “I’m Your Man”, é outro rock do disco que é animadinho e gostosinho e que não vai ficar na sua memória por muito tempo.

Daí para frente, meu amigo, esqueça. Burning Bridges vira um córrego de dores do amor sem imaginação e que não acrescentam nada a discografia dele e ao ouvinte, já que metade dos artistas que lançam novos trabalhos todas as semanas também tocam nesses temas. O pop rock de “We All Fall Down”, a voz e piano com orquestrações de “Blind Love”, a quase eletrônica “Who Would You Die For” e a bobinha “Life is Beautiful” nunca chegam lá. Estão bem feitas, claro, mas isso não garante coisa alguma para um artista do porte de Jon Bon Jovi e seus ótimos músicos. Sufjan Stevens, Kevin Parker (do Tame Impala) e Ruban Nielson (do Unknown Mortal Orchestra) gravaram discos bem melhores e praticamente sozinhos em suas casas. Além disso, música gostosinha feito doce e com bom refrão o One Direction também faz. É preciso ir além disso.

As duas músicas que se destacam são “Fingertips” e “Burning Bridges”. A primeira é uma balada com violões que mostra bons dedilhados em 3/4 no violão e uma guitarra que cria detalhes e sola com gosto, lembrando os momentos mais interessantes de Sambora na banda. É uma balada de amor água com açúcar também, mas pelo menos consegue se diferenciar do restante do álbum. A segunda, que fecha o disco, é a música mais diferente que ouvi do cantor nos últimos anos. Um pop country animadinho e com cara de jingle. Com tanta melação, a faixa te pega de surpresa. Está fadada a ser mais uma música obscura do catálogo do compositor, mas vale a menção pela originalidade. Às vezes algo tão simples e ingênuo quanto “Burning Bridges” tem mais personalidade do que mais uma balada de fossa que nada acrescenta ao rock.

Bon Jovi diz que este novo álbum é uma coleção de músicas que sobraram de discos passados e alguma faixas que haviam começado e não terminado, além de outras feitas especialmente para ele. É o último disco da banda a ser lançado pela Mercury Records e o primeiro a não contar com Richie Sambora como integrante oficial (embora a faixa “Saturday Night…” também esteja creditada ao ex-guitarrista). E a banda vai sair em turnê internacional. Talvez, em uma nova gravadora, em contato com novas ideias, sigam um novo direcionamento. Ter saído do glam rock foi essencial, pois esse estilo soa extremamente brega faz tempo, mas não encontraram nenhum porto seguro onde a banda se encaixasse e pudesse criar canções memoráveis ou discos relevantes. Burning Bridges pode até ser, na realidade, só mais um desses trabalhos preguiçosos feitos para cumprir contrato, mas isso não serve de desculpa para uma carreira que teve apenas quatro ótimos álbuns e vários outros que não mantiveram o mesmo nível.

O que sobra de Burning Bridges é o estereótipo do rockstar que já não tem mais rock na veia, vive do passado mesmo produzindo coisas novas e continua ídolo das mulheres usando as mesmas fórmulas de sempre. E para os fãs de música, o que sobra? Talvez as faixas do novo álbum caiam como uma luva para filmes baseados em livros de John Green e em séries joviais como Pretty Little Liars, The Vampire Diaries e Teen Wolf. Ops, acho que não. Esse público adolescente tem outras referências e não são o Bon Jovi, nem o de antes e muito menos o de hoje.

Um comentário:

  1. "Ter saído do glam rock foi essencial, pois esse estilo soa extremamente brega faz tempo..."

    Mas o que que eles tocam nos shows que a galera mais curte, como você mesmo falou mais acima no post? rs

    Parabéns pelo post. Abraços!

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