terça-feira, 19 de maio de 2015

DISCOS: PAROLA (A PARTE NUBLADA DO CÉU)

PAROLA - A Parte Nublada do Céu

PAROLA

A Parte Nublada do Céu

Independente; 2015

Por Bruno Eduardo





Só não vê quem não quer. A cena rock carioca vive um momento de efervescência. Bandas sedentas e cheias de tesão estão transpirando arte por todos os cantos - de Piedade à Lapa, de Duque de Caxias à Barra da Tijuca. O resultado desse momento de inquietação você recebe em pequenos drops - seja nas mídias sociais, nos eventos independentes, ou nas redações. No meu caso, caiu no colo esse A Parte Nublada do Céu, disco de estreia do Parola - banda que bate cabeça desde 2010 nos becos cariocas. E já adianto: está aí um candidato aos melhores trabalhos do ano.

O som dos caras é o âmago do rock alternativo - com músicas diretas, vigorosas e cheias de atitude. Pedradas como "Prólogo" e  "Muda" são o modelo funcional e diminuto de um Foo Fighters - só que com letras carregadas por uma árida poesia. "É como um convite pra dançar / A graça está em não saber os passos de cor / O seu "sim" faz um passo, invente". A inserção introspectiva de "Aríete" apenas prepara os ouvidos para um combo de bateria e baixo nervosos, e guitarras que estapeiam os tímpanos mais sensíveis. A Parte Nublada do Céu é uma briga saudável entre o esporro e a melodia. Um exemplo disso é a ótima "Calos de Asfalto Quente", que começa numa levada marca passo, e de repente é impulsionada por guitarras que variam dos riffs metal aos acordes abertos e cheios de efeito. Destaque também para a interpretação de Igor Pestana. Sua voz é repleta de sentimento, o que dá força a refrões como: "O mundo nunca foi meu / O mundo todo é meu" (da já citada "Calos de Asfalto Quente") e "Vira lata que vira a pata na cara do bom e velho amor" (da faixa que abre o disco, "Ruído"). Em "Vanguarda", há um flerte com o rock modernoso de bandas como Incubus, onde vale citar também o excelente jogo de bateria, com pratos abertos e um baixo que canta junto.

A parte final do disco ainda reserva a levada pulsante de "A Última Valsa"; a letra cheia de auto-questionamentos em "Muda"; e o ritmo cadenciado de "Vinagre". Para quem ainda teima em dizer por aí que o rock nacional está mal das pernas, recomendo mais atenção aos becos embrionários do gênero. É lá que a coisa acontece de verdade. O disco de estreia do Parola é mais uma prova concreta de que o rock independente respira em qualquer lugar e tempo - até mesmo entre as nuvens negras, que dão o tom na belíssima capa deste álbum.

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