segunda-feira, 30 de março de 2015

Lollapalooza Brasil: um festival feito na medida - para quem foi!

Foto: MRossi
Imagem aérea de um dos palcos do Lollapalooza no Autódromo de Interlagos
Um festival feito apenas para os 136 mil presentes

Por Bruno Eduardo

O Lollapalooza é um festival feito nos moldes de seu público. Ou seja: para gente jovem, disposta a aproveitar todas as aventuras e desventuras de um grande evento, e que não está nem aí se há mais dez bandas além daquelas suas preferidas. O importante mesmo é estar lá, ganhar brindes, fazer selfies, namorar, beber cerveja e, ainda assim, assistir algum bom show (que sempre acontece). Ano passado, já tinha sido diagnosticado que o importante mesmo era a expansão de entretenimento nos 600 mil metros quadrados do Autódromo de Interlagos. O que acontece no palco parece mais algo ilustrativo, como os telões de casas de shows e boates que rolam vídeos clipes enquanto todo mundo flerta, toma umas biritas e se diverte na balada. Não importa a cerveja cara, a comida cara e o principalmente o line up. Ainda mais sabendo que é impossível assistir mais de cinco shows por dia - na íntegra - com a devida atenção que eles possam merecer - ou não. O Lolla é um supra-sumo da juventude classe média, e isso é bom sim! - embora também seja ruim demais.


Estar no Lolla é como zapear canais na TV em busca de algo que te distraia, ou ouvir vários discos de vários artistas no random do seu aparelho de mp3. Nessa onda louca e modernosa, vamos de palco em palco, vendo um pedacinho de cada show, sem entender muito bem a proposta, mas que no fim das contas não importa muito, porque a maioria das bandas também não se importam com isso - e você sai de lá com a sensação de que curtiu tudo. Bem, mas essa é uma visão público-Lolla, não a de um jornalista que deveria estar lá buscando fazer seu trabalho, pautando o rock em todos os seus cantos. Muito menos será a visão de quem pensa que o festival se resume aquilo mostrado no canal Multishow.


Como esse ano eu acabei não entrando nessa aventura - a primeira vez em suas quatro edições - preferi nem assistir nada na TV para não me influenciar. Mesmo porque, eu que participei da cobertura de todas as outras três edições, aprendi que o festival não é feito para quem está em casa, sentado no sofá, comendo pipoca enquanto assiste a transmissão ao vivo. Não é. Ele não foi feito para esse público. E sabedor disso, preferi não cair nessa armadilha e estragar o meu fim de semana. 


Por tudo isso escrito acima, tratei de deixar para meu amigo Lucas Scaliza, a tarefa de trazer uma visão mais heterogênea e honesta, além de mais bem humorada - já que o festival, mesmo com todas as suas pisadas na bola, encanta pela beleza e pelo frescor da juventude - algo que eu, pela TV, não posso enxergar. Abaixo você pode conferir a cobertura do Lollapalooza Brasil 2015 por quem esteve lá - de verdade. 


Lollapalooza: Opinião de quem esteve lá - e não no sofá
Foto: Lucas Scaliza
No Lolla, o público pode ver os shows enquanto descansa no gramado
Por Lucas Scaliza

Antes de qualquer crítica ou avaliação isolada, é importante deixar registrado que organização do evento melhorou consideravelmente se comparada ao ano passado. Quem foi de trem até o Autódromo de Interlagos não teve problemas em chegar ao evento, pois haviam equipes sinalizando todo o percurso entre a estação e o autódromo - fazendo também os 4 portões de entrada funcionar para desafogar as grandes filas.


Utilizar os Lolla Mangos foi um jeito de maquiar o alto custo dos alimentos e bebidas dentro do evento. No entanto, realmente agilizou a compra dos produtos e diminuiu as filas. Mesmo a organização tendo avisado que todo mundo teria que ter seus Mangos para consumir no festival, era totalmente possível comprar com Reais. Dessa forma, a compra e a venda ficou ainda mais agilizada e não condicionada a disponibilidade ou só de dinheiro ou só de Mangos.


A circulação entre os palcos também ficou mais fácil. Entre um grande show e outro ainda era possível ver uma enorme massa de pessoas caminhando na mesma direção, mas a marcha não ficou tão prejudicada como em 2014. Os palcos Axe e Skol tinham um trânsito muito bom e não ficavam tão longe um do outro. Já o Onix demandava uma caminhada bem mais comprida e com diversos morros para subir e descer. Era o palco com o maior espaço para o público e com uma incrível visão panorâmica, mas também era o mais fora de mão.


Mais opções de comida ao longo de todo o espaço do evento conseguiu evitar filas e diversificou as opções. Além do Chef Stage que ficou maior, os food trucks espalhados tinham cardápios interessantes que parecem ter agradado ao pessoal. O preço, contudo, era salgado - R$12 um pequeno cone de batatas fritas, ou R$15 no hambúrguer mais simples de um determinado food, eram os alimentos mais em conta.


Este ano o Lollapalooza investiu na experiência, colocando muito mais pontos de lazer em Interlagos. Tinha desde uma nova área comercial para comprar desde chapéus e bijuterias até cabines fotográficas instantâneas, estande de massagens e lojas de roupas. Além de área para descanso com carregadores de celular ou com redes e muitas "atividades" ocorrendo o dia todo.


Dentre as atividades estava uma montanha-russa em espiral no alto do morro com vista privilegiada do palco Ônix, cuja fila era sempre longa. De frente para o palco Skol, a marca de cerveja fez um ótimo estande com chopp, cerveja, discos de vinil, espaços para fotos diferenciadas e um escorregador na saída. Haviam muitas outras atividades ocorrendo ao longo dos dois dias. Os interessados tinham que perder algum show e enfrentar filas, mas valia a pena, principalmente para quem queria curtir o festival como um todo, não somente cumprir sua agenda musical.


   :::SHOWS::: SÁBADO (28/3)   

No sábado, Plant e Jack White confirmam favoritismo em shows acima da média; Boogarins também se destaca

   JACK WHITE   
Foto: Vinicius Pereira
Jack White fez um dos melhores shows do Lolla
O público presente no Autódromo de Interlagos testemunhou um dos artistas mais interessantes da atualidade fundindo o que há de contemporâneo ao que há de tradicional no rock e no blues de uma forma orgânica e muito menos montada e produzida do que a maioria das grandes bandas que são headliner em festivais mundo afora.

O show de Jack White, grande headliner do sábado do Lollapalooza Brasil 2015, começa antes de ele entrar no palco. A montagem de sua cênica é curiosa. Para começar, seus roadies e sua equipe usam chapéus e calças com suspensórios. Alguns trabalham até mesmo de terno e gravata. A roupa sempre preta, a gravata era azul. O telão do palco Skol foi coberto por  grande e bonita cortina branca. Nas laterais, na frente, cortinas azuis menores. Os três retornos de White são cobertos por uma caixa de madeira branca. Todo o equipamento do palco é branco e/ou azul bebê. A iluminação eficiente é azul do começo ao fim, sem intercalar com outra cor.


Quando entrou no palco, mandando uma versão de "Icky Thump" cheia de improvisos e com participação entusiasmada do público, mostrou que seria uma noite de rock nervoso como o palco Skol ainda não tinha visto naquele dia. E não faltou guitarras distorcidas e solos estridentes carregados de fuzz durante a 1h45 de apresentação, sem falar na participação do baterista de White, que agitava o palco tanto quanto o guitarrista e vocalista.


Jack teve mais sorte que Plant. O público vibrou muito com as músicas do The White Stripes - como "Hotel Yorba", "Black math", "Fell in love with a girl", "We're Going to be Friends" e a sequência matadora de "Cannon/Dead Leaves and the Dirty Ground/Screwdriver". Os fãs também cantaram juntos as músicas da carreira solo. As animadas "High Ball Stepper", " Lazaretto", "Black Bat Licorice" e "Just One Drink"; e as mais  folks "Temporary Ground" e "Love Interruption", garantiram a diversão o público.


O show no Lollapalooza seguiu as características que Jack White sempre manteve ao longo da carreira. Em especial, agora que possui uma ótima banda de apoio, está o fator improviso. Ele sempre dá um jeito de tocar diferente músicas que já são velhas conhecidas do público, seja com solos, mudando partes, ritmos ou chamando alguém da banda para participar de alguma forma. É por isso que sua banda passa o show inteiro de olho em White, observando se ele vai seguir a canção original ou para saber quando ele vai intervir nela. Aceno de cabeça, diálogo, sinal com as mãos são algumas das deixas de White e banda para que todos saibam o que fazer e quando fazer. Por isso, os shows dele nunca são iguais, embora a base (banda e repertório) seja sempre a mesma.

White falou pouco diretamente com o público brasileiro, mas se manteve ativo o show inteiro, inclusive subindo nas caixas de retorno para solar. Em "Steady As She Goes", do Raconteurs, além de contar com um refrão ajudado pela plateia, pediu que o público respondesse "Are you steady now?" no final da música, e foi prontamente atendido.


A divertida "Three Women" foi um dos momentos mais épicos da apresentação em São Paulo. Para começar, White se dividiu entre piano e guitarra. Depois fez um longo e memorável solo no final da música usando energia estática, o que surpreendeu o público.

O bis com "Slowly Turning Into You", " Would You Fight For My Love" e a clássica "Seven Nation Army" fecharam o show primoroso do dono da Third Man Records

   ROBERT PLANT   
Foto: Vinicius Pereira
Plant voltou renovado e bem uma ótima banda de apoio
O palco Skol recebeu seu primeiro grande público do sábado - quando as pessoas já se apertavam desde cedo na espera de sir Robert Plant. Com estilo e acompanhado pela incrível The Sensational Space Shifters Band, Plant começou a apresentação levando o público ao delírio com "Baby, I'm Gonna Leave You", do Led Zeppelin - emendando na excelente "Rainbow", de seu novo disco solo, Lullaby and the Ceaseless Roar.

O restante do ótimo show teria alguns covers ("Spoonful" e "Fixin' to Die"), algumas poucas músicas de seu trabalho solo ("Turn it up" e "Little Maggie") e muitas de sua clássica banda Led Zeppelin. O público ia ao delírio cada vez que identificava canções como "Black Dog", "The Lemon Song", "Going to California", "Never Be", entre outras.


Sempre que possível, Plant expunha a versatilidade de sua banda propondo novos elementos em seu som, seja momentos com boa parte de seus músicos ajudando na percussão ou com a entrada de instrumentos africanos. Sem falar em seus dois guitarristas, excelentes em todos os aspectos e que fizeram o público do Lollapalooza experimentar a sensação de ver um real guitar-hero no palco.


Plant também contribuiu. Andava pelo palco, interagia com seus músicos e pedia para o público de São Paulo participar das músicas que não eram do Zeppelin. Também fez seus conhecidos fraseados vocais que depois tinham que ser repetidos pela plateia, algo que faz desde os tempos de Led. Ficou claro que os fãs e o público geral respeitaram muito o trabalho solo e os covers de Plant, mas não demonstraram muito entusiasmo com as novidades.


Toda a apresentação teve um quê de teatro, com Robert Plant costurando o repertório em torno da ideia de uma "baby" que esteve presente em diversos momentos, desse "Baby, I'm Gonna Leave You", passando por "Arbaden", "Little Maggie" e desembocando com toda a pompa em uma versão fantástica com laivos experimentais de "Whole Lotta Love". Para o bis, Plant e sua banda mandaram a já esperada "Rock and Roll", do Zeppelin, coroando uma apresentação que poderia durar mais uma hora e o público teria fôlego e empolgação para continuar a ver a lenda mais uma vez - mas só se o repertório do Zeppelin também fosse maior, apesar da qualidade do trabalho solo do cantor.


   ALT-J   
Foto: Vinicius Pereira
O público aprovou o som dançante do Alt-J
A banda inglesa Alt-J foi certamente a atração mais cult e alternativa do Lollapalooza 2015. Mesmo não sendo uma banda de performance marcante, eles colocaram o público para dançar ao som de um tipo de música que, para resumir e ser bem genérico, combina elementos de Sigur Rós, trip hop e a vertente mais viajante do Radiohead. Mesmo quem não conhecia o trabalho do grupo, curtiu a proposta indie party dos caras. No setlist, músicas de seus dois álbuns de estúdio - dando prioridade ao mais recente, This Is All Yours, que traz as canções mais conhecidas pelo público, como "Hunger of The Pine", "Left Hand Free", "Every Other Frickle" e "The Gospel of John Hurt". Do debut, o grupo se garantiu nos cinco singles, e foi recebido com entusiasmo pelos fãs.

O aspecto cult, no entanto, fala mais alto e o público releva a considerável imobilidade dos músicos no palco. O telão do evento deu mais destaque para Joe Newman (guitarra) e Gus Unger-Hamilton (teclado), mas o multi-instrumentista Cameron Knight e o versátil baterista Thom Green mereciam mais destaque, por completar com tanta competência o som da banda - principalmente Thom, que foi responsável pelos ritmos quebrados e bem feitos que renderam elogios ao grupo durante o show. Sem iluminação para complementar a cênica (ainda era dia) e sem utilizar o telão de fundo, foi um show despojado e de pouco movimento. Mas o público aprovou.


   BOOGARINS   
Foto: Adriano Vizoni
Dinho Almeida e seus solos viajantes no Lolla
Boogarins fez bom show muito psicodélico e viajante. Usaram muitos efeitos de guitarra e versos repetitivos para criar o efeito de viagem de ácido que pretendiam. Como tocaram muito cedo, tiveram que se apresentar para as poucas pessoas que estavam dispostas a conhecer a nova cena brasileira. Outro problema de tocar cedo e com um céu muito claro sobre São Paulo: não foi possível complementar a experiência com a iluminação condizente com o clima do show. A banda goiana teve uma performance exemplar. Apostaram em graves bonitos e que eram ouvidos de longe na área do palco Axe. Bons solos de guitarra e o vocal de Dinho Almeida era tão doce que só tornou tudo ainda mais psicodélico. Com empolgação e força, tentando conquistar quem ainda não os conhecia, o Boogarins deu um show de musicalidade.

   BANDA DO MAR   
Foto: Breno Galtier
Marcelo Camelo e Mallu Magalhães nos braços da galera
Tocar em festival indie é jogo ganho para a Banda do Mar. Tocaram no palco Skol, ao mesmo tempo que o Boogarins e tiveram mais público que o grupo goiano. No repertório, músicas animadas e ensolaradas da parceria entre Marcelo Camelo, Mallu Magalhães e Fred Ferreira, mas com espaço também para músicas do Los Hermanos ("Além do que se Vê" e "Morena"); da carreira solo de Mallu ("Velha e Louca", "Sambinha Bom" e "Olha só, Moreno") e solo do Camelo ("Janta"). Não foi um show forte em termos de impacto sonoro, mas teve o jeitinho do grupo. O público bastante jovem não parecia precisar ser conquistado pela Banda do Mar. Estavam empolgados e cantavam junto com os artistas como quem já os acompanham a algum tempo. Em suma, foi uma apresentação sem grandes desafios, já que o jogo já estava ganho desde o início.

   :::SHOWS::: DOMINGO (29/3)   

Nem a chuva esfriou o Lolla no domingo, que teve bons shows de Smashing Pumpkins, Interpol e Far From Alaska

   THE SMASHING PUMPKINS   
Foto: Junior Lago
Billy Corgan comanda o ótimo show do Smashing Pumpkins
Apesar de toda a lenda e de todo o culto por trás de Billy Corgan - único remanescente do Smashing Pumpkins original - era fato que esperava-se um público maior no palco Axe. O domingo foi realmente dominado pelos headliners mais pop, Calvin Harris no palco Onix e Pharrel Williams no palco Skol. Mas quem ficou para ver o rock alternativo da noite, que influenciou tanta gente e tantas bandas que passaram pela história do Lollapalooza, não deve ter se decepcionado.

A introdução foi de arrepiar fãs novos e das antigas. Todo o poder de “Cherub Rock”, em seguida a melodia e a beleza do clássico “Tonight, Tonight” e, para não restar dúvidas de que seria incrível, “Ava Adore”, outra das preferidas do grupo.


Em seguida, mandaram “Being Beige” e “Drum + Fife”, ótimas faixas do novo disco do Pumpkins, Monuments To an Elegy (2014). Da nova fase, tocara ainda “Monuments” e a roqueira “All and One (We are)”. A bonita “Pale Horse” foi a única música de executada de Oceania (2012).


Ninguém passou incólume pela força com que “1979” foi recebida. É, afinal, outra das obrigatórias do repertório da banda, vinda do clássico Mellon Collie And The Infinite Sadness (1995) que completa 20 anos em 2015. E “Disarm”, do disco Siamese Dream (1993), foi oferecida em homenagem a sua gata, que morreu enquanto Corgan tocava pela América do Sul nas últimas semanas - momento em que ele também lembrou que era aniversário de Perry Farrell (organizador do Lolla) e que seu próprio aniversário tinha ocorrido duas semanas antes (durante o show no Peru). Foi o momento de maior interação com o público.


Também do álbum de 1995, a banda mandou o petardo “Bullet With Butterfly Wings” para fechar com peso de sobra. Um fato engraçado: enquanto a banda aquecia para iniciar a canção, a atriz Daniele Suzuki (que apresentou o Lolla para a Globo/Multishow) passou correndo pelo corredor que separa a plateia em dois com um funcionário da Globo filmando sua trajetória com um celular. Billy viu a cena e assim que a atriz passou olhou para o outro guitarrista da banda com uma cara engraçado de quem não entendeu e se perguntava “Que diabos foi isso?”


Billy Corgan é o coração, a mente e a alma por trás do Smashing Pumpkins, uma banda que ainda tem repertório mas se resume a um homem só. Mesmo os músicos que o acompanham nessa turnê são convidados e possuem compromissos em seus outros grupos. Além disso, Corgan andou falando que não sabe mais qual seria a relevância dos Pumpkins daqui para frente. Mesmo assim, já que se propôs a sair em turnê, lançar disco novo e tocar em festival, fez valer a pena: além do ótimo setlist, fez solos memoráveis, teve seu momento noiser, tocou guitarra com a boca e separou um momento para ser performer, erguendo a guitarra e fazendo-a gemer com pesado distorção enquanto a agarrava com apenas uma mão.


Tudo isso fez o Smashing Pumpkins apresentar um show estridente e rock’n’roll que significou algo para o público. Por fim, ele voltou sozinho ao palco para o bis tocou “Today” no violão. Agradeceu ao público e saiu. Ficou a sensação de que aquele não podia ser o final, parecia que a banda ainda voltaria para tocar mais alguma canção especialmente escolhida para mandar todos felizes para casa. Mas era o final mesmo. Solitário, acústico e com jeito melancólico.

Com tantos sentimentos reais e pesados nas músicas de Corgan, a identificação do público aconteceu naturalmente. Não era preciso procurar muito para ver alguém cantando a plenos pulmões ou com lágrimas escorrendo. Pode não ter sido o maior público do festival, mas foi um dos momentos mais honestos.


   INTERPOL   
Foto: Divulgação/T4F
Paul Banks se comunicou pouco, mas não decepcionou os fãs
Nem a chuva fina fez a galera arredar o pé durante a apresentação do Interpol. Na verdade, o clima mais frio e nublado jogou a favor da banda, que pôde utilizar a iluminação do palco de forma adequada - com todos vestidos de preto, mantendo um clima para lá de melancólico. 

Liderados pelo tímido Paul Banks, o Interpol apresentou um repertório compactado, tocando menos tempo que no Lolla chileno, e focou em canções para agradar seu público, mostrando, no entanto, pouca confiança no bom material do disco mais recente, El Pintor. Deste, tocaram apenas “Anywhere”, “Everything is Wrong” e a ótima “All The Rage Back Home”. O resto foi apenas o que os fãs gostariam de ouvir, como “Say Hello to The Angels” - faixa do primeiro álbum do grupo, Turn On The Bright Lights (2002) - e “Leif Erikson” - recebida com igual entusiasmo. Outras que agitaram o público foram “Evil”, “Rest My Chemistry”, “NYC” e “Slow Hands” - que fechou a apresentação. 


Mesmo que alguns tenham reclamado que o grupo não interaja de forma mais afetiva com os fãs, musicalmente ninguém tem do que reclamar. Foi um bom show, que serviu para fazer um apanhado de toda carreira do Interpol. De negativo, apenas a falta de surpresas no repertório, que soou um pouco datado para quem acompanha de perto a agenda do grupo. 

   YOUNG THE GIANT   
Foto: Divulgação/T4F
Samer Gadhia foi puro carisma em ótima apresentação
Os californianos fizeram uma ótima apresentação. Entre o rock de Pitty e os clássicos do Smashing Pumpkins, o Young The Giant era o indie de nicho espremido entre duas forças maiores que eles no Brasil.

Quem foi vê-los pareceu curtir. O quinteto era naturalmente simpático. O vocalista Sameer Gadhia, que nas duas primeiras músicas se revezava entre três microfones, tinha um jeito bem despojado e expressões de cão-sem-dono, não deixando de interpretar cada canção. Não faltou comparações entre Jesus Cristo e o cabeludo e barbudo baixista Payam Doostzadeh. E os guitarristas Jacob Tilley e Eric Cannata dançavam de um jeito bastante peculiar com seus instrumentos em mãos. É a banda indie e hipster por excelência do festival.


Mas que a verdade seja dita: longe de ser um dos grupos mais conhecidos do festival ou uma das bandas com maior histórico e hits para mostrar (eles têm apenas dois discos de estúdio), o Young The Giant provou que entende de música. Várias levadas em 3/4, trocas de ritmo e acordes bem encaixados em suas harmonias, sem falar que em diversos momentos criavam contrapontos interessantes e camadas sonoras ricas, onde cada instrumento tinha seu papel. Como instrumentistas, eles realmente sabem fugir do esquema em que todos tocam as mesmas notas do mesmo jeito.


No repertório, as obrigatórias “Cough Syrup”, recebida com entusiasmo pelo público, e “My Body”, que terminou muito bem o show. Mas o grosso da apresentação era de canções de Mind Over Matter (2014), o álbum mais recente do grupo. “Slow dive”, “Anagram”, “It’s about time”, “Eros”, “Wave”, “Camera” e “Paralysis”.


O disco novo dos californianos chegou ao 6º lugar nas paradas alternativas dos EUA, o que explica a inclusão do grupo no Lollapalooza. No entanto, o público brasileiro em geral ainda não sabe quem são eles. Prova disso é que a plateia, mesmo na iminência de um Smashing Pumpkins logo depois, não foi muito maior que a da Pitty. Para piorar, tocaram no mesmo horário que o conhecido DJ Calvin Harris, este sim com hits bombando no país.
 

   THREE DAYS GRACE   
Foto: AGNews
Banda de Matt Waldst aqueceu a galera num domingo de muito frio
Os canadenses do Three Days Grace tocaram no palco Axe para um público consideravelmente pequeno, mas suficiente para acompanhar todo o barulho promovido pelo nu metal da banda. O vocalista Matt Waldst não poupou a garganta e fez tudo o que o horário (final de tarde, mas ainda longe de ver o sol de pôr) permitia para empolgar o público e ser um verdadeiro frontman.

Human, o novo disco do grupo, vazou na rede alguns dias antes do show em São Paulo. Dele, mandaram as três melhores: a climática “I Am Machine”, a pesada “Painkiller” e a ótima “Human Race”, com direito a um belo solo de guitarra de Barry Stock.


Para quem procurava peso, um prenúncio talvez do que seria o Smashing Pumpkins horas mais tarde. Foi uma porrada atrás da outra: “Pain”, “Home”, “Animal I Have Become” e a superconhecida “I Hate Everything About You”, do primeiro disco da banda, que fez todo mundo cantar junto.


É rock pesado, mas o som do Three Days Grace é pesado para uma plateia jovem. E esse tipo de som apareceu no palco certo e encontrou seu público no domingo. Quem estava atrás de um rock mais sofisticado ou mais maduro podia encontrar em outras bandas que se apresentaram no sábado ou mesmo no domingo, mas foi a escolha certa para quem prefere algo mais direto e reto.


Embora não seja uma grande banda com muitos diferenciais, o Three Days Grace cumpriu o que seu repertório prometia. Não deixou a desejar e esquentou o público com muitas batidas firmes na bateria, baixo bem alto e guitarradas carregadas de distorção. Para fechar, mandaram a power ballad “Never Too Late” e em seguida a nervosa “Riot”, ambos do álbum One-X (2006), o segundo disco do grupo. 


   PITTY   
Foto: Vinicius Pereira
Pitty mostrou confiança e ótimo repertório no Lolla
A baiana Pitty entrou no palco confiante. E seguiu assim até o fim de sua exitosa apresentação, planejada sob medida para funcionar em festivais. Mesmo quem nunca parou para ouvir nenhum dos discos inteiros de Pitty não teria dificuldade nenhuma em acompanhar o show. Foram vários hits radiofônicos e apenas duas ou três músicas que fugiam do esquema “aposte no familiar”.

Estratégias a parte, Pitty arrebatou a plateia. Sua expressão corporal, a liberdade como se dirigia ao público e como se movimentava de um lado para outro criaram uma cena interessante de acompanhar. Ela agachava para acionar efeitos de voz com as mãos, chutava o ar, dançava e até rodopiava o microfone segurando seu cabo – tudo devidamente acompanhando o nível de empolgação e de dinâmica de sua música.


Após abrir com “Setevidas”, do disco de mesmo nome lançado ano passado, foi mais uma que deu uma geral na carreira: “Admirável Chip Novo” e “Máscara” (ambas do debut), “Memórias” e “Na Sua Estante” (do segundo disco) e “Me Adora”, do terceiro. O público respondeu a todas as músicas mostrando que o rock’n’roll da baiana estava sendo bem recebido pelo ótimo público que ela conseguiu atrair no palco Axe.


Diferente da esmagadora maioria de outras bandas que passaram pelo festival, Pitty não se fez de rogada e apresentou, apesar dos hits, uma maioria de músicas novas do disco Setevidas (2014). “Um leão”, “Deixa ela entrar”, “Boca aberta”, “Pouco” e, para fechar, “Serpente”. Antes de terminar o show, ela disse que havia sobrado tempo e tocariam mais uma, mas seria um lado B. “Mantenham seus corações abertos”, ela pediu. E o público, é claro, correspondeu.


Entre os artistas nacionais que se apresentaram no Lollapalooza 2015, Pitty foi uma das que melhor usou o telão, sempre com alguma animação ou clipe pronto para ilustrar e acompanhar o desenvolvimento de cada faixa. Foi também a artistas brasileira que ganhou o melhor horário para se apresentar, quando já era noite, favorecendo toda a cênica e o jogo de luzes.


Tão logo Pitty deixou o palco, o espaço do palco Axe foi evacuado pela maioria do público que, ao que parece, tivera sua última dose de rock e ia procurar atração para fechar o dia com Calvin Harris e/ou Pharrel Williams.


   FAR FROM ALASKA   
Foto: AGNews
Emmily Barreto não poupou a voz e Far From Alaska levantou o público
Assim que cheguei ao Autódromo de Interlagos no domingo, saia que tinha um destino certeiro: o longínquo palco Onix, cuja primeira atração seria a banda Far From Alaska, revelação do hard rock do Rio Grande do Norte. A expectativa era grande, mas grande foi a dose de agressividade que a banda jogou para cima do público. E não eram nem 13h quando o Far From Alaska subiu no palco (mas deu tempo até dos músicos do Scalene, que tocaram antes no mesmo dia no palco Skol comparecerem).

Um show curto para um público relativamente pequeno que teve pique para chegar cedo e caminhar até o Onix. Mas quem ficou para ver se surpreendeu com a energia da banda. Com apenas 45 minutos para mandar seu recado, eles tocaram apenas composições próprias do disco modeHuman, lançado em 2014. “Thievery”, “Deadmen”, “Dino vs. Dino” e “Monochrome” mostraram que a banda não estava para brincadeira e agarrou a oportunidade de tocar no Lollapalooza com todo o corpo.


Emmily não poupou a garganta e cantou como nunca – ou com a mesma força que mostra no disco. Ou seja: cantou alto, cantou bem e com voz rasgada. Quem não esperava tanta energia saiu surpreso. Para a primeira banda do palco e com apenas um disco lançado, Emmily, Rafael Brasil (guitarra), Lauro Kirsch (bateria), Edu Filgueira (baixo) e Cris Botarelli (lap steel e sintetizador) tiveram performances surpreendentes. Se o Boogarins foi forte e viajante no dia anterior, o Far From Alaska foi direto no domingo, preparando o público para outras pedradas que viriam ao longo do dia.

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