sábado, 15 de novembro de 2014

DISCOS: WARPAINT (WARPAINT)

WARPAINT

Warpaint

Rough Trade Records; 2014

Por Lucas Scaliza






O que acontece se misturarmos o dream pop quase minimalista da Lorde com o vigor eletrônico do Chvrches, acrescentar o tipo de som feito pelos parceiros Nigel Godrich e Thom Yorke no Atoms For Peace ao modo econômico de tocar das meninas do Savages?

Muito difícil saber o que daria isso tudo – mas também é uma questão retórica, é verdade. Entretanto, é misturando esses quatro nomes da música contemporânea que encontraria um modo de sintetizar como as quatro meninas do Warpaint soam em seu segundo disco, Warpaint, lançado em janeiro.

Vou explicar melhor. Assim como o Savages, O Warpaint é formado por quatro meninas: Emily Kokal (vocal, guitarra, sintetizadores), Theresa Wayman (guitarra, vocal, teclado), Jenny Lee Lindberg (baixo) e Stella Mozgawa (bateria, guitarra). Elas não demonstram virtuosismo nos instrumentos e nem grandes habilidades técnicas, novamente como a Savages. No entanto, o modo como expressam suas composições, misturando elementos orgânicos e eletrônicos com uma sofisticação que foge do pop acessível lembra o Atoms For Peace. Não é a toa que Nigel Godrich (que é parte da banda Atoms e produz Radiohead e os discos solo de Thom Yorke) assina também a mixagem de duas faixas de Warpaint, a ótima “Love is to die” e “Feeling alright”. O resto do álbum foi produzido por Flood, que já trabalhou com gente classuda como U2, Nick Cave & The Bad Seeds, Nine Inch Nails, New Order e Sigur Rós. Por aí já fica claro como as meninas conseguiram expressar tão bem um clima espacial e minimalista ao longo de todo o disco.

O minimalismo, as ótimas e gentis linhas de baixo e o desapego por vocais chicletes lembram um pouco Pure Heroine da Lorde. Warpaint tem a mesma desafetação e certa austeridade que o disco da neozelandesa. Já o vocal de Emily Kokal não é poderoso como o de Lorde, mas doce e suave como o de Lauren Mayberry, do Chvrches. Aliás, Lauren fez uma resenha para este disco a pedido do site The Talkhouse.

Nada no álbum é estridente. Ouvi-lo é como vagar pela superfície da lua dentro de uma bolha. O vocal de Kokal ajuda a embalar, assim como as batidas contidas de Mozgawa e as notas graves de Lindberg, que são o maior destaque da banda. Não são músicas explosivas ou com refrãos cantaroláveis logo à primeira audição. Ao contrário, há uma certa imprevisibilidade. Os ritmos podem mudar, as melodias de voz também. Não há segurança que tudo se repita até o fim naquela estrutura de música pop previsível (uma estrutura que ajuda o ouvinte a se localizar, a acompanhar a canção e a fazê-la parecer mais digerível). Até mesmo “Love is To Die”, o single, tem essas características.

Biggy”, “Disco/Very”, “Feeling Alright” e “CC” são faixas bem climáticas e bastante noturnas. “Drive” é a única que caminha para um momento de real exacerbação sonora e “Son” é a única que adiciona uma carga maior de drama ao post-rock do álbum. Você sente a presença do eletrônico, mas a todo momento é lembrado que há uma banda executando tudo ali (ou pelo menos a maioria dos instrumentos que ouve). Por mais especial e etéreo que soe, as músicas em Warpaint foram todas compostas pelas quatro integrantes reunidas no estúdio e fazendo jam sessions, descobrindo juntas onde aquelas ideias as levariam. Método mais terreno e orgânico que esse não há.

Além dos experientes Flood e Godrich, as meninas foram ajudadas também logo no início da carreira por John Frusciante (ex-guitarrista do Red Hot Chili Peppers que lançou o experimental Enclosure este ano) e Josh Klinghoffer (atual guitarrista do RHCP e parceiro de Frusciante). Frusciante mixou e masterizou o EP Exquisite Corpse (2008), cujas guitarras e baterias foram tocadas por Klinghoffer.

Se não descer na primeira vez, tente de novo alguns dias depois. Assim como o Atoms For Peace, o processo de se acostumar com o diferente é recompensador.

0 comentários:

Postar um comentário